Quem é antissemita ?

 

Franco « Bifo » Berardi

 

Em 2017 fui convidado a participar da Documenta 14, de Kassel. Escrevi um texto para um espetáculo sobre o sofrimento e a morte de inúmeros imigrantes provenientes de países em que a guerra e a fome tornavam a vida impossível. Como sabemos, essas pessoas rejeitadas se afogam no Mar Mediterrâno ou são detidas nos campos de concentração ao longo da costa, da Turquia à Grécia, ao sul da Itália, em Ceuta ou no Calais. O título da performance era Auschwitz on the beach. Era minha intenção prestar homenagem às vítimas do nazismo no século passado e às vítimas do racismo europeu hoje.

O anúncio da performance suscitou protestos na imprensa e um pequeno grupo de pessoas portando bandeiras israelenses veio protestar contra o título de minha obra. Nem me dignei a conversar com eles. Dirigi-me diretamente ao centro judaico Sara Nussbaum, onde encontrei a diretora, Eva Schulz-Jander e outros membros da equipe. Depois de uma conversa amigável, Eva e sua equipe manifestaram sua concordância com o fato de que a recusa em acolher os imigrantes hoje lembra a rejeição de 120 000 judeus que tentaram desembarcar nas costas britânicas e americanas em 1939. Contudo, ressaltaram que o título de meu trabalho tinha um efeito doloroso sobre aquelxs que guardavam uma memória direta do Holocausto. Então decidi substituir meu espetáculo por uma conferência pública no salão central do museu  Fredericianum. O tema era o racismo ontem e hoje. Eva Schulz-Jander me acompanhou ao local onde uma multidão de amigos exprimiram sua solidariedade comigo, e condenaram a intolerância do pequeno grupo de fanáticos com as bandeiras israelenses. Cinco anos depois, a intolerância continua presente, maldosa, mais arrogante, mais violenta.

Soube agora que alguém em Kassel prepara uma reunião a ser realizada na Philipp-Scheidemann-Haus e que terá por título O antissemitismo no conflito do Oriente Médio e na arte da sociedade pós-burguesa. Na página do Facebook leio um anúncio público no qual sou descrito como “antissemita”.

« Um grupo de artistas e de militantes anti-israelenses foi convidado pela Documenta 15 junto com o coletivo de Ramallah The Question of Funding. Nossa pesquisa sobre esse convite revelou que vários responsáveis e organizadores do evento artístico pertencem à cena cultural anti-israelense e por vezes antissemita. Este fenômeno não é novo: a conversa com Eward Said na Documenta 10, a girafa antissionista de Peter Friedl na Documenta 12 e a aparição do antissemita Franco Berardi na Documenta 14 indicam que estamos às voltas com uma conexão sistemática”.

Ao ler essa declaração, decidi responder ao insulto, mesmo sabendo que aqueles que o pronunciaram não merecem um segundo de minha atenção, apenas meu desprezo.

 

Não gosto de utilizar a palavra identidade, que considero conceitualmente equívoca, mas se é para fazê-lo, diria que para mim a identidade de uma pessoa não se baseia no seu pertencimento, porém no devir de sua consciência. Não são o sangue nem o solo, mas as escolhas éticas e intelectuais que definem o estilo (se preferirem: a identidade) de uma pessoa.  

Quanto a mim, as influências culturais que modelaram meu estilo de pensamento provêm da leitura de romancistas e filósofos judeus, e reconheço na minha educação o traço do judaísmo diaspórico, de Espinosa a Benjamin.

Não só li com paixão Isaac Bashevis Singer, Abraham Yehoshua, Gershom Sholem, Akiva Orr, Else Lasker-Schüler, Daniel Lindenberg e Amos Oz, mas também introjetei as opiniões de intelectuais que eram portadores da razão apátrida (Heimatlose Vernunft), fundamento da democracia moderna e do internacionalismo proletário. A condição judaica de desterritorialização está na origem da formação do intelectual moderno, que não faz suas escolhas por razões de pertencimento, mas se refere a conceitos universais.

Em Uma história de amor e de trevas, Amos Oz escreve: “Meu tio era um europeu consciente, numa época em que ninguém na Europa se sentia europeu, com exceção dos membros de minha família e outros judeus como eles. Todos os outros eram patriotas paneslavos, pangermânicos ou patriotas lituanos, búlgaros, irlandeses e eslovacos. Os únicos europeus na Europa dos anos 1920 e 1930 eram os judeus”.

No entanto, reitero que o judaísmo é uma parte inalienável do que sou, e considero o epíteto antissemita um dos piores insultos. Penso que os antissemitas são precisamente aqueles que organizam pogroms via Facebook, como o fazem esses senhores que se reuniram no Philipp-Scheidemann-Haus no dia 16 de julho às 14 horas.

No século passado, na esteira das perseguições, uma parte do povo judeu foi obrigada a identificar-se enquanto nação, ocupando uma zona onde viviam milhões de palestinos. A possibilidade de uma coabitação pacífica foi eliminada pelos preconceitos nacionalistas, abrindo a via para a hostilidade crescente que devasta a vida dos palestinos mas também dos israelenses.

A declaração votada pela Knesset em 2018, segundo a qual Israel é um Estado exclusivo dos judeus, viola os princípios fundamentais da democracia, da igualdade e da dignidade, e joga no lixo a própria herança da cultura judaica.

É o paradoxo da identificação: os que mais sofreram do racismo no passado são agora os agressores racistas.

Minha visão do conflito no Oriente Médio sempre se distanciou do nacionalismo árabe, pois não aceito o princípio de identidade que alimenta a agressão e o fascismo. Por isso nunca acreditei na política « dois povos, dois Estados”, que consagra o princípio da identidade étnica do Estado-nação. A separação da cidadania política e da identidade cultural é uma premissa inalienável da civilização democrática.

É a primeira vez que escrevo sobre essas questões pois, eu o confesso com certa vergonha, tive medo. Medo do quê? Medo de ser acusado de antissemitismo, que considero um estigma repugnante. Mas o insulto que leio no comunicado do Facebook me libera de todo receio.

Não tenho mais medo de ser insultado pelos que sustentam a opressão colonial do povo palestino, o assassinato cotidiano de jovens palestinos acusados de odiar seus opressores, o assassinato de jornalistas como Shireen Abu Akleh. Esses crimes, encorajados e encobertos pelo Estado israelense que se definiu (abusivamente) como Estado dos judeus, alimentam o antissemitismo que não cessa de crescer no mundo.

Atesta-o igualmente o que ocorreu em Kassel por ocasião das jornadas de abertura: a criação de uma horrível caricatura cheia de clichês que se inspira na iconografia antissemita do passado e do presente.

Em razão da violência sistemática que o colonialismo sionista empreendeu ao longo dos sessenta últimos anos, o horror antissemita ressurge e ameaça tornar-se majoritário, se não no discurso público, ao menos no inconsciente coletivo. Como não é possível afirmar abertamente que o sionismo é uma política errônea que produz efeitos criminosos, muitos não o dizem, porém não conseguem impedir-se de pensá-lo, e acabam sendo identificados ao antissemitismo.

Por conseguinte, os verdadeiros antissemitas são aqueles que convocam assembleias para intimidar os artistas.

Vocês são os piores inimigos do povo judeu, a pior ameaça para seu futuro.

 

Publicado em 17/07/2022

 

Traduzido por Peter Pál Pelbart

 

Imagem: Coletes salva-vidas na praia de Lesbos.

Foto Socrates Baltagiannis, dpa/picture alliance.