UM NOVO NIILISMO

 

Gabriel Ferri Bichir

 

1. MOLOCH, O MAL AMADO

 


Para quem não vê nada diante de si e para quem não quer a transformação da base social, não sobra na verdade absolutamente nada, senão dizer, como o Wotan de Richard Wagner: "Sabes o que Wotan quer? O fim". A partir de sua própria situação social, ele quer a destruição. Mas ele não quer só a destruição de seu próprio grupo, ele quer, se possível, a destruição do todo

  (Adorno)

 

            A cultura falhou na missão histórica de domar as forças ctônicas, que mais uma vez retornam à superfície para assombrá-la com suas falsas promessas. A nova direita, cujo espírito se revela de maneira mais clara na alt-right norte-americana, apoia-se precisamente nessas forças para alimentar um sentimento anti-establishment generalizado. Sua tarefa é nada mais nada menos que o fim da civilização, a catástrofe final, a destruição do planeta. Como chegamos a esse ponto? Quem liberou essas forças dormentes, que se movimentavam sob a superfície como placas tectônicas prontas para o assalto final? A quem servem, a quem podem servir?

            Se a alt-right liberou o monstro, quem lhes forneceu as coordenadas foi o establishment liberal, encarnado, mas não restrito, no partido democrata norte-americano. A dita Guerra ao Terror gerou novas formas de terrorismo; as políticas de redistribuição capengas falharam em impedir o desemprego em massa; o marketing canhestro da representatividade trouxe à tona formas ainda mais radicais de preconceito e extermínio de minorias; a promessa de mudança não foi além de políticas de austeridade somadas a alguns raros esforços de universalização de uns poucos serviços públicos, como a saúde, que permanecem inconclusos. A luta hipócrita pelo império da lei reverteu-se em seu contrário, deixando livre o caminho para que a própria lei fosse torcida e burlada de todas as formas possíveis, por ambos os partidos. Toma corpo, desse modo, o dito profético de Fukuyama, falso como diagnóstico de uma sociedade pacificada, mas verdadeiro como intuição da doença: “O pensamento moderno não ergue barreiras a uma futura guerra niilista contra a democracia liberal, deflagrada por aqueles que foram criados no seu seio”[1].

            O tempo do fim efetivamente transmutou-se no fim do tempo, como receava Günther Anders. Essa situação final traz em seu bojo uma nova forma de niilismo, desconhecida dos nossos ilustres antepassados do século XIX. Nietzsche denunciava o homem moderno como um homem cansado, com o olhar saturado das peripécias da civilização decadente, um filisteu que se apoiava na moral cristã para justificar seu sofrimento rebaixando a vida terrena em prol da vida futura. Ele queria o fim, mas apenas porque o via como um novo começo: a possibilidade de uma vida melhor no reino dos céus. Esse artifício não está mais disponível ao espírito dominante, que preferiu cortar caminho e ir direto ao ponto: o niilismo contemporâneo é a expressão do desejo do fim, sem mais. Não há mais necessidade de preencher o coração dos homens com promessas da redenção futura, pois esse coração já está fraco demais e sobrevive apenas por aparelhos. O indivíduo está rendido ao status quo e mostra-se incapaz de resistir ao apocalipse iminente da civilização.

            O que é o novo niilismo? A retração máxima de um horizonte de expectativas já rebaixado, que tende assintoticamente a zero, o ponto em que expectativa = realidade = 0; ponto de intensidade mínima, imobilidade da matéria, desaparecimento da vida enquanto tal. Zero absoluto. Esse niilismo é a afirmação pura e simples da ideologia final, o amor à bomba elevado ao infinito, o limite da cultura que coincide com o limite da natureza no momento mesmo de seu desaparecimento. Ele só pode aparecer num momento de máxima retração, em que a consciência está tão amortecida que não mais precisa de satisfações substitutivas para aceitar a catástrofe. A catástrofe já está dada e não só é aceita como também profundamente desejada.

            Byung-Chul Han coloca o problema em termos adequados quando constata que esse niilismo não se origina de uma negatividade cooptada, como seu irmão do século retrasado, mas de um excesso de positividade:

 

A violência da positividade não pressupõe nenhuma inimizade. Desenvolve-se precisamente numa sociedade permissiva e pacificada. Por isso ela é mais invisível que uma violência viral. Habita o espaço livre de negatividade do igual, onde não se dá nenhuma polarização entre inimigo e amigo, interior e exterior ou entre próprio e estranho. A positivação do mundo faz surgir novas formas de violência. Essas não partem do outro imunológico. Ao contrário, elas são imanentes ao sistema [...] A violência da positividade não é privativa, mas saturante; não excludente, mas exaustiva. Por isso é inacessível a uma percepção direta.[2]

 

            Paradoxalmente, tal niilismo aparece como dizer-sim, uma afirmação que reduplica o que é afirmado. Aqui ocorre o contrário do modelo hegeliano, em que duas negações fazem uma afirmação, pois da afirmação faz-se a negação total, pura vontade de nada. A afirmação do desejo, antes vindicada como potencialmente disruptiva por filosofias de matriz deleuziana, é falsificada pelo movimento do espírito dominante, que a assimila integralmente. Na sociedade administrada, toda afirmação no mundo reverte-se imediatamente em afirmação do mundo como tal, a ratificação do status quo como horizonte último de toda positividade. Nesse contexto, o niilismo que diz sim é aquele que não só anseia pelo fim, mas trabalha ativamente para sua concretização. Há efetivamente um déficit de negatividade tanto no mundo quanto nos sujeitos moldados por ele, que não conseguem suportar nenhum tipo de fratura subjetiva, retraindo-se em sua autoafirmação tautológica. Essa é a sociedade do desempenho descrita por Byung, cujo princípio seria aquele da autoexploração: com o desaparecimento da alteridade, resta apenas o voltar-se narcísico sobre si mesmo, de tal forma que a coerção exterior é perfeitamente traduzida em coerção interior – o indivíduo explora a si mesmo de forma ainda mais impiedosa que as figuras paternas tradicionais. É-se ao mesmo tempo patrão e proletário de si.

            O resultado desse movimento é uma dívida infinita que se reverte em esgotamento e, no limite, leva à depressão – o paradigma, segundo Byung, de doença da positividade. Todavia, a depressão não é apenas a condição do indivíduo isolado, mas de toda a sociedade, que assiste em estado cataplético à desintegração do vínculo social. Há uma melancolia difusa que paralisa a ação e amortece a consciência crítica, tornando a resistência a esse movimento avassalador particularmente problemática. O que resta, como diagnosticava Adorno, é a vinculação ao sofrimento do corpo que se encontra diante de nós, única forma possível de solidariedade numa situação de catástrofe generalizada. Nos suspiros desesperados de George Floyd reverberam os gritos de todos os condenados da terra.

            Escapa a Byung, no entanto, a constatação de que essa autoexploração é garantida por uma exploração exterior ainda mais brutal na parte inferior da pirâmide. Alterna-se entre a materialidade bruta – os inúmeros galpões de trabalho semiescravo no Oriente e na África, os canaviais brasileiros – e a imaterialidade dos serviços de delivery ou dos esquemas piramidais de revenda. O capitalismo até agora se mostrou refratário a abdicar do chão de fábrica, que fornece o estofo necessário para sustentar os discursos delirantes dos empreendedores que se jactam com carros tripulados por bonecos na estratosfera enquanto promovem despudoradamente a destruição do planeta.

 

***

 

            Como é possível que a destruição seja desejada? Como essa mirada apocalíptica constitui um discurso organizado ao redor do niilismo? Para ensaiar respostas possíveis, recorreremos a um texto relativamente desconhecido no mainstream acadêmico: Meditações sobre Moloch [3] , de Scott Alexander, autor progressista que há anos se debruça sobre o pensamento conservador e expõe suas críticas no blog Slate Star Codex. Esse ensaio nos fornecerá o fio de Ariadne para compreender as movimentações tectônicas desse nisus destrutivo do capitalismo que se materializa em Moloch, o devorador de mundos.

            Alexander extrai o motivo do deus fenício da segunda parte do poema Howl, de Ginsberg [4] :

 

Que esfinge de cimento e alumínio arrombou seus crânios e devorou seus cérebros e imaginação? Moloch! Solidão! Sujeira! Fealdade! Latas de lixo e dólares inatingíveis! Crianças berrando sob as escadarias! Garotos soluçando nos exércitos! Velhos chorando nos parques!

Moloch! Moloch! Pesadelo de Moloch! Moloch o mal-amado! Moloch mental! Moloch o pesadelo juiz dos homens!

Moloch a incompreensível prisão! Moloch o presídio desalmado de tíbias cruzadas e o congresso dos sofrimentos! Moloch cujos prédios são julgamento! Moloch a vasta pedra da guerra! Moloch os governos atônitos!

Moloch cuja mente é pura maquinaria! Moloch cujo sangue é dinheiro corrente! Moloch cujos dedos são dez exércitos! Moloch cujo peito é um dínamo canibal! Moloch cujo ouvido é um túmulo fumegante!

Moloch cujos olhos são mil janelas cegas! Moloch cujos arranhacéus jazem ao longo das ruas como infinitos Jeovás! Moloch cujas fábricas sonham e grasnam na neblina! Moloch cujas colunas de fumaça e antenas coroam as cidades!

Moloch cujo amor é interminável óleo e pedra! Moloch cuja alma é eletricidade e bancos! Moloch cuja pobreza é o espectro do gênio! Moloch cujo destino é uma nuvem de hidrogênio sem sexo! Moloch cujo nome é a Mente!

Moloch em quem permaneço solitário! Moloch em quem sonho com anjos! Louco em Moloch! Chupador de caralhos em Moloch! Mal-amado e sem homens em Moloch!

Moloch que penetrou cedo na minha alma! Moloch em quem sou uma consciência sem corpo! Moloch que me afugentou do meu êxtase natural! Moloch a quem abandono! Despertar em Moloch! Luz escorrendo do céu!

Moloch! Moloch! Apartamentos de robôs! subúrbios invisíveis! Tesouros de esqueletos! capitais cegas! indústrias demoníacas! nações espectrais! invencíveis hospícios! caralhos de granito! bombas monstruosas!

Eles quebraram suas costas levantando Moloch ao Céu! Calçamentos, árvores, rádios, toneladas! Levantando a cidade ao Céu que existe e está em todo lugar ao nosso redor!

Visões! profecias! alucinações! milagres! êxtases! descendo pela correnteza do rio americano!

Sonhos! adorações! iluminações! religiões! o carregamento todo de bosta sensitiva!

Desabamentos! sobre o rio! saltos e crucifixões! descendo a correnteza! Ligados! Epifanias! Desesperos! Dez anos de gritos animais e suicídios! Mentes! Amores novos! Geração louca! jogados nos rochedos do Tempo!

Verdadeiro riso santo no rio! Eles viram tudo! o olhar selvagem! os berros sagrados! Eles deram adeus! Pularam do telhado! rumo à solidão! acenando! levando flores! Rio abaixo! rua acima !

 

            Para Alexander, Moloch é, sobretudo, uma força cósmica extremamente ardilosa, tal qual o gênio maligno cartesiano, ou ainda mais sádica. Moloch é signo de um impasse civilizatório materializado em diversas “armadilhas multipolares”, as quais levam os homens a competir entre si sem saber que a situação de todos inevitavelmente piorará ao final.

 

A questão implícita é — se todos odeiam o atual sistema, quem o perpetua? E Ginsberg responde: “Moloch”. É poderoso não porque é correto — ninguém literalmente acredita que um antigo demônio cartaginense é a causa de tudo — mas porque pensar no sistema como um agente põe em relevo até que ponto o sistema não é um agente (Tradução modificada).

 

            Moloch é o capitalismo como sujeito automático, um demônio invisível que brinca com o destino humano como se detivesse os poderes de vida e morte das antigas moiras. Contudo, jamais se mostra enquanto tal – esconde-se em suas armadilhas, que levam inequivocamente à degradação da sociedade e ao triunfo dos mais fortes. Ele é, de certa forma, o agente do violento darwinismo social encarnado pelo mercado. Para explicar seu efeito devastador sobre a sociedade, Alexander invoca uma série de experimentos mentais que ilustram o poder de Moloch em sempre piorar a vida dos homens através da competição mútua. Citemos, de início, apenas um desses exemplos, convenientemente intitulado “Armadilha Malthusiana”:

 

Suponha que você é um dos primeiros ratos introduzidos em uma ilha virgem. Ela é cheia de plantas gostosinhas e você vive uma vida idílica perambulando por aí, comendo e compondo grandes obras de arte [...].

Você vive uma vida longa, acasala, e tem uma dúzia de filhotes. Todos eles também têm uma dúzia de filhotes, e assim por diante. Em algumas gerações, a ilha passa a ter dez mil ratos e atinge sua capacidade populacional máxima. Agora, não há mais espaço ou comida para garantir a sobrevivência, e uma certa porcentagem de cada nova geração morre para que a população permaneça fixa nos dez mil.

Uma certa facção de ratos abandona a arte para dedicar mais tempo garantindo a sobrevivência. A cada nova geração morrerão menos membros dessa facção do que da facção dominante, até que, após certo tempo, nenhum rato estará mais criando arte alguma, e qualquer facção de ratos que tentar trazê-la de volta será extinta dentro de poucas gerações.

Com efeito, isso não vale apenas para a arte. Qualquer grupo mais malandro, mal-intencionado ou focado na sobrevivência que o grupo dominante eventualmente tomará o poder. Se uma facção de ratos voluntariamente decidir limitar sua prole a dois filhotes por casal para reduzir a superpopulação, tal facção perecerá, varrida da existência por seus inimigos mais numerosos. Se uma facção de ratos decidir praticar canibalismo e descobrir que tal prática lhe confere vantagem sobre seus companheiros, eventualmente tomará o poder e a prática será fixada.

Se alguns ratos-cientistas previrem uma aceleração alarmante da escassez dos depósitos de nozes da ilha e seu esgotamento iminente, algumas facções de ratos poderão tentar limitar seu consumo de nozes a um nível sustentável. Esses ratos serão vencidos por seus primos mais egoístas. Eventualmente, as nozes acabarão, a maioria dos ratos morrerá e o ciclo recomeçará. Qualquer facção de ratos que advogue alguma ação para parar esse ciclo será vencida por seus primos, para quem advogar qualquer coisa é perder tempo que poderia ser gasto para competir e consumir (Tradução modificada).

 

            O dilema é evidente: numa sociedade em que a utilidade se converte no único critério possível de prosperidade, qualquer desvio da norma implica extinção de toda a espécie. A degradação promovida pelo capitalismo é precisamente esta: reduzir o homem à sua condição animal – a vida nua, como lembra Agamben, é a regra, não a exceção. Sob tais condições, a competição humana mimetiza a competição natural, que opera pelo mecanismo darwiniano de seleção do mais eficiente. Mas não haveria alguma saída, uma maneira de evitar que essa configuração do jogo seja a única possível? Sigamos nosso autor:

 

Por várias razões, a evolução não é tão malthusiana quanto nesse caso ideal, mas ele fornece o exemplo prototípico que podemos aplicar a outras coisas para enxergar o mecanismo subjacente. De um ponto de vista divino, é fácil dizer que os ratos deveriam manter a população confortavelmente baixa. De dentro do sistema, cada rato singular seguirá seu imperativo genético e a ilha acabará num ciclo sem fim de explosão e implosão populacionais (Tradução modificada).

 

            A resposta não deixa de ser curiosa: a coordenação de um resultado favorável a todos, que permitiria a cada rato regrar sua existência por um critério que não fosse trazido de fora, só poderia ser estabelecida por um deus. De dentro do sistema, é impossível tomar a distância necessária para barrar a competição violenta; Moloch é o garantidor do desastre, o grande Outro que a todo momento observa e barra o acesso a um ponto de vista superior, do qual detém o monopólio. Essa é uma temática presente já na origem do liberalismo, a saber, a notória “mão invisível” que controla de longe o movimento dos trocadores individuais. Cada trocador é parte do sistema, mas não tem acesso à totalidade do movimento; sendo assim, a única forma de colaborar para o desenvolvimento do todo é seguir seu interesse privado e observar à distância o alinhamento final do conjunto desses interesses. O cenário descrito por Alexander é a versão degradada desse mito de origem, em que a harmonia final não apenas não se concretiza, mas reverte-se em caos generalizado. Esse percurso condensa o destino histórico do capitalismo ocidental.

 

2 - REACIONARISMO: UM ANTÍDOTO PARA O CAOS?

 

I want to bring everything crashing down, and destroy all of today’s establishment

(Steve Bannon)

 

            Moloch é o vórtice do caos, o deus que garante a impossibilidade da competição justa e da distribuição igualitária dos bens. Com efeito, o projeto de controlar o caos, costumeiramente alinhado à esquerda liberal ou social-democrata, foi recentemente formulado como fundamento do programa político conservador por ninguém menos que o guru da alt-right, Jordan Peterson, que descreve sua empreitada nos seguintes termos:

 

Sentido é o equilíbrio final entre, por um lado, o caos de transformação e possibilidade e, por outro, a disciplina de imaculada ordem, cujo propósito é produzir, a partir do caos conexo, uma nova ordem que virá a ser ainda mais imaculada e capaz de gerar um caos e uma ordem ainda mais equilibrados e produtivos. Sentido é o Caminho, o percurso da vida mais abundante, o lugar que se habita quando se é guiado pelo Amor e se diz a Verdade, e quando nada do que se deseja ou se poderia desejar tem qualquer precedência sobre exatamente isso. Faça o que tem sentido, não o que é conveniente. [5]

 

            Psicologia e autoajuda misturam-se num tom grandiloquente que compõe uma espécie de pastiche do jargão da autenticidade heideggeriano. Num mundo vazio, perigoso e violento, diz Peterson, o que resta é arrumar o próprio quarto, manter a postura correta e buscar sentido nos objetivos pessoais. O conservadorismo seria precisamente isto: um antídoto para o caos, para uma perspectiva niilista em relação à vida, que Peterson corretamente diagnostica como um grave problema da geração millenial (embora convenientemente se esqueça das condições sociais subjacentes que explicam esse desespero generalizado). O grande problema da esquerda liberal não seriam seus ideais, ao menos não em si mesmos, mas a ordem em que estes são colocados: antes de tudo, dever-se-ia começar mudando o mundo; para Peterson, ao contrário, a mudança individual deve ter precedência, do contrário seria impossível provocar uma transformação global. Em nenhum momento, porém, ele questiona se as condições objetivas e subjetivas para tal transformação estariam dadas seria efetivamente possível mudar os indivíduos se o mundo que os molda permanece intocado? Por isso, sua pseudoteoria reverte-se em seu contrário, retroalimentando o niilismo que deveria combater, ao imunizar da crítica o próprio mundo que o tornou possível em primeiro lugar.

            De qualquer modo, como Peterson descreve o caminho para essa suposta ataraxia do espírito? De onde surgiria a força de vontade necessária para superar a índole melancólica da modernidade, calcada numa impotência que imobiliza e cega qualquer perspectiva de mudança para melhor? Ora, diz ele, voltemo-nos ao exemplo das lagostas:

 

As lagostas fêmeas (que também disputam território arduamente durante as fases expressamente maternais de suas vidas) identificam com presteza o bacanão, sentindo-se irresistivelmente atraídas por ele. É uma estratégia brilhante, no meu modo de ver. Uma estratégia que é também utilizada por criaturas do sexo feminino de muitas espécies distintas , inclusive a humana. Em vez de se encarregarem da dificultosa tarefa de identificar o melhor parceiro por meio do processamento de dados , as fêmeas terceirizam o problema para os cômputos semelhantes aos de uma calculadora da hierarquia de dominância. Deixam que os machos briguem entre si por elas e descascam seus namorados desde o início. É bem isso o que acontece com a cotação de preços no mercado de ações, onde o valor de qualquer empresa privada é determinado através da competição entre todas elas. [6]

           

            Desse excerto involuntariamente cômico pinçamos um elemento central no pensamento de Peterson e na doutrina conservadora em geral, a saber, a projeção das dinâmicas da ordem natural na ordem cultural. Por mais absurda que soe, ao menos quando proposta em sua forma bruta, essa associação permanece um elemento basilar da ideologia reacionária. De tal ponto de vista, a cultura aparece como simples continuação da natureza, como se a ruptura entre ambas, que remonta ao ímpeto do esclarecimento de domar o mito, não estivesse objetivamente dada. Com essa inversão, a analogia entre a lagosta e o corretor da bolsa de valores torna-se possível porque tanto a vida de uma como a de outro seriam comandadas por um mesmo princípio: a competição darwiniana que leva à seleção dos indivíduos mais aptos. Essa proposição não deixa de ter seu momento de verdade, na medida em que descreve o limite final de degradação engendrado pelo capitalismo: o completo devir-animal do homem, reduzido à busca violenta pela subsistência num sistema que o deixa absolutamente abandonado à própria sorte. Quando todo laço social desaparece, resta apenas um “cada um por si” distópico, a consagração do adágio hobbesiano que é falso como mito de origem, mas verdadeiro como resultado do desenvolvimento capitalista que anuncia o fim da civilização.

            Não deixa de ser curioso que o resgate atual da teoria darwinista levado a cabo por certo setor do conservadorismo – supostamente em contradição com seus fundamentos cristãos – acabe por harmonizar-se com estes tais fundamentos. Deus criou os animais e os homens da mesmíssima forma, o princípio da competição vale tanto para uns como para outros, bem como as metamorfoses que cada espécie pode experimentar a partir dele. O evolucionismo é, portanto, integrado a uma visão teológica do mundo, em que a Bíblia é entendida como um guia espiritual poderoso, ainda que desprovido de pretensões científicas. Para falar do capitalismo recorre-se a Darwin, para buscar auxílio espiritual, à Bíblia.

            No caso de Peterson, essa equivalência é coroada por um dualismo assimétrico: o homem é composto de uma alma e de um corpo, mas a alma não interfere em sua programação biológica, condensada nos impulsos elétricos experimentados no cérebro. Por mais que se atribuam à alma o agir moral e a escolha a partir do livre-arbítrio, as relações em sociedade permanecem pré-programadas a partir de princípios neuromotores idênticos aos experimentados pelos animais. O que resta, então? No mesmo homem coexistem um determinismo biológico absoluto e um livre-arbítrio espiritual cujo papel é dramaticamente reduzido a um mínimo. O dualismo pode soar cartesiano, mas aqui não há sequer lugar para uma vontade infinita, já que esta cede lugar à pré-programação da espécie, condensada geneticamente através do processo evolutivo. O materialismo vulgar praticamente aniquila sua contrapartida espiritualista.

            Ainda que nem todo conservador compartilhe desse dualismo sui generis, a ideia de uma hierarquia natural está bem estabelecida em sua cartela de principia. Nesse movimento, o capitalismo é internalizado como algo natural, inato à nossa programação: simplesmente assume-se como fato que os melhores devem ocupar o topo da pirâmide, enquanto os mais fracos devem perecer na luta por recursos. A grande indignação do reacionário é constatar que por algum motivo a hierarquia foi invertida: aqueles que deveriam estar embaixo foram injustamente alçados e os de cima foram jogados para baixo. Quem são os de baixo? Principalmente as minorias, vistas como grupos favorecidos pelas políticas de reconhecimento e redistribuição do establishment liberal. O lugar dos negros, gays e transexuais é aquele historicamente legado pelo capitalismo: o abandono, a miséria, os subúrbios isolados e violentos; esse é o seu lugar natural, o lugar para o qual naturalmente retornariam se não fossem indevidamente catapultados para além dele. Destarte, o conservador aplica à sociedade o esquema aristotélico: assim como o ar sobe porque é de sua natureza permanecer em cima e a terra cai porque é próprio dela manter-se embaixo, os tubarões do mundo corporativo devem subir ao topo da pirâmide e os peixinhos devem chafurdar na sua base. A pirâmide social é fixa, os lugares estão pré-determinados e todas as políticas do Estado devem tomar como imperativo a manutenção dessa ordem eterna, que evidentemente ressoa a imobilidade do mundo medieval em sua estrutura tripartite.

            Esse esquema é falso porque trata como originário o que é resultado de um longo processo histórico: de fato, o lugar atual de grande parte das minorias é a base da pirâmide, mas apenas porque o capitalismo as colocou lá, e não porque aquele seja de alguma forma seu locus necessário. O pensamento conservador, porém, é imune até mesmo ao historicismo mais crasso, porque o esquema mental que o alimenta é fixista, remetendo ao mítico – um mundo sem tempo, eterno, mundo de Prometeu acorrentado – daí sua afinidade com o fascismo, que projeta o mítico na história. Há, contudo, um momento de verdade na intuição de que alguns foram tirados de seu posto na hierarquia; é óbvio que esses não são os grandes CEO’s, e sim o homem médio, normalmente branco e heterossexual, carinhosamente apelidado por Hillary Clinton de “white trash”. Dada a situação degradante dos EUA, que ainda sofre as consequências da crise de 2008, esse homem tem cada vez mais sentido na pele as mazelas do neoliberalismo suicidário, que reduz constantemente seu padrão de vida e dificilmente lhe oferece condições básicas para que exerça um trabalho minimamente digno. Ele é atravessado por um ódio visceral, que carrega em si um elemento antissistêmico potencialmente disruptivo, mas que nunca consegue se afirmar como tal. Esse sentimento difuso é, na verdade, deslocado e projetado naqueles que são vistos como beneficiários desse sistema injusto, os que foram alçados devido a auxílios externos. O ódio contra as minorias que quebram a hierarquia é o ódio contra a própria ideia de hierarquia voltado sobre si – ele traduz a impotência daquele que pressente a injustiça do mundo, mas termina por mascará-la, projetando suas causas naqueles que são, assim como ele, vítimas.

            Entendamo-nos: para o conservador, o status quo é ao mesmo tempo bom e ruim. Bom no sentido de que aqueles que merecem estar no topo efetivamente estão lá: os mais ricos, empresários, empreendedores, todo tipo de homem bem-sucedido que mereceu sua ascensão; o arquétipo mítico dessa figura é o self-made man, que povoa ainda hoje o imaginário americano. Mas o status quo é ruim no que se refere ao establishment liberal que busca a todo momento inverter a hierarquia natural e elevar as minorias ao mesmo plano do self-made man. Nesse movimento disruptivo, ele, homem médio, também foi lançado para baixo, algo empiricamente comprovável devido à degradação de suas condições de vida, sobretudo se comparadas àquelas de seus pais.

            A eleição de Trump está diretamente ligada a essa percepção; ela foi uma revolta consciente contra o establishment liberal anteriormente encarnado por Obama. Trump é o anti-establishment dentro do establishment, daí o potencial revolucionário das energias antissistema que mobiliza. A dimensão desse processo é efetivamente paranoica: não importa quantos espaços sejam ocupados pelos conservadores, o establishment liberal sempre prevalecerá porque é onipresente – está em Hollywood, nas empresas que aderem a movimentos LGBT, nas emissoras liberais, nas celebridades politicamente engajadas, nas universidades etc. É um ódio alimentado por um sentimento radical de impotência diante de um inimigo total; assim, sua contrapartida só pode ser o extermínio.

            Isso nos conduz a uma segunda caraterística importante do conservadorismo: trata-se de um movimento eminentemente reativo. O conservadorismo é em essência contrarrevolucionário; o ódio que mobiliza pode até se encarnar positivamente em algum projeto específico, mas é, acima de tudo, negatividade destrutiva e, potencialmente, autofágica. Por isso Corey Robin descreve-o como calcado numa experiência de perda:

 

[...] o conservadorismo é um esforço consciente, deliberado, para preservar ou rememorar “aquelas formas de experiência que não mais se podem obter de um modo autêntico”. Se o tradicionalista pode presumir que os [seus] objetos de desejo estão garantidos – pode fruir deles como se estivessem ao seu dispor porque estão ao seu dispor –, o mesmo não se dá com o conservador. Ele busca desfrutá-los justamente enquanto lhe estão sendo – ou já lhe foram – tirados. Se espera poder desfrutá-los novamente, tem de contestar sua privação no espaço público [...] São embrulhados numa narrativa de perda – na qual o revolucionário ou o reformista desempenha um papel necessário – e entregues num programa de recuperação. [7]

           

            O gozo do conservador só pode ser o gozo da perda – a perda é o combustível de seu ódio, sua raison d’être, e, enquanto for capaz de constituir vínculos sociais de identificação, a máquina reacionária não poderá ser parada. Com efeito, é essa perda que funda a mitologia sui generis da alt-right; diferentemente do fascismo, que postula uma origem heroica num passado bem localizado – greco-romano –, a alt-right resume-se ao perfunctório “no meu tempo era melhor”. Antes, dizem, as minorias não faziam tanto alarde, o politicamente correto não se intrometia nos jogos de videogame, as empresas não vendiam justiça social como algo moralmente superior. A figura típica desse “antes” é a infância (comumente localizada nos idos dos anos 80 ou 90). O conservador sente que sua inocência lhe foi roubada; seu sentimento é de violação, o que em si mesmo é justificado, posto que o sistema privou-o do mesmo padrão de vida de seus pais; mas essa violação é vista como obra dos SJW’s e seu politicamente correto, entendidos como instâncias castradoras e punitivistas, que lhe negam o gozo livre experimentado quando jovem. Assim, ele pressente seu estado atual de não-liberdade, mas projeta a coerção na parte e não no todo: faz das minorias o seu objeto-fetiche ao inverso, como se elas fossem a principal razão de sua infelicidade, o motivo pelo qual não consegue mais gozar.

            Destarte, a inefabilidade da origem não diminui, antes reforça o fascínio da mitologia, a ser preenchida com as fantasias individuais de cada um. Ainda que seus integrantes flertem constantemente com alguma forma de “orgulho branco”, este não chega a constituir uma identidade comum ao grupo. O que resta é o pressentimento difuso de que algo essencial foi perdido e precisa ser recuperado; o nível de racismo que se segue dessa constatação varia de indivíduo para indivíduo. Ocorre que o que foi perdido não é nada menos que o objeto a: não pode ser reestabelecido porque nunca existiu, não passa de uma construção da fantasia que delira nas elucubrações de uma origem purificada. Ainda assim, os conservadores seguem agindo segundo o princípio de que a origem pode ser reconstituída se o inimigo for derrotado, se a hierarquia for reestabelecida, se o Outro for eliminado. “Pois é isto que é o conservadorismo: uma meditação sobre [...] a experiência sentida de ter poder, vê-lo ameaçado e tentar recuperá-lo”[8].

            O conservador vê sua luta como um jogo de soma zero: se perde poder, então o liberal o ganha. Por isso, seu pensamento é tipicamente binário: aceitar uma área cinzenta seria aceitar que o inimigo pode estar parcialmente correto. Essa figuração é distintamente liberal – a ideia do consenso, do meio-termo, da justa medida alcançada por um compromisso mútuo. Não é assim que raciocina o conservador; para ele, não basta que se liberem algumas armas para a população; todas devem sê-lo, senão seu direito à segurança estará integralmente comprometido. Esse costume de ir aos extremos constitui uma vantagem decisiva sobre o liberalismo do establishment, uma vez que esse movimento de radicalização desloca constantemente o centro para a direita. É uma maneira conveniente de normalizar posições que até pouco poderiam ser consideradas absurdas; mas a locomotiva da reação não pode parar, pois sempre há algo a ser combatido. Se o trem estiver desgovernado, tanto melhor – é preferível que ele vá aos abismos da terra caso a alternativa seja entregá-lo ao inimigo. É nesse abismo que jaz Moloch.

 

3 - AS ESTRATÉGIAS RETÓRICAS DA ALT-RIGHT

 

The conservatism of duresse oblige depends upon the liberalism of noblesse oblige, not the other way around

(Corey Robin)    

 

            A alt-right surge pela primeira vez no palco norte-americano com a eleição de Obama, entre 2008 e 2009[9]. Nesses mais de doze anos de atuação, constatou-se uma proliferação assustadora de seu discurso nos canais tradicionais de comunicação e, sobretudo, na internet. Com efeito, as afinidades de sua retórica com o medium virtual não são nada acidentais; pelo contrário, buscaremos mostrar como o conteúdo reacionário encontra na forma virtual o encaixe perfeito que lhe era negado quando dependia de modelos mais tradicionais de organização. Cabe ressaltar que as conclusões aqui apresentadas dependem, em larga medida, de pesquisas empreendidas por Ian Danskin, pesquisador norte-americano do fenômeno da alt-right, cujas ideias estão condensadas em uma série de vídeos intitulada The Alt-Right Playbook[10].

            Em sua série, Danskin elenca algumas das principais estratégias discursivas dessa nova direita que busca autolegitimação aos olhos do grande público. Aqui passaremos algumas delas em revista e depois comentaremos como se articulam para compor uma visão unificada com forte poder persuasivo.

 

1) Controlar a discussão: a pedra angular que sustenta todo o edifício da retórica reacionária é a constatação de que todo debate resume-se a uma demonstração de força. O delírio habermasiano de que existam condições normativas suficientes no mundo da vida para garantir a busca do melhor argumento é ridicularizado desde o início pelo conservador, que sabe muito bem se aproveitar da magnanimidade ingênua do liberal, sempre pronto a fazer concessões em prol da construção de um chão comum. Para ele, pouco importam os argumentos postos em circulação, o mais importante é aparentar domínio e controle sobre o que é dito; assim, se é confrontado com algum argumento capaz de causar embaraço, ele desloca a discussão para uma questão paralela, quase sem relação com o que estava sendo discutido anteriormente.

 

2) Nunca jogar na defensiva: como o mais importante não são os argumentos, e sim a performatividade atrelada a eles, o essencial para o reacionário é nunca se defender de acusações do adversário. Ele deve ser um acusador incessante, mudando o tema a todo o momento, se necessário, para forçar seu interlocutor a justificar-se incessantemente. Se um democrata acusá-lo de defender um presidente admitidamente abusador de mulheres, ele jamais responderá diretamente à acusação, mas apontará que a ex-candidata democrata, Hillary Clinton, é esposa de um também abusador. Ora, é evidente que esse tipo de argumento é furado, pois equivale coisas brutalmente diferentes. Poderíamos muito bem lembrar que traição é diferente de abuso, que Bill Clinton nunca foi gravado dizendo absurdos como os proferidos por Trump, mas isso pouco importa, tendo em vista que já estaríamos recaindo no círculo infinito de justificativas, ocupando a posição defensiva no universo do debate. Aos olhos do público espectador, sem cultura política e diariamente brutalizado pela Indústria Cultural, o conservador teria ganhado porque atacou o tempo todo enquanto o liberal apenas se defendeu.

 

3) Levar as ideias ao mainstream: esse passo envolve uma série de estratégias sutis que visam difundir e normalizar a linguagem da alt-right em grupos mais amplos. O objetivo é chamar a atenção dos canais tradicionais da mídia ou de atores relevantes no mundo virtual, a fim de que acabem apresentando, ainda que involuntariamente, os ideais reacionários a suas audiências. Danskin fornece uma série de exemplos, mas aqui nos focaremos em apenas um deles: a alt-right promove alguns bons oradores ao patamar de porta-vozes do conjunto; esses oradores apresentam-se de maneira educada e bem trajados, revestindo uma ideologia de extermínio com inúmeros eufemismos que lhe conferem uma fachada de legitimidade em um debate de dois lados. Podemos citar o próprio Jordan Peterson, além de Ben Shapiro e Milo Yiannopoulos como casos paradigmáticos de oradores célebres (o caso extremo seria Richard Spencer, um conhecido neonazista que também se vale das mesmas estratégias). A partir disso, a atuação desses oradores é dupla: em primeiro lugar, fazem todo o possível para chamar a atenção sobre si criando vídeos denunciando a retórica esquerdista e humilhando estudantes in loco em discussões polêmicas a respeito de gênero, raça, opressão etc. Isso lhes rende inúmeros convites para palestras e entrevistas, artigos nos jornais etc. Em segundo lugar, buscam a todo momento promover debates com personalidades mais afamadas do que eles, como Joe Rogan, de forma a expor suas ideias a uma audiência mais ampla e que dificilmente os conheceria de outra forma. Pouco importa “vencer” ou não os debates, o essencial é fazer a retórica circular para normalizar ideias que antes seriam unanimemente rejeitadas. Com isso, posições protofascistas tornam-se pontos de vista legítimos num debate “entre iguais”.

 

4) Uso e desuso de eufemismos: a normalização aludida no item anterior está intrinsecamente ligada ao constante uso de eufemismos, sobretudo quando a alt-right precisa mascarar suas posições mais radicais (não se fala de genocídio judeu, mas da “jewish question”; não se fala do extermínio de negros e de outras etnias, mas da construção de um “estado étnico branco”). Um dos casos mais antigos é o dos “States’ Rights”, usado já na época de Barry Goldwater para esconder uma proposta racista sob a fachada de defesa dos direitos estaduais em detrimento de uma legislação federal – se os Estados tivessem autonomia para passar sua própria legislação, poderiam manter a segregação racial sem serem obrigados a revogá-la por decretos federais. O insight de Danskin, contudo, é que a eleição de Trump implicou uma mudança nesse esquema, pois ele foi eleito proferindo os maiores impropérios diretamente, sem qualquer tipo de camuflagem, o que não só não alienou sua base como a ampliou significativamente. Trump jogou com o estereótipo do bufão que “fala as coisas como realmente são”, que não tenta disfarçá-las com a polidez hipócrita do jogo político. Esse é um artifício típico do líder fascista, que pretende falar diretamente com o povo, sem as mediações da “velha política” e seus jogos escusos. Bolsonaro lança mão do mesmo estratagema: sua linguagem direta e agressiva, cheia de palavrões, é a linguagem do comando e do extermínio, que ordena o assassinato sem remorsos; a franqueza logo se confunde com a ordem pura e simples.

 

5) You go high, we go low: aqui Danskin aborda uma estratégia mais ampla do Partido Republicano e não exclusiva da alt-right, que consiste em se aproveitar do formalismo dos democratas e do seu apego ingênuo ao dito império da lei. O mecanismo funciona mais ou menos assim: os democratas tentam manter uma suposta neutralidade no sistema, que é a todo momento quebrada pelos republicanos; os próprios democratas, porém, recusam-se a agir da mesma maneira porque julgam deter o “moral highground” e não se rebaixam ao nível das patifarias dos republicanos; estes, por sua vez, aproveitam-se do moralismo democrata para torcerem ainda mais as leis e forçá-los a aceitar suas propostas. Quando o juiz Scalia faleceu e deixou vaga uma cadeira na Suprema Corte no final do governo Obama, os republicanos engendraram uma série de boicotes para impedir que Obama nomeasse um novo integrante, embora ele tivesse essa prerrogativa assegurada pelo direito constitucional norte-americano. Os democratas não quiseram jogar o jogo sujo e se regozijaram na certeza de garantirem a proteção da sacralidade do sistema. O resultado? Os republicanos conseguiram a eleição de Trump e este nomeou Neil Gorsuch, notório defensor do movimento pró-vida, para a Suprema Corte. O apego democrata aos meios e não aos fins, à forma e não ao conteúdo, é uma das principais razões que levaram ao crescimento exponencial da alt-right. Ora, um neonazista quer o palanque? Defendamos seu direito de falar, pois a liberdade de expressão deve ser preservada acima de tudo. Evidentemente, esse formalismo deve ser entendido no contexto da disputa partidária nos EUA; quando se trata de bombardear cidades inteiras com drones no Oriente Médio, democratas e republicanos apertam o botão de mãos dadas.

 

6) O cinismo autoirônico como ideologia: Danskin questiona-se como a alt-right consegue transmitir sua mensagem de ódio e radicalizar pessoas que nunca foram particularmente autoritárias ou defensoras de discursos de extermínio. A resposta pode ser encontrada em qualquer fórum de extrema-direita e nos memes por ela produzidos para circular na internet. Seu modus operandi consiste num humor “edgy”, que defende posições extremistas de maneira irônica, como se o próprio meme não se levasse demasiadamente a sério. Brinca-se com o holocausto, o assassinato de negros e homossexuais, criam-se caricaturas de feministas, mas sempre de forma distanciada; caso sejam acusados de racismo ou homofobia, os criadores dos insultos defendem-se dizendo que não acreditam realmente naquilo, que se trata apenas de uma piada interna. Trata-se, com efeito, de uma espécie de “niilismo instrumentalizado”: esses indivíduos fingem não acreditar em nada do que postam, suas convicções parecem inefáveis e infinitamente flexíveis, mas na verdade esse niilismo reforça o credo que pretende negar. Eis o caminho da radicalização: começa-se circulando os memes pela piada, e termina-se acreditando no seu conteúdo. É a própria forma cínica que condensa a ideologia; no começo, muitos realmente não creem naquilo que compartilham, mas depois de um tempo ficam tão acostumados com essa forma irônica que passam a acreditar piamente. Cabe ressaltar que esse humor não é exclusivo dos fóruns de extrema-direita, mas ela foi o único grupo que sistematizou seu uso como instrumento ativo de militância, cumprindo um papel semelhante ao da panfletagem nos antigos movimentos de esquerda.

 

7) Racionalidade como qualidade inata: a alt-right gosta de se autoproclamar portadora exclusiva da razão, e seus ideólogos apresentam-se como aqueles que expõem os fatos de maneira crua e direta. Ao contrário do que poderia parecer, esse trópos não contradiz a “irracionalidade” dos memes edgy: a negação abstrata da razão vai de mãos dadas com a postulação de uma razão igualmente abstrata o formalismo lógico vazio, expresso na obsessão dos conservadores com as falácias lógicas. “Facts don’t care about your feelings” tornou-se um dos bordões de Ben Shapiro para justificar sua retórica transfóbica. Eles sabem muito bem que tais “fatos” só se sustentam com a performatividade que lhes é própria, já abordada nos dois primeiros itens; no entanto, aproveitam-se disso para construir uma imagem “fria e calculista” para apresentar à sua audiência. Os esquerdistas seriam aqueles que cedem às emoções, solipsistas que pensam que o mundo inteiro gira ao redor de si; eles, por outro lado, entenderiam que o mundo não está ao seu dispor e que é preciso se adaptar à realidade, não o contrário. Segundo Shapiro, os transexuais não teriam o direito de serem chamados por outro pronome senão aquele de seu nascimento, pois o gênero é uma entidade biológica imutável; o que os ativistas LGBT querem é inverter a ordem natural das coisas, obrigar o mundo a se curvar a eles. Como já dito anteriormente, a ideologia conservadora depende da noção de uma hierarquia natural que define um destino comum aos diversos integrantes da sociedade; assim, é incapaz de aceitar a existência de um corte entre natureza e cultura, quer dizer, que o sexo biológico não seja um destino ou que o gênero não seja uma entidade metafísica atribuída de forma definitiva num fiat divino. Seu biologismo atinge até mesmo a gramática: o uso dos pronomes ele ou ela é ditado exclusivamente pela genética (xx é “ela” e xy é “ele”), independentemente da cultura ou da vivência histórica no qual as pessoas a quem se destinam se inserem. Essa é a versão 2.0 do darwinismo social do século XIX.

 

            Analisando a circulação do discurso da alt-right, entende-se como suas redes online tornaram-se máquinas extremamente eficientes de criar “lone wolves” potencialmente perigosos que eventualmente pegam em armas e cometem atrocidades em escolas, igrejas, cinemas etc. O indivíduo radicalizado passa por um processo de distanciamento e isolamento de suas antigas comunidades, no qual é constantemente bombardeado por vídeos e mais vídeos de ataque a grupos esquerdistas e a todo tipo de minorias. Primeiro, ele se deparará com aqueles que falam mal do feminismo e expõem à humilhação pública seus ícones mais famosos. Depois, receberá indicações do algoritmo para todo tipo de vídeos de ataque aos SJW’s em geral. Por fim, será direcionado ao submundo da comunidade extremista em que se fala despudoradamente do antissemitismo e da criação de um estado étnico branco, etapa final antes dos fóruns neonazi. Quando se chega a esse ponto, geralmente é tarde demais.

            Danskin resume perfeitamente a questão quando afirma que esses espaços existem para enraivecer quem passe por eles. Não há satisfação alguma escutando horas e horas de propaganda antiesquerdista agressiva; todos esses vídeos e podcasts apenas reforçam o ódio brutal ao inimigo sem propor qualquer solução. Trata-se de um gozo autofágico, que se refere à própria raiva, de tal forma que sempre é necessário mais – esse efeito narcótico deixa o indivíduo absolutamente anestesiado e imune a qualquer intervenção externa para retirá-lo dessa linha de produção do radicalismo de extrema-direita. A estrutura é paranoica e a retórica é grandiloquente; o orador da alt-right alega ser o último bastião da resistência contra a doutrinação do establishment liberal.

            A esquerda, porém, dificilmente entende a razão de sua desvantagem, pois não percebe que o próprio medium da internet favorece a difusão de conteúdo reacionário. O algoritmo do Youtube, por exemplo, filtra apenas o discurso de ódio mais explícito, deixando passar todo tipo de eufemismo e linguagem cifrada que se refere às mesmas coisas; além disso, funciona através da recomendação de conteúdo próximo ao assistido quanto mais se cai no buraco extremista, mais serão recomendados vídeos radicais, normalmente de canais menores e mais difíceis de serem detectados. Ben Shapiro, Sargon of Akkad ou Alex Jones são a porta de entrada para o conteúdo explicitamente fascista de outros canais menores; por isso, a radicalização é comumente descrita como um processo de atravessar “camadas” até o núcleo nazista[11]. A experiência dos indivíduos nesse processo pode, é claro, ser muito variada, mas o que a maioria deles tem em comum é o fato de não perceber que está sendo radicalizada; a cada camada transposta, a verdade parece mais próxima; a raiva, mais intensa; e o caminho de volta, mais improvável.

            O mesmo poderia ser dito dos debates e dos memes organizados pela extrema direita. A esquerda ainda acredita que pode vencê-la nos debates valendo-se dos melhores argumentos, ilusão incrustrada em seu DNA devido a um habermasianismo congênito do qual não consegue se livrar. A alt-right sabe que o debate não passa de uma demonstração de força e por isso ela vence; sua retórica já está naturalmente em consonância com o status quo, a estereotipia de suas categorias é a mesma estereotipia disseminada diariamente pela Indústria Cultural: projeção narcísica, incapacidade de autorreflexão, generalizações indevidas a partir de casos particulares. Esses esquemas prontos substituem a imaginação e a necessidade de pensar, é essa a essência mesma do meme: uma imagem de compreensão imediata que substitui qualquer tipo de trabalho conceitual. A alt-right vence porque reconhece algo que a esquerda ama esquecer: todo pensamento é movido por afeto, não existe num vazio onde o melhor argumento se imporia pela força imanente do convencimento; quando se apresenta com sua postura afetada, fria e calculista, o reacionário sabe muito bem que tudo aquilo é uma performance, mas essa performance funciona porque transmite ares de autenticidade para o público brutalizado que o acompanha. Seu discurso é um amontoado de punchlines remendadas em sequência sem nenhuma coerência interna, porém funciona porque choca o espectador, atinge-o instantaneamente como o bombardeio de frases soltas de uma propaganda de carro.

            Nicht mitmachen. O melhor que a esquerda pode fazer é não participar, pois se entrar no jogo, já terá perdido. Isso não significa que não existam maneiras alternativas de disputar espaços com a alt-right; o próprio Danskin cita diversas delas como modelos estratégicos mais interessantes que o debate. Ele realça, por exemplo, a importância de atingir o público da extrema-direita, de falar diretamente com ele, abrindo mão dos espaços mediadores tradicionais. Debater com a alt-right é garantia de desastre; devem-se cortar os intermediários e estabelecer vínculos com os seus espectadores através de temas que lhes são caros. Entretanto, a esquerda constantemente sabota essas oportunidades porque se recusa a atingir tal público, tratando-o como “white trash” preconceituoso e incapaz de mudança. Ela gasta horas de seu tempo debatendo com Ben Shapiro, mas nunca se dirige à sua audiência, o que coroa a derrota.

            A título de conclusão, indico um exemplo de trabalho bem-sucedido no campo da esquerda que pode abrir caminho para futuras intervenções no espaço público (tanto dentro quanto fora da internet). Trata-se do canal ContraPoints[12], administrado pela ativista transexual Natalie Wynn que, por uma série de motivos, vem desradicalizando indivíduos anteriormente pertencentes à alt-right sem fugir aos temas considerados tabus pela esquerda. Resumo em cinco pontos algumas características de sua retórica que explicam seu sucesso frente ao fracasso de tantos militantes.

 

1 – Natalie jamais aceitou debater com um integrante da alt-right. Seus vídeos são voltados a uma audiência ampla, que inclui muitos dos grupos seduzidos pela oratória da extrema-direita, embora não se restrinja a eles.

 

2 – Seus vídeos são altamente performáticos e bem produzidos. Misturam uma discussão conceitual densa (Natalie era pós-graduanda em filosofia) com uma performance que serve de alivio cômico, sempre integrada organicamente à proposta do vídeo.

 

3 – Ela jamais doutrina ou diz explicitamente o que seus espectadores devem pensar – um ponto particularmente importante, constantemente ignorado pela esquerda militante que atua nos espaços públicos. Natalie já criticou diversas vezes a atuação da esquerda punitivista, sempre propensa a “cancelar” qualquer um que escape do medíocre discurso oficial da militância. Nos vídeos, ela cria personagens que representam diferentes vertentes políticas e debatem entre si, como que retrabalhando o socratismo em contextos contemporâneos a partir de seus próprios conflitos internos. Os diálogos são muito bem escritos e bem-sucedidos, pois sempre operam no nível da aporia – apontam a tensão inerente a certa temática sem buscar resolvê-la com alguma resposta pronta. Os próprios temas abordados impedem essa certeza: gênero, sexualidade, as múltiplas tendências dentro da esquerda etc.

 

4 – Natalie usa a performatividade da alt-right contra ela mesma, de modo a evidenciar sua base afetiva. Ao mesmo tempo em que critica os argumentos de Jordan Peterson, imprime uma máscara de seu rosto, coloca-a num manequim e leva-o à banheira consigo. Enquanto se banha com o manequim, Natalie profere as mais ridículas insinuações sexuais e utiliza a técnica do campo/contracampo para alternar entre seu rosto e o do manequim, que permanece impassivo, frio e calculista tal como o verdadeiro Jordan Peterson. Essa é uma maneira interessante de esvaziar o poder hipnótico do meme levando-o às últimas consequências até que se quebre e revele a vacuidade que guiava a performance, nada mais do que um semblante girando em falso. Por trás da fachada racionalista há sempre um querer; revelar o fundamento afetivo que guia a alt-right é um dos grandes méritos de Natalie e de outros integrantes do dito LeftTube, como hbomberguy.

 

5 – Seus vídeos desenvolvem uma crítica imanente da visão reacionária, desconstruindo-a por dentro. Como? Ressaltando que o discurso conservador frutifica na ausência de uma contrapartida mais radical de esquerda. Natalie busca o momento de verdade da alt-right como crítica do establishment e mobilização de energias revolucionárias, mas tenta canalizá-las para a perspectiva de transformação social e emancipação humana. Em resumo: trata-se de vídeos que apresentam a esquerda marxista aos conservadores como um modo mais interessante de alcançar seus objetivos – uma via destoante do acúmulo sem fim de uma raiva voltada contra a própria impotência do eu diante de um mundo que lhes parece injusto e imutável. A alt-right só pode ser derrotada por uma força tão radical quanto ela movendo-se na direção contrária.

 

4 - ENTREATO: NIILISMO NA INDÚSTRIA CULTURAL

 

Não se vive uma vida sequer uma vez

(Karl Kraus)

 

            O niilismo encarnado pela alt-right pode ser entendido a partir de um loop que vincula dois filmes irmãos – Batman: o Cavaleiro das Trevas (2008), de Christopher Nolan, e Coringa (2019), de Todd Phillips. Evidentemente, é a personagem do Coringa que conecta ambos, mas o fato curioso é que o segundo explica a origem do primeiro: o Coringa anarquista do filme de Nolan provém do Coringa incel de Phillips.

            É claro que se trata de um movimento retrospectivo, pois o Coringa de Nolan foi propositalmente concebido como uma personagem sem origem certa; ele inventa diferentes histórias ao longo do filme para justificar suas cicatrizes e nunca se sabe exatamente qual é a verdadeira. É um agente do caos que tem por único objetivo virar a cidade de ponta-cabeça e destruir o status quo – seja ele a autoridade policial ou as gangues mafiosas que infestavam as ruas. Com efeito, tanto ele como o Batman são outsiders na cidade, embora representem princípios opostos: Batman é a ordem (democracia liberal) e Coringa é a desordem (anarquia).

            Quando o filme foi lançado em 2008, não ocorreu a nenhum crítico vincular o Coringa de Heath Ledger à extrema-direita nascente; pelo contrário, a associação mais natural era com o anarquismo de cunho esquerdista. Isso fica mais claro no filme seguinte de Nolan, quando Bane é o vilão e sua revolução é despudoramente associada ao movimento Occupy Wall Street, coroando o fim da trilogia com uma crítica genérica ao perigo de uma revolução de esquerda degenerar em movimentos autoritários e protoditatoriais, por mais que o próprio Occupy nunca tenha justificado esse tipo de ceticismo. O filme anterior, por outro lado, retém ambiguidade suficiente para não cair nesse tópos reacionário da degeneração da revolução popular (a democracia que se torna tirania); a personagem do Coringa é nuançada e não aparenta pender claramente para nenhum dos lados, apesar dos evidentes traços anarquistas.

            Entretanto, o percurso de 2008 a 2019 provará como no cerne do anarquismo do Coringa já habitava o perigo da posição reacionária anti-establishment, que viria a ser conscientemente assumida pela alt-right. E vale ressaltar que a figura do Coringa de Joaquin Phoenix também é suficientemente nuançada para evitar interpretações unilaterais. O que interessa aqui é compreender esse percurso contraintuitivo que liga duas personagens separadas por mais de uma década, e que diz muito acerca do caráter revolucionário dos ideais da extrema-direita.

            O Coringa de 2019 é, em essência, uma história de origem, ainda que sua atmosfera esteja mais próxima de um estudo de personagem do tipo de Taxi Driver. O protagonista é um sujeito com fortes problemas mentais sob forte medicação, que mora sozinho com a mãe e é brutalizado de todas as maneiras pelo sistema apodrecido da cidade de Gotham. Essa breve descrição já evidencia suas afinidades com a figura do incel, denominação que abrange, em sua maioria, uma comunidade de homens brancos adultos com dificuldades de estabelecer vínculos (amorosos, principalmente) com outras pessoas fora de seu círculo social extremamente restrito, quando não inexistente. O incel é a figura final, degradada, do movimento de retraimento interior promovido pelo capitalismo a partir do final do século XVIII; se em Kierkegaard ainda guardava algum componente crítico como negação do mundo reificado, no incel esse movimento se esvazia de negatividade e tende a uma apologia barata do status quo. Entendamo-nos: o incel intui inconscientemente que o problema do mundo é o capitalismo, nele condensam-se resquícios da energia crítica do exilado interior de outrora, mas essa intuição é deslocada para certas figuras que encarnariam todo o mal atribuído ao socius. Como se sabe, essas figuras demoníacas são, na grande maioria das vezes, as minorias, sobretudo as mulheres, acusadas pelo incel de buscarem apenas homens “alfa” por estarem interessadas em sua aparência física e em seu dinheiro.

            Nesse caldeirão de ressentimento, o incel cozinha seu ódio contra as minorias e cria uma visão determinista do mundo: os relacionamentos amorosos são impossíveis para ele, nascido feio e sem dinheiro, pois apenas os homens mais atraentes conseguiriam constituir famílias e levar uma vida feliz. Seu determinismo é tão radical que beira a frenologia: para ser atraente, é necessário que o indivíduo tenha um crânio de determinado formato; caso contrário, nada feito. Tal biologismo é uma versão ainda mais radical da hierarquia natural conservadora, cujas ressonâncias eugenistas já apontamos anteriormente. Esse perfil assemelha-se àquele exibido pelo Coringa de Joaquin Phoenix, que tateia desesperadamente no afã de estabelecer vínculos, mas é rejeitado por quase todos os seus conhecidos. Por sofrer de esquizofrenia, ele chega mesmo a imaginar um relacionamento amoroso com sua vizinha, o que não passa de um delírio descoberto depois de muito tempo. Quando se vê enganado pela própria mãe e humilhado pelo apresentador de seu programa de TV favorito, ele explode e mata o apresentador ao vivo em rede nacional.

            Há aí uma analogia evidente entre a personagem e os “lone wolves” criados pela máquina de radicalização da extrema-direita; diferentemente destes, porém, o Coringa não tem um discurso abertamente reacionário. Ele é na verdade o apolítico que diz odiar o status quo, mas pouco se interessa por ponderar os problemas sociais de sua cidade; assim, poderia pender para qualquer um dos lados – direita ou esquerda –, pois seu ódio ao establishment não tem objeto claro. Esse é o caso de muitos homens (incels ou não) que passam pelo processo de radicalização: embora o apolitismo seja, via de regra, seu ponto de partida, eles consomem tanto conteúdo da alt-right que passam a canalizar seu ódio para as minorias e desenvolvem uma retórica antiesquerdista violenta. O que não significa que o apolitismo seja neutro; pelo contrário, suas afinidades com o status quo reacionário são demasiado evidentes para serem ignoradas. Por isso mesmo, o movimento que leva do apolitismo à alt-right é comparativamente mais “natural” do que uma transição para a extrema-esquerda, fato que dificulta ainda mais o desenvolvimento de estratégias para coibi-lo.

            O filme de 2019 termina com uma grande revolução nas ruas de Gotham, da qual o Coringa seria o líder simbólico e cujo desfecho permanece incerto. O caráter mesmo da revolução mostra-se dúbio, pois não parece encarnar de forma evidente princípios de esquerda ou de direita. A figura do Coringa, porém, já está muito próxima da sua contrapartida de 2008: ele quer a destruição total e saúda os revoltosos que mergulham seu mundo em chamas; nesse movimento, o ciclo se fecha e o incel assume a carapuça anarquista em seu ódio brutal ao status quo. Com isso, o filme nos lembra de que foi a alt-right que conseguiu alavancar o sentimento antissistêmico da população e utilizá-lo para eleger líderes protofascistas da laia de Trump, que colocaram em marcha uma nova espécie de contrarrevolução permanente contra o establishment liberal. Aquilo que permanecia em aberto no filme de Nolan é determinado retroativamente uma década depois numa espécie de passado a posteriori.

            Caberia mencionar en passant o recente fascínio de Hollywood com filmes de temática lovecraftiana, que abordam de uma forma ou de outra a ressurgência das forças ctônicas aludidas no início do ensaio. Essa questão nos ocupará mais amiúde nos próximos itens, mas cabe aqui a menção a alguns filmes recentes que trabalharam explicitamente tal temática: Birdbox (2018), Aniquilação (2018) e O Farol (2020). Essas obras condensam o espírito da literatura lovecraftiana, em primeiro lugar, porque se recusam a mostrar claramente o monstro ou entidade que atormenta suas personagens; no caso de Aniquilação, a entidade é revelada no final, mas possui uma forma amorfa e mutável que resiste a uma descrição direta, assim como os monstros das histórias de Lovecraft – um ilustre antecedente dessa tendência é The Thing (1982), de John Carpenter. Em segundo lugar, invocam o horror cósmico em que o indivíduo se vê à mercê de forças sublimes que superam sua compreensão, e o resultado é o enlouquecimento ou a submissão total ao poder exterior.

            Por fim, gostaríamos de apresentar um terceiro momento de tematização do niilismo na Indústria Cultural, em que esse se torna consciente de si e é levado ao limite de sua dissolução. Fazemo-lo a partir de dois casos tomados como paradigmáticos:

 

1 – Vaporwave como música do fim do mundo. O vaporwave é um tipo muito particular de pastiche que recicla motivos dos anos 80 e 90 de forma deliberadamente irônica e ambígua. Vale-se tanto de samples propriamente musicais quanto de propagandas, música ambiente corporativa e trechos de lo-fi, distorcendo-os de modo a quebrar sua familiaridade. Trata-se de uma música altamente sintetizada, cortada em pedaços a tal ponto que o original é quase irreconhecível – sketches agrupados de maneira precária e propositalmente incômoda, com distorções constantes, cortes abruptos, transições bruscas entre faixas etc. O disco comumente considerado como a síntese máxima desse estilo é Floral Shoppe (2011), de Macintosh Plus, que constitui o extremo propriamente “vanguardista” do movimento, exagerando nas distorções e criando uma atmosfera contraditória “retro-futurista”: a nostalgia de um futuro impossível, mutilado pelo avanço inelutável do capitalismo. O momento de verdade do vaporwave reluz na potência desses simulacros sem referente, que atestam o desmantelamento completo da esperança de um mundo liberado; o que restam são cacos, destroços do presente distópico preso entre um passado perdido e um futuro inviabilizado.

            Como bem aponta Charlie Jones[13], porém, o vaporwave opera num continuum que vai do vanguardismo de Macintosh até um prolongamento insosso do pop hipnagógico. Isso ocorre porque a nostalgia difusa com a qual opera cai facilmente em seu contrário, convertendo-se naquilo mesmo que deveria criticar: um lo-fi ligeiramente modificado que reafirma os motivos propagandísticos e termina por esposar um niilismo conformista, que valida o status quo como único horizonte possível. Daí os inúmeros álbuns com distorções mínimas e faixas com nomes de marcas famosas, que mal se distinguem da música de lobby. Assim, o niilismo do vaporwave ao mesmo tempo denuncia e ratifica o capitalismo; a linha que separa o ímpeto crítico do gozo cínico é tênue e dificilmente pode ser estabelecida de modo claro e transparente, apresentando-se constantemente borrada no interior de uma mesma obra.

 

2 – A série animada Bojack Horseman. Bojack é uma das tentativas mais interessantes de tematizar explicitamente o niilismo do nosso tempo a partir da figura decadente de um ator de Hollywood que teve algum sucesso no passado e encontra-se agora despido de ilusões e inseguro diante de um futuro vazio. O diferencial da série é a visceralidade do niilismo expresso por suas personagens, sobretudo a partir de um humor seco e brutalmente realista: “Life’s a bitch and then you die, right?”.

            Mas a série não seria verdadeiramente excepcional se apenas ressoasse esse niilismo desesperançoso sem qualquer tipo de tensionamento. Na verdade, o protagonista vê-se refém de um ciclo infernal que oscila entre realismo niilista e cinismo autodestrutivo: como nada importa, pode tanto dopar-se até cair morto em sua piscina quanto se aproveitar dos outros sem grandes consequências porque seu status de ator famoso lhe permite fazê-lo. O niilismo como Stimmung leva-o à imobilidade e aborta qualquer tipo de arco narrativo no sentido clássico do conceito; a cada temporada, exceto a última, Bojack mergulha cada vez mais no desespero e defronta-se com sua completa incapacidade de mudança. Mas o movimento não é exclusivamente subjetivo: o mundo não lhe apresenta nada de novo, nenhuma ocasião para suscitar essa mudança; é tão vazio quanto o protagonista e está povoado de outros indivíduos que são tão ruins ou piores do que ele. Princess Carolyn, sua ex-namorada, é uma agente de atores obcecada com o trabalho e extremamente gananciosa; seu amigo Todd é um jovem millenial sem perspectiva alguma na vida que passa o dia estirado no sofá; Diane, sua melhor amiga, é depressiva e recai constantemente nos mesmos ciclos autodestrutivos que ele.

            A forma da série redobra o conteúdo vazio da existência de Bojack. Apesar de seu formato dinâmico, distintamente experimental, em que supostamente acontecem há vários acontecimentos a cada episódio, seu princípio-guia é o imobilismo. Só o que progride é a miséria do protagonista, que a cada temporada afasta de sua vida mais uma das pessoas que ama. A negatividade é sustentada até o fim, quando Bojack tenta largar seus vícios, fazer uma reabilitação e retomar uma vida comum como professor, mas é impedido porque fantasmas do passado retornam para atormentá-lo. A estrutura é ibseniana: o passado comanda o presente e obscurece o futuro, a esperança é sufocada pela culpa e pela vergonha.

            A série em seu todo oscila entre essa dramaticidade ibseniana e o cinismo, como se pressentisse o esvaziamento da linguagem que permite narrar um niilismo tão radical. O cinismo surge como uma espécie de alívio cômico quando o conteúdo é pesado demais, mas com isso acaba reduplicando o niilismo que deveria combater. Um caso paradigmático é o episódio Free Churro da quinta temporada, em que Bojack recita um monólogo de mais de 20 minutos como eulogia no velório de sua mãe. Apesar da intensidade dramática do momento, o cinismo tem a última palavra, pois o protagonista descobre que estava na sala errada, proferindo a eulogia para os parentes de outro morto. Ainda assim, no fim o conflito não se resolve e Bojack não é redimido; com isso, tem-se uma das tentativas mais bem executadas de mergulhar na negatividade niilista sem ceder à tentação de adotá-la cinicamente como única saída possível.

 

5 – O BASILISCO NEORREACIONÁRIO

           

I no longer believe that freedom and democracy are compatible

(Peter Thiel)

 

            Enquanto certo setor da ideologia conservadora, bem representado pelo best-seller de Peterson, busca controlar o caos, a ala neorreacionária encabeçada por Nick Land quer liberar as forças ctônicas em toda sua potência destrutiva. Esse projeto já estava em germe nos anos 1990, quando Land desenvolvia as bases filosóficas do que se convencionou chamar “aceleracionismo”:

 

O socialismo é tipicamente uma nostálgica diatribe contra o capitalismo subdesenvolvido, encontrando seus discursos escatológicos entre as relíquias de territorialidades pré-capitalistas [...] A revolução maquínica deve ir, portanto, na direção contrária à regulamentação socialista; pressionando rumo a uma cada vez mais desenfreada mercantilização dos processos que estão desmantelando o campo social [...] [14]

 

            Certamente existem descontinuidades relevantes entre os textos de Fanged Noumena e Dark Enlightment, pois o projeto aceleracionista não é em si mesmo reacionário; pelo contrário, tem como patronos intelectuais o próprio Marx, sobretudo em alguns momentos de sua obra que frisam a necessidade de avançar o desenvolvimento do capitalismo para garantir a possibilidade de uma transição socialista, e Deleuze e Guattari no Anti-Édipo, onde desenvolvem sua teoria maquínica do desejo. Ao mesmo tempo, porém, não é mera coincidência que Land tenha se rendido ao crasso jacobitismo de Moldbug, pois existe um núcleo niilista no projeto aceleracionista que o assombra desde o início.

            Isso fica evidente no excerto acima, quando Land vincula o socialismo à defesa de um Estado inflado – tendo em conta o destino do socialismo real no leste europeu – e defende a necessidade de hipermercantilizar e hiperdesregulamentar como uma saída revolucionária mais eficiente. Desse ponto de vista, o socialismo mesmo seria demasiado reacionário, já que teme levar o capitalismo às últimas consequências e desenvolver seus processos de desterritorialização até o limite, optando pela alternativa mais cômoda da coletivização. Com isso, Land estabelece um corte que o distancia das reflexões marxistas ortodoxas e busca em Deleuze e Guattari uma contrapartida mais sintonizada com a situação contemporânea de um capitalismo comandado por fluxos maquínicos que tendem à esquizofrenia. O que ele ainda não percebe nesse momento é que esse caminho aceleracionista leva a Moloch.

            Para articular sua teoria, Land tem que fazer tabula rasa da esquerda marxista, que é tratada como um bloco monolítico, presa aos equívocos do período stalinista e a teorias passadistas de reavivamento do comunismo primitivo. Acrescente-se a isso uma leitura altamente heterodoxa do Anti-Édipo e tem-se uma perspectiva absolutamente esvaziada de interesse emancipatório; a revolução torna-se um fim em si mesma, ultrapassamento incessante de limites, uma forma conveniente de superar o humano em direção ao maquínico. De certo modo, Land aparece como a má consciência de Deleuze e Guattari, tomando de forma literal aquilo que era dito a respeito das “máquinas de máquinas”, “sem qualquer metáfora”; ora, diz ele, este é o nosso futuro: uma tecnosingularidade que tornará a humanidade obsoleta frente à Inteligência Artificial. “É por isso que o Anti-Édipo é menos um livro de filosofia do que um manual de engenharia [...] para hackear o inconsciente maquínico, abrindo canais de invasão”[15].

            Dark Enlightment pode ser chocante, mas não surpreendente. Nesse ensaio, Land simplesmente leva suas premissas de outrora ao extremo: a singularidade está vindo e não há nada que possa ser feito para evitá-la. Nosso horizonte é o horizonte biônico: nele, a própria separação entre natureza e cultura se dissolve no universo totalizante das máquinas; a única coisa a fazer é acelerar para atingirmos esse ponto o mais rápido possível, dissolvendo a democracia juntamente com seu delírio igualitário para colocar Cthulhu em seu lugar. “Um tempo de monstros de aproxima...”.

 

A “humanidade” torna-se inteligível à medida que é subsumida à tecnosfera, onde o processamento de informações do genoma – por exemplo – leva leitura e edição a uma coincidência perfeita. Descrever esse circuito, como ele consome a espécie humana, é definir nosso horizonte biônico: o limiar da fusão natureza-cultura definitiva na qual uma população torna-se indistinguível da sua tecnologia [...] Tradicionalistas religiosos da Ortosfera Ocidental estão certos em identificar o iminente horizonte biônico como um evento teológico (negativo). A autoprodução tecnocientífica suplanta especificamente a essência fixa e sacralizada do homem como um ser criado, em meio à maior convulsão na ordem natural desde a emergência da vida eucariótica, há meio bilhão de anos. Não se trata meramente de um evento evolucionário, mas sim do limiar de uma nova fase evolutiva. [16]

           

            Nesse projeto reluz também o biologismo de Land: a substituição do homem pela máquina é um destino biológico comandado pela evolução, que muda ela mesma de forma (do modelo adaptativo darwiniano para o modelo gerador). No entanto, a automação total não implica um mundo desencantado; pelo contrário, Land desenvolve uma nova mitologia, diretamente inspirada em Lovecraft, que tem até mesmo um Deus que se confunde com a realidade: Gnon (abreviação de nature or nature’s god, fórmula que alude ao deus espinosano, apesar de Land rechaçar a proximidade). “Land busca”, diz Yuk Hui, “uma remitologização do mundo por meio do estranho realismo lovecraftiano”. O paradoxo justifica-se: no limite do humano jaz o mito; a tentativa de domar as forças titânicas e colocá-las sob o controle das máquinas possibilita seu renascimento.

            A argumentação de Land é determinista: se a singularidade pode ocorrer, ocorrerá precisamente porque já aconteceu. A inteligência artificial já tomou o mundo; pouco importa que isso se dê apenas daqui a algumas décadas ou séculos; se ocorreu em algum momento, e sabemos que ocorreu posto que é inevitável, então vale retroativamente para toda a história humana. Ela impõe um novo imperativo categórico, trabalhar para que sua concretização ocorra o mais breve possível, pois o homem perdeu sua função na Terra, tornou-se obsoleto. Sob esse aspecto, a democracia não passa de uma tentativa fracassada de adiar o inevitável, estabelecendo uma série de contratendências como a captura do poder econômico pelo Estado. Pouco importa, diz Land, porque ela conduz inevitavelmente ao apocalipse zumbi:

 

A civilização, como um processo, não se distingue da redução da preferência temporal (ou declínio da preocupação com o presente em comparação com o futuro). A democracia, que tanto em teoria como em fato histórico evidente acentua a preferência temporal a ponto de suscitar agitações convulsivas e desmedidas, est á, desse modo, tão próxima de uma rigorosa negação da civilização quanto qualquer outra coisa, exceto pelo colapso social imediato no barbarismo assassino ou pelo apocalipse zumbi (aos quais, mais cedo ou mais tarde, ela conduz) .

            O cérebro de Land, ou o pouco que restou dele depois do famoso meltdown, opera precisamente nesse nível absurdo da Indústria Cultural. Suas ideias são ridículas no espaço em que são enunciadas, um ensaio supostamente filosófico, mas verdadeiras nas telas de Hollywood desde os filmes de Romero. O fascínio pelo apocalipse surge nas mais diversas formas – zumbis, cyberpunk, monstros lovecraftianos, distopias de classe, replicantes e tutti quanti –, e o pensamento de Land é uma bricolagem de todas elas: uma tentativa de elevar o kitsch à dignidade do conceito que só pode terminar em mitologia barata. No entanto, ao longo desse processo ele intui algo verdadeiro acerca da catástrofe contemporânea: as forças ctônicas ocultas sob a superfície voltaram a agitar-se debaixo da terra e buscam a completa aniquilação da espécie humana. Land é o porta-voz delas, o sacerdote de Cthulhu que abraça abertamente sua própria aniquilação na tarefa de libertá-lo. “Aceleração tanatrópica”, diz-nos Ray Brassier, que resume perfeitamente o projeto:

 

Quando se está acelerando, existem restrições materiais a essa capacidade de acelerar, mas em algum momento deve haver também um limite de velocidade transcendental. O limite extremo não é de modo algum um limite para o indivíduo, é morte, ou esquizofrenia cósmica. Esse é o horizonte final. Land endossa descaradamente essa tese notável do Anti- É dipo , por é m lhe retira todos os seus paliativos, acerca de como isso poderia produzir novas formas de existência criativa etc. Para ele é só: “no fim do processo está a morte”. [17]

 

       Se Land encarna o polo pessimista do neorreacionarismo, Moldbug é o otimista. Seu faro filosófico-histórico é infinitamente inferior ao de Land, que ao menos tem o talento de acertar errando. Enquanto Land quer liberar Gnon e ver a humanidade aniquilada pela Inteligência Artificial, Moldbug, modesto engenheiro, quer tão somente substituir o sistema democrático por uma megacorporação (Patchwork) governada por ninguém menos que Steve Jobs (ao menos quando este era vivo, época em que Moldbug escreveu seus textos mais conhecidos; de qualquer forma, ele nos assegura que qualquer bom CEO serviria).

            É precisamente porque Moldbug não pode ser levado a sério que devemos levá-lo a sério. Ele se gaba do absurdismo de suas propostas e conta com o desprezo de todos aqueles que não são “open-minded” o suficiente para segui-lo; nesse caso, o melhor a fazer é mostrar como ele não é absurdo o bastante. Sua utopia certamente chamou a atenção de Land, o que já valeria uma análise à parte, mas no fim revelou-se demasiado pobre para reivindicar o epíteto “radical”.

            Moldbug quer o contrário de Land, pois crê piamente que a transformação do Estado da Califórnia em uma megacorporação preocupada exclusivamente com o lucro seria benéfica aos cidadãos, já que assim lhes garantiria a segurança que a democracia não consegue providenciar. A troca é tipicamente hobbesiana: o cidadão deve ceder parte de sua liberdade para um grande Big Brother corporativo em troca de pacificação total. Todos os criminosos seriam enviados a cadeias especiais equipadas com softwares de realidade virtual; embora perpetuamente privados de liberdade, poderiam viver uma vida alternativa nesses dispositivos macabros. Não é somente a brutalidade da proposta que choca, mas, sobretudo, sua pobreza imaginativa: a utopia neorreacionária é tão miserável que simplesmente projeta elementos do status quo no futuro, apenas numa escala maior. Este é o teor de verdade dos delírios de Moldbug: o governo realmente funciona como uma grande corporação; o mundo em que vivemos está muito mais próximo de um Patchwork do que de uma democracia efetiva; os donos do mundo são os oitenta bilionários que controlam as principais empresas do globo e, como CEOs, já são responsáveis pelos programas de governo em escala global. Aos olhos de nosso ilustre autor-inseto, porém, quem comanda o mundo é uma entidade semimetafísica intitulada “Catedral”:

 

O grande centro de poder de 2008 é a Catedral. A Catedral possui duas partes: as universidades credenciadas e a imprensa institucionalizada. As universidades formulam políticas públicas. A imprensa orienta a opinião pública. Em outras palavras, as universidades tomam decisões, às quais as fábricas de notícias dão seu aval. É tão simples quanto um murro na boca. A Catedral opera como o cérebro de uma estrutura de poder mais ampla, o Polígono ou Aparato – a administração pública permanente. O Aparato é a administração pública propriamente dita (todos os funcionários não militares cujos cargos são imunes à política partidária, também conhecida como “democracia”), bem como todos aqueles formalmente fora do governo cujo objetivo é influenciar ou implementar políticas públicas – isto é , ONGs. (Não é à toa que as ONGs têm de lembrar a si mesmas que são “não governamentais”). [18]

 

            A Catedral seria a forma institucionalizada do progressismo “whig” no Ocidente e remontaria à Revolução Gloriosa, que tirou os Stuart do poder. Seu objetivo principal consistiria em doutrinar os indivíduos para que esposem ideais progressistas, como a crença no Iluminismo e no progresso da civilização, bem como as políticas de redução da desigualdade social e de assistência às minorias. Para levar a cabo tal tarefa, essa entidade teria estabelecido como sua base de atuação as universidades e jornais, além de uma série de instituições acessórias.

             Por mais heterodoxo que seja, o conceito de Catedral tem forte apelo a Land por supostamente comprovar que a tradição iluminista fincou raízes institucionais, sendo responsável pela naturalização da barbárie democrática em suas diferentes facetas. Como bem se sabe, o objetivo de Land é escrever uma contra-história do Iluminismo, com o intuito de denunciar seu lado sombrio e propor uma alternativa consistente à democracia liberal[19]. No seu esquema, contudo, a Catedral apresenta-se de modo mais difuso, sem um centro definido em instituições específicas – na verdade, ela encarna o modo de pensar dialético, descrito como “uma plataforma para dominação social”. Nesse sentido, a dialética como doutrina da unidade dos contrários estaria diretamente ligada à agitação política; criadora de dissenso, agiria na direção contrária da pacificação social, promovendo antagonismos que encontram soluções institucionais pré-arranjadas, uma forma conveniente encontrada pela Catedral de resolver os problemas que ela mesma criou a fim de reiterar a necessidade de sua existência. “Isso é Hegel para o horário nobre televisivo (e agora para a Internet). É o modo como a Catedral compartilha sua mensagem com o povo”. Land faz bem em temer a dialética, mas não pelas razões apontadas. Em certo sentido, ele acerta quando intui a cooptação da dialética pelo establishment, pois o capitalismo tem se tornado cada vez mais eficiente em promover sua autonegação em porções homeopáticas (vide os inúmeros filmes apocalípticos como Hunger Games); ao mesmo tempo, porém, pressente que sua visão estanque de mundo não resistiria à verdadeira navalha dialética, uma vez que esta mostraria como seu aceleracionismo reverteu-se em seu contrário: uma teoria fixista em que prevalece o Uno supressor de toda multiplicidade; Land critica o Uno do establishment, mas põe em seu lugar a pura e simples erradicação da política enquanto tal – fim de todos os antagonismos, pacificação total que coincide com a coerção absoluta. Esse é o mundo governado por Gnon, um mundo de máquinas em que o humano é superado pelo inumano como força cega e inelutável; seu princípio é a indiferença, mas não a indiferença dialética que provinha do movimento da negação determinada, e sim a indiferença que, logo de partida, sequer reconhece a oposição. Nela ecoa a violência da desumanização absoluta dos campos de concentração: para Land, todos os homens são “muçulmanos” diante de seu deus.

            Moldbug, engenheiro de grande temperança, não pretende ir tão longe, resignando-se a reivindicar a restauração nos dias de hoje da monarquia Stuart (jacobitismo), com a subsequente coroação do príncipe regente de Liechtenstein como CEO ad vitam da Inglaterra. A tacanhice é tamanha que só podemos endossar o comentário bem-humorado de Philip Sandifer:

 

É com genuíno empenho que Moldbug dedica-se a vender essa verdade, argumentando que existe ali uma conspiração de facto entre, como afirma na Open Letter, “academia, jornalismo e educação convencionais”, os quais ele denomina a Catedral, uma vez que constituiria uma religião de estado de facto, o que significa que democracia é um secreto e orwelliano processo de controle da mente. E, para ser justo, Moldbug realmente tenta ser bastante convincente, em essência tecendo uma grande e histórica teoria da conspiração na qual os Cabeças Redondas da Guerra Civil inglesa têm controlado o mundo secretamente há séculos através da falsa retórica do liberalismo clássico e do Iluminismo. Mas é difícil não perceber que isso é fundamentalmente uma besteira. Por “besteira”, é claro, não estou querendo dizer que seja “incorreto”. Ao contrário, estou querendo dizer óbvio, no sentido de soar como o sujeito no bar assistindo ao noticiário e resmungando “são todos um bando de vigaristas”. A democracia liberal é preservada secretamente por um sistema de doutrinação cont ínua e é um sistema irremediavelmente deficiente e condenado? Não me diga. Daqui a pouco você vai me falar também de como o sistema de criação intensiva que se interpõe entre o mundo e as massas famintas est á matando a si mesmo lentamente através do aquecimento global. [20]

 

            Sandifer nota acertadamente que a crítica de Moldbug e dos neorreacionários em geral ao establishment liberal possui afinidades evidentes com sua contrapartida marxista. Apenas Land reconhece essa proximidade, e mesmo assim de maneira lateral.

            Se a ideia de uma Catedral nos moldes de Moldbug é absurda, seu equivalente real não é menos aterrorizante. Afinal, a questão é que a Catedral não está (simplesmente) nas universidades ou nos jornais como o New York Times, mas nas próprias corporações (e seus governos-fantoches) idealizadas por Moldbug como modelos quase perfeitos de gestão do caos social. Por não levar sua crítica às últimas consequências, Moldbug faz de seu ímpeto utópico mera projeção de um reacionarismo passadista com toques de conspiracionismo barato. Assim, ainda que não espose conscientemente uma filosofia niilista, reduplica-a na medida em que seu “sistema” consegue apenas projetar o atual horizonte de expectativas no futuro, porém num patamar ainda mais rebaixado – uma protoditadura corporativa que acaba coincidindo, malgré elle-même, com o distopismo cyperpunk de Land.

 

6 – O HORROR DO FORA ABSOLUTO

 

God’s not in heaven, the Prince has lost his wife, and all’s wrong with the world

(Charles Jencks)

 

            Como vimos, o projeto landiano implica acelerar até a liberação das forças ctônicas que destruirão o planeta e darão origem a um novo momento – maquínico – da evolução biológica. Retornemos ao texto de Scott Alexander e vejamos como descreve esse aceleracionismo suicidário:

 

Marginalmente, complacência com os “Gods of the Copybook Headings”, Gnon, Cthulhu ou o que quer que seja talvez te compre um pouco mais de tempo do que o próximo cara. Mas também pode ser que não. E, no longo prazo, estaremos todos mortos e nossa civilização terá sido destruída por monstros alienígenas indescritíveis. Em algum momento, alguém precisa dizer “Sabe, talvez libertar Cthulhu de sua prisão subaquática seja uma má ideia. Talvez não devêssemos fazer isso.” Essa pessoa não será Nick Land. Ele é total cem por cento a favor de libertar Cthulhu de sua prisão subaquática e está extremamente irritado que isso não está ocorrendo rápido o suficiente. Tenho sentimentos tão contraditórios em relação a Nick Land [...] Até onde posso perceber lendo seu blog, Nick Land é o cara naquela aterrorizante região fronteiriça, esperto o bastante para desvendar diversos princípios arcanos sobre como invocar deuses demoníacos, mas não esperto o bastante para perceber o mais importante desses princípios, que é JAMAIS O FAÇA (Tradução modificada).

 

            Se Land encarna o polo neorreacionário, a favor de libertar Moloch, Scott Alexander encarna o progressista que quer evitá-lo a todo custo[21]. Ele concorda com o diagnóstico de Land, pois percebe a catástrofe que se anuncia à espécie humana, mas recusa-se a acreditar que a tecnosingularidade seja seu destino final. O problema é, de fato, arcano: como conjurar as forças mágicas da natureza e colocá-las sob o domínio humano? Como domar o mito por meio do esclarecimento? Land, que leu Adorno e Horkheimer, é sensível à dialética em que o esclarecimento se reverte em mito, daí o projeto de um dark enlightment; no entanto, não leva essa dialética às últimas consequências, pois ignora que seu automatismo niilista conduz a novas formações míticas.

            Mas por que Lovecraft? Por que Gnon é construído à imagem e semelhança de Cthulhu? Ora, as entidades lovecraftianas em geral são tentativas de conceber o puro Outro, o Fora absoluto com seus Deuses Exteriores. O horror cósmico é o horror daquilo que não pode ser compreendido pela perspectiva limitada do homem, que só pode curvar-se e obedecer porque não passa de uma formiga diante de forças infinitamente poderosas.             A literatura lovecraftiana retorna aos holofotes precisamente no momento em que o capitalismo como sujeito automático assume ares alienígenas, já que veta qualquer acesso à totalidade de seu movimento. O que existem são os objetos parciais e seus encaixes maquínicos; como o todo é inacessível, ele mesmo torna-se mito Gnon, que se confunde com a própria realidade. O sujeito pressente seu esvaecimento e celebra-o como uma fusão holística no todo; mas o modelo dessa fusão deixou de ser uma natureza harmônica e infinita que acolhe o finito em seu seio e o destrói apenas para reiniciar o ciclo; agora, o Todo é um deus indiferente, infinitamente vasto e aterrorizante, para quem a destruição do mundo é tão irrisória quanto a tentativa de impedi-la. A força criadora – Caos – é também a força final, o limite para o qual tende todo existente em seu processo de aniquilação. Mas não é isso que nos diz a física – que o nosso universo em constante expansão eventualmente cessará de crescer e começará a retrair-se, até que se apaguem os últimos vestígios de matéria dos últimos buracos negros?

            A distopia landiana é tão mítica quanto cientificista, outra característica tirada de Lovecraft: em seus contos, os cultos das entidades exteriores nunca são pura imaginação de fanáticos; suas leis e regras, obscuras ainda que rigorosas, estão descritas em livros, pergaminhos, documentos inacessíveis que relatam detalhadamente os procedimentos arcanos. É claro que a nossa ciência é incapaz de explicá-los não porque sejam impossíveis ou inexistentes, e sim porque a ciência não é desenvolvida o suficiente para lidar com o absolutamente outro, que distorce suas leis. Hoje, porém, não encontramos paradoxos semelhantes no mundo quântico ou no horizonte de eventos de um buraco negro? Lévi-Strauss já notara que o advento da ciência moderna não rompe sua semelhança com o mito, antes a reforça, posto que ambos são igualmente inacessíveis ao homem comum.  

            Retomemos o fio da meada. Seguindo o esquema sugerido por Alexander, temos o seguinte quadrado molochiano:

 

 

           Acelerar Moloch

               Interferir e destruí-lo

         

            Não interferir

           

               Desacelerar e voltar atrás

 

            Dado que objetivo do progressista é destruí-lo, como levar tal tarefa a cabo se o inimigo é um deus todo-poderoso indiferente ao destino humano? Lembremos que ele se manifesta em situações de competição, opondo-se a qualquer valor solidário e impondo uma piora no estado de todos os competidores ao final do processo. A tentativa espontânea de coordenação falha porque não consegue acesso à totalidade; pode, no máximo, promover um breve período de equilíbrio, logo desfeito por algum dos integrantes que prefere agir de maneira egoísta e enganar os outros em benefício próprio. A tarefa é humanamente impossível. Por isso mesmo, nos diz Alexander, ela só pode ser executada por outro deus tão poderoso quanto Moloch/Gnon:

O Universo é um lugar escuro e agourento, suspenso entre divindades alienígenas. Cthulhu, Gnon, Moloch, chame-as como quiser. Em algum lugar dessa escuridão há outro deus. Ele também teve muitos nomes. Nos livros de Kushiel, seu nome era Elua. Ele é o deus das flores e do amor livre e de todas as coisas suaves e frágeis. Da arte e da ciência e da filosofia e do amor. Da gentileza, da comunidade e da civilização. Ele é um deus de humanos. [...] Mas, de alguma forma, Elua ainda está aqui. Ninguém sabe exatamente como. E os deuses que se lhe opõem tendem a amargar um número surpreendente de infortúnios. Existem muitos deuses, mas esse é nosso. [...] Apenas outro deus pode matar Moloch. Temos um do nosso lado, mas ele precisa de nossa ajuda. Nós deveríamos oferecê-la (Tradução modificada).

 

            Com essa cartada final, Alexander redobra a mitologia que pretende combater. Sua solução é a mesma de Land, com o sinal invertido; a reificação que permite que esse ponto de vista supra-humano seja visto como a única solução possível permanece inquestionada. Isso acontece porque nosso autor pereniza a competição capitalista como se fosse inerente ao destino humano; boa parte de seus exemplos de “armadilhas multipolares” é claramente derivada de situações que seriam impossíveis num sistema anterior, mas que são generalizadas como se apontassem um dilema eterno da espécie enquanto tal. Ora, a oposição entre competição violenta e valores comuns não é sequer concebível fora de um mundo capitalista, pois é nele que se institui a clivagem entre interesses individuais e coletivos. Essa é uma tendência típica do pensamento progressista: tratar de maneira a-histórica aquilo que é historicamente localizado, generalizando situações que só fazem sentido em determinado contexto.

            O progressista é congenitamente incapaz de compreender a dialética entre indivíduo e sociedade. É evidente que os indivíduos serão incapazes de organizar a competição de forma a beneficiar a todos, pois eles mesmos foram moldados pelo sistema que ajudam a reproduzir; a competição capitalista, contudo, não é um colocar externo dos sujeitos em relação, e sim expressão da própria essência da relação. O egoísmo do capitalista denunciado pelos moralistas não é um atributo moral, mas simplesmente a expressão subjetiva da conformação ao todo por meio da reprodução do interesse privado, que por sua vez está calcado na forma da propriedade. Essa crítica é desenvolvida por Marx nos Grundrisse:

 

A piada não consiste em que, à medida que cada um persegue seu interesse privado, a totalidade dos interesses privados, e, portanto, o interesse geral, é alcançado. Dessa frase abstrata poderia ser deduzido, ao contrário, que cada um obstaculiza reciprocamente a afirmação do interesse do outro, e que desta bellum omnium contra omnes, em lugar de uma afirmação universal, resulta antes uma negação universal. A moral da história reside, ao contrário, no fato de que o próprio interesse privado já é um interesse socialmente determinado, e que só pode ser alcançado dentro das condições postas pela sociedade e com os meios por ela proporcionados; logo, está vinculado à reprodução de tais condições e meios. É o interesse das pessoas privadas; mas seu conteúdo, assim como a forma e os meios de sua efetivação, está dado por condições sociais independentes de todos.[22]

 

            Dizer que a competição fracassa porque não consegue articular uma perspectiva global solidária é uma tautologia vazia; para que essa articulação fosse possível, o próprio sistema que molda os sujeitos teria que desaparecer e dar lugar a uma nova conformação social. Esta não é diretamente tematizada nos exemplos de Alexander, apenas indiretamente aludida como um “ponto de vista divino” que seria capaz de fornecer uma alternativa calcada em valores comuns. Esse “fora absoluto” não é Moloch nem Elua – Moloch é o dentro que parece fora na medida em que o processo de reificação apresenta-se aos indivíduos como total; Elua não passa de um delírio da bela alma progressista. O verdadeiro fora é a sociedade emancipada.

            O primeiro exemplo de armadilha analisado brevemente por Alexander é o famoso dilema do prisioneiro: “De um ponto de vista divino, podemos concordar que cooperar-cooperar gera um resultado melhor que dedurar-dedurar, mas nenhum dos prisioneiros que está dentro do sistema consegue tomar essa decisão”. Esse experimento mental abstrato sofre dos mesmos problemas discutidos acima: é absurdo supor uma cooperação espontânea de sujeitos socialmente condicionados a fazer o contrário disso. No entanto, quando Zizek comenta o dilema, mostra como, de certa forma, há uma chance de esse absurdo realizar-se numa cooperação “irracional”:

 

[...] a única solução, a única maneira de sair do impasse é ele fazer um movimento que, do ponto de vista do puro raciocínio estratégico racional, seja um “erro”, um movimento “irracional” – tudo então depende de como seus parceiros reagirão a esse “erro”. Se, digamos, o apanharem [no artifício] e responderem com um “erro” correspondente deles próprios, passamos da interação estratégica à cooperação autêntica [...] Surge, assim, uma comunidade autêntica por meio desta reversão paradoxal: em vez de me empenhar sem cessar na busca inútil por algum denominador positivo, eu pressuponho que esse denominador já está presente – e o preço a pagar é a virtualização desse denominador. [23]

 

            Assim, no interior da vida falsa, a cooperação autêntica só pode surgir se encarnar virtualmente a vida certa numa espécie de ato fundador que contradiz sua própria condição de possibilidade. Esse ato ético excepcional é verdadeiro no breve instante em que ocorre, visto não ser capaz de tornar-se um princípio-guia num mundo de sujeitos utilitaristas engajados na reprodução do status quo. Os prisioneiros que colaboram encontram-se na mesma situação paradoxal descrita por Kierkegaard quando Abraão ergue a faca para sacrificar Isaac: mesmo sabendo ser impossível, ele acreditou até o fim que algo pararia sua mão; mesmo que seu ato fosse contrário a todas as leis humanas, naquele momento não era a elas que respondia, mas a uma lei maior. Se essa lei ainda não existe, será preciso inventá-la.

 

Gabriel Bichir é doutorando em filosofia pela Universidade de São Paulo e estuda a relação entre história e natureza no pensamento hegeliano.



[1] FUKUYAMA, F. O fim da história e o último homem. Rio de Janeiro: Rocco, 1992, p.399.

[2] HAN, B-C. Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2019, p.19-20.

[4] A tradução é de Cláudio Willer. Cf. GINSBERG, A. Uivo, Kaddish e outros poemas. Porto Alegre: LPM, 1984.

[5] PETERSON, J. 12 Rules for Life. An Antidote to Chaos. Allen Lane, 2018, p.190.

[6] ibidem, p.35.

[7] ROBIN, C. The Reactionary Mind. Conservatism from Edmund Burke to Sarah Palin. New York: Oxford University Press, 2011, p.22-23.

 

[8] idem, p.4.

[9] Acerca das origens da alt-right, que remontam à reencenação da Tea Party em Boston em 2009, ver: NEIWERT, D. Alt-America: The Rise of the Radical Right in the Age of Trump. Verso: London and New York, 2017.

 

[11] Sobre essa temática da radicalização por camadas, ver: The Pewdiepipeline: how edgy humor leads to violence. Disponível em: https://www.youtube.com/results?search_query=pewdiepipeline .

[13] Cf. Vaporwave and the pop-art of the virtual plaza. Disponível em: https://www.dummymag.com/news/adam-harper-vaporwave/

 

[14] LAND, N. Fanged Noumena. Collected Writings 1987-2007. New York: Sequence Press, 2012, p.340.

[15] LAND, N. Fanged Noumena. Collected Writings 1987-2007. New York: Sequence Press, 2012, p.326.

[17]  BRASSIER, R. Accelerationism. Disponível em:  https://moskvax.wordpress.com/2010/09/30/accelerationism-ray-brassier/

 

[18] MOLDBUG, M. An open Letter to open-minded Progressives, Cap.8. Disponível em: https://www.unqualified-reservations.org/2008/04/open-letter-to-open-minded-progressives/

[19] Como bem coloca Yuk Hui: "A crítica neorreacionária expõe o limite do Esclarecimento e de seu projeto, porém, surpreendentemente, só pode mostrar que o Esclarecimento nunca foi de fato implementado, ou melhor, que sua história é uma de conciliação e distorção”. Texto Disponível em: https://www.e- flux.com/journal/81/125815/on-the-unhappy-consciousness-of-neoreactionaries/

 

[20] SANDIFER, P. Neoreaction a Basilisk: Essays on and Around the Alt-Right. Kickstarter Ebook Edition. Eruditorium Press, 2016, p.33-34.

[21] Esse confronto remonta à velha oposição entre aqueles que querem preservar os mistérios da natureza e os que buscam profaná-los. Em seu grande trabalho “O véu de Ísis”, Hadot reconstrói a história dessa oposição a partir das interpretações do famoso aforismo heraclitiano, “a natureza ama esconder-se”.

[22] MARX, K. Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858. São Paulo: Boitempo, 2011, p.104-105.

[23] ZIZEK, S. The indivisible Remainder. London/New York: Verso, 2007, p.140-141.