Uma psicanálise para o povo

Patricia Gherovici

 

Cada vez que compartilho minha experiência de ter realizado tratamentos psicanalíticos com latinos pobres no "barrio" da cidade de Filadélfia, desperto surpresa, dúvida e descrença. É uma espécie de ato reflexo, uma resposta automática que revela que meus interlocutores assumem que a possibilidade de trabalhar psicanaliticamente com minorias pobres e pessoas de cor é simplesmente inimaginável. Como já disse várias vezes, é como se pensassem que os pobres não pudessem se dar ao luxo de ter um inconsciente. Ao contrário da maioria dos países latino-americanos, onde a psicanálise tem sido uma prática associada à justiça social, nos Estados Unidos a psicanálise foi reservada para os abastados, sob as alegações de que as pessoas de baixa renda não têm a sofisticação necessária, que as pessoas desfavorecidas têm problemas “reais” e que estariam tão consumidas pelas pressões da vida cotidiana que só se beneficiariam de intervenções focadas no sintoma, sem poder dar espaço para explorar a dimensão inconsciente de suas experiências.

Para melhor contextualizar esta questão, vamos começar explorando o que é chamado de “barrio” nos EUA. Enquanto em espanhol “barrio” denota uma conexão afetiva com o local de origem, até mesmo com a casa, nos EUA “barrio” geralmente se refere a uma vizinhança de imigrantes de língua espanhola, muitas vezes uma parte da cidade marginalizada, em estado precário e com deficiências de infraestrutura, abarrotada de pessoas que vivem na pobreza, o equivalente a um gueto. Um rápido desvio pela origem da palavra gueto é esclarecedor. O termo vem de Veneza, remontando a 500 anos e referindo-se ao local onde a comunidade judaica foi forçada a viver em segregação residencial.[1] Como nos guetos, as moradias no bairro são limitadas, superlotadas e insalubres.[2] Os judeus tinham que retornar ao gueto ao pôr do sol porque os portões ficaram trancados até o amanhecer. Fronteiras intransponíveis semelhantes isolam bairros.

Vale a pena questionar a ideia de que a psicanálise só pode ser praticada com pacientes de classe média e média alta. Por causa dessa suposição, a psicanálise nos Estados Unidos está presa em outro gueto: o dos ricos. Aspectos importantes da experiência humana como raça, desigualdade social e identidade de gênero (todas essas categorias construídas de diferença) foram historicamente negligenciados na teoria psicanalítica. Constituem um recalcado sintomaticamente perturbador para a psicanálise.

Embora seja indiscutível que o desenvolvimento urbano desigual e a distribuição injusta da riqueza criam esses espaços urbanos de desamparo, quero deliberadamente retê-los para usar minha experiência como psicanalista praticando em um “barrio” como ponto de partida e, a partir dessa perspectiva, questionar algumas crenças comuns sobre a psicanálise, muitas vezes apresentada como um tratamento que só pode ser praticado com sucesso com pacientes de classe média e média alta. Convido vocês, então, a irem além dos estereótipos.

 

Integração falida

O velho ideal americano de assimilação em um caldeirão de raças, um processo imaginado como uma fusão harmoniosa de todas as etnias em uma cultura homogênea, foi suplantado pela realidade de um mosaico de pequenas comunidades, uma salada mista que justapõe diferentes grupos como ingredientes separados que podem ser combinados, mas que não são realmente misturados ou integrados. Embora suas políticas de imigração tenham mudado significativamente nos últimos anos, os Estados Unidos continuam sendo uma nação construída por imigrantes, um país que historicamente acolheu e protegeu estrangeiros e defendeu a liberdade religiosa, protegendo e perseguindo ideais democráticos. No entanto, este projeto não foi totalmente realizado.

Apesar da latinização concreta dos Estados Unidos, essa presença cultural não garante a integração econômica: a população latina, juntamente com a população afro-americana, continua a ter os maiores percentuais de pobreza. A comunidade de língua espanhola foi desproporcionalmente afetada pelo COVID-19, com quase três vezes mais casos per capita entre latinos do que brancos e uma taxa de hospitalização 4,6 vezes maior. Mas os problemas de saúde e a falta de acesso aos cuidados de saúde precedem a pandemia. Em termos da chamada saúde mental, os latinos têm acesso limitado ao tratamento para depressão, ansiedade e outros problemas emocionais.

Por que tentar inserir a psicanálise em uma conjuntura tão complexa? Ao contrário da crença comum de que os pobres são tão consumidos pelas pressões da vida cotidiana que só podem se beneficiar de intervenções concretas e focadas nos sintomas, a psicanálise facilita a exploração do inconsciente que sustenta o comportamento sintomático. Minha experiência conduzindo tratamentos psicanalíticos com pessoas do “barrio” me ensinou que os princípios psicanalíticos podem ser aplicados com resultados benéficos no trabalho clínico com pacientes latinos afetados pela pobreza. Dadas as complexidades introduzidas pelas diferenças de cultura, classe, gênero, língua, etnia e raça, a psicanálise define uma posição ética que tem potencial emancipatório.

 

O futuro

Embora a influência cultural da psicanálise nos Estados Unidos esteja diminuindo, a prática psicanalítica continua a florescer em todo o mundo, particularmente nos países de língua espanhola, onde o compromisso de Freud com o tratamento dos pobres continua vivo. Na Argentina, por exemplo, os psicanalistas oferecem tratamento com honorários em uma escala móvel calculada de acordo com a renda de cada paciente. A maioria dos programas de seguro de saúde cobre várias sessões por ano, e muitas clínicas psicanalíticas em hospitais estaduais gratuitos atendem às classes trabalhadoras. Esse desenvolvimento pode ser difícil de imaginar nos EUA.

Como mostramos em nosso livro,[3] coleção inspirada no documentário “Psicanálise no ‘barrio’”,[4] de Basia Winograd, a psicanálise pode ser aplicada com sucesso nas chamadas zonas alienadas. Como vimos, esses lugares marginalizados são ambientes hostis, assolados pela criminalidade resultante da economia paralela do tráfico de drogas, com presença crescente de religiões fundamentalistas, fragmentação familiar, extrema pobreza e violência.

A falta de acesso à psicanálise entre as classes menos privilegiadas seria talvez uma forma de racismo? Freud nunca se referiu formalmente à raça como tal, mas não esqueçamos que as leis raciais o obrigaram a deixar Viena; ele morreu em exílio forçado em Londres. Ele foi perseguido por sua raça e, como tantos milhões de outros na história recente, tornou-se um deslocado, um refugiado. Em uma entrevista que concedeu em 1926 (publicada em 1927), Freud é saudado como "o grande explorador austríaco do mundo inferior da alma" e "o Colombo do subconsciente".[5] Seu entrevistador, George Silvester Viereck, afirma que "Freud nos reconecta com as forças específicas dentro de nós que nos ligam ao nosso próprio passado infantil e ao passado da raça". Que raça é invocada aqui?

Não é por acaso que o entrevistador, Viereck, era um partidário do nazismo que foi entrevistar Goering logo depois de Freud. Viereck parece consternado quando Freud se identifica como judeu, ou seja, como membro de uma minoria racializada perseguida. Na entrevista, Freud compara os psicanalistas a bodes expiatórios dos hebreus: "Os outros carregam seus pecados sobre eles". Viereck contradiz Freud ao dizer que “a psicanálise necessariamente induz em todos aqueles que a praticam o espírito de caridade cristã. Não há nada na vida humana que a psicanálise não possa nos fazer entender. “Tout comprendre c'est tout pardonner” (compreender tudo é perdoar tudo)”.

Freud explicita sua discordância: "Pelo contrário, Freud trovejou", escreve Viereck, "seu rosto assumindo a severidade feroz de um profeta hebreu". Freud continua: “Entender tudo não é perdoar tudo. A psicanálise nos ensina não apenas o que podemos suportar, mas também o que devemos evitar. ... A tolerância do mal não é de forma alguma um corolário do conhecimento.” Viereck não parece notar a ironia de Freud ou as implicações de suas afirmações. Viereck, no entanto, chega a uma conclusão: “De repente entendi… Seu senso de justiça é herança de seus ancestrais. É uma herança da qual ele se orgulha, assim como se orgulha de sua raça”. Viereck continua citando Freud em um momento revelador: “Minha língua é o alemão. Minha cultura, minhas conquistas são alemãs. Eu me considerava um alemão intelectualmente, até perceber o aumento do preconceito antissemita na Alemanha e na Áustria alemã. Desde então, já não me considero mais alemão. Prefiro me chamar de judeu.”

 

O outro

Além de dar uma lição maravilhosa a um simpatizante do nazismo, Freud na entrevista também fala sobre a importância da análise leiga e destaca o papel primordial da pulsão de morte na economia psíquica. Aqui vemos um exemplo da tensão inerente à psicanálise entre um certo universalismo que muitas vezes esconde realidades colonialistas e imperialistas e uma posição marginalizada de alteridade que, no entanto, se esforça para abordar todas as questões. Essa tensão reaparece nas obras de dois pensadores do racismo que destacam a importância da psicanálise em seu pensamento: Frantz Fanon,[6] que usa Jacques Lacan contra Octave Mannoni para colocar o negro como um Outro absoluto, excluído e sexualizado, e Frank Wilderson,[7] que também refere-se a Lacan e depois argumenta em Afropessimismo que a abominação da escravidão não acabou e que a posição subjugada dos afro-americanos continua a posicioná-los como não-humanos. Essa exclusão estrutural os colocaria em uma situação de morte social, uma morte que satura a vida dos afro-americanos.

Isso levanta a questão: como alguém se torna um outro racializado? Esta é a questão brilhantemente trabalhada por Toni Morrison em uma série de palestras ministradas na Universidade de Harvard sobre raça, medo, fronteiras, movimento em massa de povos e desejo de pertencimento, publicadas em The Origin of Others.[8] A reflexão afiada de Morrison não lida com diferenças raciais, mas sim com o problema do ódio, uma vez que ela acredita que existe apenas uma raça: somos todos humanos. “Raça é a classificação de uma espécie, e nós somos a raça humana, ponto final”.[9]

As diferenças entre as pessoas podem ser construídas tangencialmente em genes e taxonomias biológicas, mas são principalmente o resultado de fantasias projetivas. Morrison examina a fetichização da cor da pele em nossa era de migração em massa, ponderando por que os seres humanos inventam e reforçam categorias de alteridade que são desumanizantes. A originalidade de Morrison é mostrar que o racismo não afeta apenas suas vítimas, que são despojadas de sua humanidade, mas que o racismo também desumaniza os próprios racistas, que não seriam nada sem ele.[10]

Seguindo o exemplo de Toni Morrison, proponho uma viagem pela fantasia racista. Para isso, farei um breve desvio por uma rápida metapsicologia do racismo. Embora tenhamos ouvido o termo depreciativo ciência judaica para descrever a psicanálise e tenhamos visto o próprio Freud oferecer a Viereck uma definição de seu judaísmo em termos raciais, podemos dizer que Freud inventou uma relação única com seu próprio judaísmo: uma invenção que o sustentou em seu esplêndido isolamento e forneceu as bases para uma concepção da psicanálise como uma experiência de exílio subjetivo.

De fato, o psicanalista é um outro colocado estruturalmente na posição de estrangeiro, como destaca Betty Fuks[11] ao propor que a relação entre Freud e a psicanálise é determinada não pelo judaísmo (o conjunto das tradições culturais e religiosas judaicas), mas pela judeidade (sentir-se judeu, de uma forma que está sempre se reinventando, válida mesmo para quem não pratica religião ou não pertence à judaicidade). Mas essa judeidade não é uma experiência exclusiva do psicanalista porque, como propõe Julia Kristeva, somos todos estrangeiros para nós mesmos (segundo o título de seu livro):

Conviver com o outro, com o estrangeiro, nos confronta com a possibilidade ou não de ser outro. Não é simplesmente uma questão, humanisticamente falando, de poder aceitar o outro, mas de estar em seu lugar, e isso significa imaginar e tornar-se outro em relação a si mesmo. [...] Ou devemos reconhecer que alguém se torna estrangeiro em outro país porque já é estrangeiro por dentro?[12]

Podemos encontrar muitos exemplos desse outro estrangeiro de dentro, seja a descrição freudiana do inconsciente como a cena do Outro (em alemão: andere Schauplatz), seja a noção freudiana de pulsão, seja quando somos surpreendidos por um lapso da língua e essa manifestação repentina do nosso próprio inconsciente soa como uma língua estrangeira. Kristeva vinculoa o ser estrangeiro com o ódio a si mesmo (entendido aqui como fazer-se outro para si mesmo). Para entender isso, a obra de Freud é esclarecedora.

Freud explora o ódio ao abordar a noção de amor, quando considera a injunção do Antigo Testamento "Amarás ao teu próximo como a ti mesmo". A frase instrui os israelitas a não se odiarem, ou se vingarem ou guardarem rancor uns contra os outros, mas a amarem uns aos outros. Este mandamento de amor universal foi mais tarde associado a uma exigência fundamental do cristianismo. Freud[13] permaneceu cético em relação ao mandamento de amar o próximo, que ele considerava simplesmente impossível de seguir.

Essa é uma passagem notável, bastante visitada do texto "O mal-estar na civilização",[14] que trata sobre como é difícil amar os outros . De fato, Freud parte da injunção bíblica ao amor para discutir uma disposição humana geral à agressão e à hostilidade mútua. Diante da prescrição do amor, ele se pergunta: amor? porque? Ao final, Freud interpõe o mandamento do amor com o dictum latino Homo homini lúpus, o homem é o lobo do homem.

Já em “Os instintos [Trieb] e seus destinos”,[15] afirma que “enquanto relação com o objeto, o ódio é mais antigo que o amor”.[16] Para a criança, o ódio é a forma mais primária pela qual a realidade externa é percebida: "O exterior, o objeto, o odiado seriam sempre idênticos no início".[17] No início, havia ódio indiferenciado: a criança está indefesa, já que precisa ser cuidada, fica impotente e sobrecarregada por necessidades urgentes que devem ser atendidas por um agente externo. Os bebês experimentam suas necessidades enquanto dor, causando-lhes nojo e ódio. Freud mostra que o ódio não é exclusivamente destrutivo em relação ao objeto: o ódio introduz um primeiro limite diferenciador entre dentro e fora, que garante a permanência desse limite e é seu princípio constitutivo.

Antes do estágio genital, a autopreservação do eu é colocada em perigo no encontro com o objeto. A posterior aquisição da distinção de amor e ódio que se forma na fase genital, permite que eles se unam, dando origem à pessoa como um todo. Freud sustenta que nos primeiros anos de vida não há distinção entre amor e ódio, afastando-se da afirmação de que o ódio se origina no amor e, portanto, nos impulsos sexuais. Em vez disso, o ódio surge ao lado da constituição do eu, expressando instintos de autopreservação do eu, a vontade de poder e o impulso de dominação.

Em nosso mundo contemporâneo, o encontro com o outro é muitas vezes uma oportunidade de exclusão. Estamos testemunhando uma crescente desigualdade global, militarização e terror ao lado de forças racistas, nacionalistas e fascistas determinadas a excluir e matar. No entanto, nas origens da subjetividade, o encontro com outra pessoa que, nas palavras de Freud, foi o inesquecível outro pré-histórico a quem não se iguala mais tarde, é útil e benéfico não apenas por razões práticas, mas por seu significado moral. Freud considera o próximo ao mesmo tempo o primeiro objeto de satisfação e o primeiro objeto hostil, bem como o único poder auxiliador. É em relação a esse primeiro vizinho amado/odiado que o ser humano aprende a julgar, lembrar e pensar. O bebê precisa ser cuidado e está à mercê de outro para sua sobrevivência. Freud identifica esse desamparo inicial [Hilflosigkeit] “o desamparo inicial de todos os seres humanos” como “a fonte primordial de todas os motivos morais".[18]

Um reconhecimento precoce da experiência do desamparo nos remete a uma ética básica do outro. O outro deve ser tolerado e não apenas amado ou odiado. A consciência dos bebês de sua própria vulnerabilidade e dependência do cuidador, combinada com o papel calmante de cuidar, é primordial; então o ódio e o amor podem seguir.

 

Odiar objetivamente

Pode-se dizer que na psicanálise o ódio não é um afeto a ser ignorado, especialmente na transferência. Embora a transferência tenha sido frequentemente teorizada no eixo do amor, Donald Winnicott[19] fala da necessidade do analista de poder odiar objetivamente o paciente. Winnicott vai direto ao ponto e fala sobre o ódio na contratransferência. Durante a Segunda Guerra Mundial, Winnicott estava tratando de um menino desabrigado de nove anos. O garotinho foi alojado na casa de Winnicott pelo que foram “três meses de inferno. Ela era a mais encantadora e a mais enlouquecedora das crianças."[20] Muitas vezes o menino estava ausente da casa. Winnicott inicialmente deu ao menino

 

total liberdade e um shilling sempre que ele saía. Ele precisava apenas telefonar para que nós fôssemos apanhá-lo na delegacia para onde tinha sido levado. Logo […] o sintoma da vadiagem transformou-se numa dramatização do assalto ao mundo interno. [...] O desenvolvimento da personalidade do menino provocava ódio em mim [...]. Bati nele? A resposta é não, nunca. Mas eu teria tudo que bater nele se não soubesse tudo a respeito do meu ódio [...]. Nas crises eu o pegava com toda a minha força física, sem raiva ou acusações, e o colocava para fora pela porta da frente, fosse qual fosse o tempo que estivesse fazendo de dia ou à noite. Havia uma campainha especial que ele podia tocar, e ele sabia que se a tocasse nós o traríamos para dentro e nenhuma palavra seria dita sobre o que se passou. [...] O importante é que sempre que eu o punha para fora [...] eu lhe dizia que o que ele havia feito levou-me a sentir ódio por ele. Esto era fácil porque era a pura verdade. A meu ver, essas palavras eram importantes do ponto de vista do seu progresso, mas elas eram importantes principalmente porque me permitiam tolera a situação [...] sem perder a cabeça e sem assassiná-lo de vez em quando.[21]

 

Winnicott argumenta que é necessário reconhecer o ódio que se desenvolve em si mesmo: seria pior negá-lo. A admissão de ódio tem um efeito positivo no andamento do tratamento, pois permite a Winnicott "tolerar a situação [...] sem perder a cabeça e sem assassiná-lo". Winnicott nos apresenta um argumento convincente para a expressão escrupulosa do ódio. Somente aceitando nosso ódio como psicanalistas podemos começar a abordar o ódio que sustenta o racismo inconsciente e o peso do privilégio branco não analisado.

Freud aponta que o ódio é uma estratégia de separação que demarca um limite entre um dentro e um fora que garante a permanência de ambos. Poderia o ódio não apenas destruir o outro, mas fazê-lo existir? Winnicott sugere que um ódio analisado permite que o outro sobreviva à agressão que ele gera, que o outro exista como tal. O ódio é precursor de uma separação que dá segurança à conexão. Winnicott e Freud concordam: O ódio está na origem do pensamento: sem ódio não há separação e sem separação não há construção do corpo e da psique. Lacan caracterizou nosso tempo como uma civilização do ódio. Em que consistiria essa civilização do ódio? Se o ódio é primário e inescapável, existe uma maneira de odiar de forma civilizada, de forma responsável?

Isso me leva a como a psicanálise pode nos ajudar a atravessar e ir mais além da fantasia racista. Quando Morrison medita sobre o flagelo ou veneno da estranheza, ele escreve que

 

A necessidade de transformar o escravizado numa espécie estrangeira parece ser uma tentativa desesperada de confirmar a si mesmo como normal. A urgência em distinguir entre quem pertence à raça humana e quem decidicamente não é humano é tão potente [...]. O risco de sentir empatia pelo estrangeiro é a possibilidade de se tornar estrangeiro. Perder o próprio status racializado é perder a própria diferença, valorizada e idealizada.”[22]

 

A construção do "outro" tem seus benefícios, concede ganhos psíquicos.

Esse benefício é teorizado por Lacan com a noção de gozo (jouissance), noção que dá conta dos ganhos inconscientes conferidos por um sintoma (ele se refere ao gozo como uma mistura indistinguível de dor e prazer).

 

Una renuncia liberadora

Em minha progressão até agora, explorei como a psicanálise pode evitar práticas excludentes. Concluirei com a esperança de que possamos começar a pensar psicanaliticamente sobre sintomas de ódio como racismo, discriminação e exclusão. Após a pandemia do COVID-19 e a crescente conscientização sobre a violência da discriminação, o racismo sistêmico e o impacto global do movimento Black Lives Matter, parece que nenhum analista pode ficar imune ao contexto em que trabalhamos. Precisamos, por exemplo, começar a abordar a aparentemente indescritível primazia branca da psicanálise. Há uma teorização emergente sobre a psicanálise transgênero, mas esse trabalho raramente foi relacionado à raça e ao racismo na psicanálise; o padrão de longa data é que a raça só é tematizada quando pelo menos uma parte da díade analítica não é branca.

Se o desejo do analista não é um desejo puro, mas um desejo de obter a diferença absoluta, como sustenta Lacan, então um primeiro passo é reconhecer que o ódio que sentimos pelo outro está relacionado à possibilidade de ser outro. Além disso, se temos outro dentro de nós, o ódio pelo outro também nosso próprio ódio.

Defino a prática psicanalítica como baseada no acolhimento incondicional, ou seja, na hospitalidade total. No entanto, como apontou o filósofo Jacques Derrida,[23] a etimologia de hospitalidade nos remete ao anfitrião que acolhe todos os hóspedes que podem ser acomodados, mas contém também um hostis, termo latino que significa “inimigo”. Como essa nova consciência afeta nosso ideal de neutralidade? É suficiente estarmos cientes de nosso racismo inconsciente e preconceitos como o heterossexismo ou a normatividade de gênero? Como podemos ajudar a psicanálise a se desenvolver e prosperar em nosso conflito atual? Um primeiro passo seria voltar a esse espírito de 1918, os tempos felizes em que a prática psicanalítica não era pensada apenas para alguns, mas para todos: uma psicanálise do povo e para o povo.

 

Patricia Gherovici, Ph.D. é psicanalista, supervisora analítica e ganhadora do Prêmio Sigourney 2020 por seu trabalho clínico e acadêmico com comunidades latinas e variantes de gênero.

 

 



[1] A. Liberman,  Why don’t we know the origin of the word ghetto? , 04 de março de 2009. Disponível em: blog.oup.com/2009/03/ghetto/. Acesso em: 16/03/2022.

[2] M. A. Shulvass, The Jews in the world of the Renaissance. Leiden: Brill and the Spertus College of Judaica Press, 1973.

[3] P. Gherovici & C. Christian, Psychoanalysis in the Barrios: Race, Calss and the Unconscious. Inglaterra: Routledge, 2019.

[4] C. Christian, R. Reichbart, M. Moskowitz, R. Morillo y B. Winograd, Psychoanalysis in El Barrio. [Documental] PEP Video Grants, 1(2), 10. PEP Web, 2016.

[5] G. S. Viereck, Freud face au sphinx: entrevista de Sigmund Freud a G.S. Viereck. D’un Divan l’autre. http://www.dundivanlautre.fr/sur-freud/sigmund-freud-confronts-the-sphinx-g-s-viereck-s-freud-an-interview-with-freud-in-1926/2, 1926.

[6] F. Fanon, Piel negra, máscaras blancas. Madri: Ediciones Akal, 2009.

[7] F. Wilderson, Afropessimism. Nova York: W. W. Norton, 2020.

[8] T. Morrison, A origem dos outros: seis ensaios sobre racism e literatura, trad. bras., Fernanda Abreu. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

[9] Ibid., p. 38.

[10] T. Morrison, op. cit.

[11] B. Fuks, Freud y la judeidad. La vocación del exilio. Tres Cantos: Siglo XXI Editores, 2006.

[12] Julia Kristeva, Extranjeros para nosotros mismos. Barcelona: Plaza y Janés, 1991, p. 13-14.

[13] Freud, S. El malestar en la cultura. En Obras Completas de Sigmund Freud (Tomo III, pp. 3017-3067). Biblioteca Nueva, 1981.

[14] Ibid.

[15] Sigmund Freud, “Os instintos e seus destinos”, in: Introdução ao narcisismo: ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916), trad. bras. Paulo César de Souza, São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

[16] Ibid., p. 79.

[17] Ibid., p. 76.

[18] Sigmund Freud, “Projeto para uma psicologia científica”, in: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Volume I. Rio de janeiro: Editora Imago, 2006, p. 370.

[19] D. W. Winnicott, “O ódio na constratransferência” in: Da pediatria à psicanálise: obras escolhidas, Rio de Janeiro: Imago, 2000.

[20] Ibid., p. 284.

[21] Ibid., p. 284.

[22] T. Morrison, op. cit., p. 54.

[23] J. Derrida e A. Dufourmantelle, De l’hospitalité. Paris: Calmann-Lévy, 1997.