Sobre primórdios e fins do mundo

Alessanda Affortunati Martins


Ainda no final de 2022, a Cia. Teatral UEINZZ apresentou, na Casa do Povo, Telúrica, ensaio aberto dirigido por Elisa Band e encenado por diversos atores. Embora seja composto de diferentes fragmentos, o roteiro mantém um tênue fio que os unifica e o título traz o significante mais exato para conectar as diversas partes do experimento cênico.

Assistir a Telúrica não significa testemunhar o trabalho teatral no lugar de um espectador distante. O caráter pedagógico de Brecht também não cabe ali. A experiência daqueles que estão na plateia é a de mergulhar em um evanescente enredo onírico, no qual se adensam construções imaginárias prenhes de uma sabedoria incomum.

Não é porque estamos no plano dos sonhos, porém, que o ensaio assume contornos de estilo surrealista. O que se tem diante dos olhos é antes uma dilatação de partículas: palavras, gestos, movimentos e espaços vazios ganham certo volume numa composição segura de si em seus mais frágeis improvisos. Há uma faceta infantil nos vários quadros teatrais. Ela reside em uma espécie de saber que se perdeu nos arranjos da existência adulta: uma capacidade de formular perguntas e de olhar para a parte inusitada inerente às coisas que nos circundam. Com efeito, os atores recuperam uma espécie de deslumbramento diante de cada fração do mundo. Enquanto o adulto aderiu à maquinaria que roda quase sempre na mesma direção, o saber infantil coloca elementos existentes na Terra em zonas de extrema instabilidade. Tudo pode desabar de uma hora para outra. Que algo inesperadamente desabroche também não deixa de ser uma possibilidade – o fim e o começo das coisas e das vidas atravessam cada partícula do tempo e do espaço.

É inegável que retirar a capa de uma suposta estabilidade que envolve aquilo que existe pode amedrontar alguns espíritos mais aferrados à segurança. Nada está garantido quando a vulnerabilidade impera. Mas somente nesses lugares de máxima fragilidade o instante atual recupera toda a sua potência para vibrar. Nessa porção ínfima do tempo presente, o que se mantinha em uma virtualidade ainda apagada pode adquirir consistência, ganhar forma.

Alguns trechos parecem trazer conteúdos óbvios: “Vocês sabem realmente o que está acontecendo? Há coisas a perder, e a ganhar. Se vocês não souberem o que fazer direito poderá acontecer desastres, daqueles que vocês não sabem.”. As falas remetem a grandes feitos, quiçá a cenas de guerra – é uma questão de tudo ou nada, de ganhar ou perder. O diálogo, todavia, prossegue do seguinte modo: “o que é necessário saber é como correr para as escadas. Um por vez. Mesmo assim, cuidado.” Pode-se evidentemente escutar falas como essas de maneira metafórica. Prefiro, porém, apreender a gravidade que elas conservam em seu sentido mais literal. De fato, qualquer gesto corriqueiro e banal, como o de correr para as escadas, subi-las ou descê-las, pode ser fatal (acabo de perder minha mais amada tia após ela ter caído da escada e ter batido com a cabeça em um dos degraus).

A certa altura, os atores abrem uma fenda no tempo: “parece que está tudo igual, mas não está”. Nada se preserva intacto nesse campo de delicadezas. O preço da normalidade é se ater à constância de tudo, à sua mortal imobilidade. Nas cenas, os rumos são outros. Nelas existem seres que são afeitos às metamorfoses: “Eu, borboleta alheia à modernidade/à pós-modernidade/à normalidade,/oblíqua,/vesga,/silvestre,/artesanal,/poeta da barbárie./Com o húmus do meu cantar,/com o arco íris do meu cantar,/com meu esvoaçar/reivindico meu direito de ser um monstro/que os outros sejam o Normal.” (Suzy Shock, trad. Amara Moira)

Essa faceta efêmera do tempo está também na narrativa sobre a mulher velha e triste. Um dos atores compõe as imagens: Ela se colocava num canto. Seus cabelos caiam, sua pele se dissolvia. Só os ossos se mantinham visíveis. “De repente”, assim de maneira súbita e imprevisível, tudo se apagava. Alguns fios brilhantes surgiam e cresciam. Passarinhos apareciam e se enredavam aos fios brilhantes. Depois dos pássaros, vieram as mariposas e as borboletas, todas elas também atreladas aos fios que não paravam de se multiplicar.

A essas imagens fortuitas e luminosas de vida soma-se outra, tenebrosa: “aconteceu uma explosão nuclear. Não sobrou ninguém. Ninguém sobreviveu, mas está cheio de morto-vivo, espectros, eles conversam em conversa telepática, fofocaiada das almas tentando preencher o tempo” vazio...

De todas essas imagens de tons oníricos, a da baleia me pareceu a mais tocante por abrir outra perspectiva sobre o espaço no qual todos nós, espectadores e atores, estávamos durante o correr da peça. Um dos atores anuncia que todos que ali se encontravam estavam no interior da barriga de uma baleia. As vigas da sala seriam as costelas do animal. E a espécie da baleia era definida por sua característica de dormir na posição vertical no fundo do oceano.

Na foto do espaço onde aconteceu o experimento cênico, na Casa do Povo, surpreendentemente notamos essa imagem das costelas da baleia. Fica sugerido que o vazio do espaço ocupado é a barriga do animal e nossos corpos poderiam bem ser detritos de alimento – as cenas não deixam de evocar imagens clássicas da literatura infantil como Pinóquio, de Carlo Collodi ou Moby Dick, de Herman Melville.

Embora as sutilezas do impermanente sejam as linhas a comporem esse experimento teatral, não resisti ao gesto convencional de apelar para a escrita e amarrar uns poucos fios capazes de transmitir algo da beleza singela trazida pela peça aos que não puderam assisti-la naquele momento único.

Alessandra Affortunati Martins é psicanalista e pesquisadora da Cátedra Edward Saïd/UNIFESP.