Para fazer correr os herdeiros de Trasímaco
Sandro Kobol Fornazari

 

O brasileiro ou a brasileira que lê hoje o seguinte trecho da República corre o sério risco de se ver acometido/a de espanto e não conter a exclamação: “Eles falam de nós!”

Quando Trasímaco consegue finalmente se inserir na conversa com a qual Sócrates e diversos interlocutores se entretinham, e que visava saber em que consiste a justiça, ele não esconde sua irritação. De maneira ríspida e agressiva acusa a todos os presentes de lidar com o tema através de frivolidades, isto é, através do diálogo. Diante dessa agressividade, Sócrates se vê tomado pelo pânico e assim se descreve a cena no início da República: “Saltando, lançou-se sobre nós como uma fera, para nos dilacerar.”

Trasímaco se inquieta tanto porque deseja falar, deseja dar a sua definição, que supõe admirável, a respeito da justiça. E assim o faz: “A justiça não é outra coisa que a conveniência do mais forte”; cada governo, cada poder instituído estabelece as leis de acordo com a sua conveniência e castiga os transgressores das leis como injustos. Como detém a força, a justiça é, portanto, a conveniência do mais poderoso. 

Não bastasse, acrescenta que o mais forte, na medida em que governa, nunca se engana, é infalível. Sendo assim, a lei que promulga é a melhor para ele e deve ser cumprida por todos que estão submetidos a ele. Ao fazê-lo, estarão realizando a justiça, que consiste em fazer o que é conveniente para o mais poderoso. Dirá ainda Trasímaco que, se os pastores velam pelo bem de suas ovelhas, é apenas para delas tirarem proveito próprio.

Sócrates não se convence de nada disso, afinal a arte do pastor é conseguir o máximo de bem-estar para o rebanho, como a finalidade de todo governo é zelar pelo bem dos governados. Diante de sua recusa em concordar que seja mais proveitoso para alguém cometer injustiças do que justiças, Trasímaco desfere: “Hei de pegar nos argumentos e metê-los no teu espírito?”

Como se vê, Trasímaco encarna a intrusão da violência no espaço aparentemente apaziguado do diálogo, onde toda disputa gira em torno da argumentação e do exame racional. Ele, no entanto, recusa o diálogo e tenta desqualificar a maneira como Sócrates conduz a discussão, com suas ironias e com a ignorância simulada. A partir dessa recusa, Trasímaco define então a justiça a partir da força, da capacidade de impor os seus próprios interesses e conveniências. Acha inclusive natural que um tirano que se apropria dos bens alheios seja considerado bem-aventurado e feliz.

De alguma forma, a intrusão de Trasímaco se faz presente hoje na maneira como nos sentimos acuados pelo uso violento da palavra que visa impor o que a conveniência dos poderosos estabelece como verdades. Ela se atualiza sempre que nos sentimos, como Sócrates, tomados de pânico diante das ameaças que sofremos ou que tememos sofrer por simplesmente defendermos um ponto de vista divergente. Sua presença também é responsável tantas vezes por nos sentirmos paralisados, por nos julgarmos impotentes para interferir, para sequer ser ouvidos em meio ao debate ruidoso das redes sociais ou ao debate direcionado por interesses nas mídias em geral. 

Porque no mais das vezes acreditamos que não nos faltam bons argumentos, que esses argumentos estão carregados de virtudes cívicas que nos colocam do lado certo da história, do lado da Justiça. No entanto, de nada valem se não forem cuidadosamente avaliados, por nós e por interlocutores capazes de ouvir e refletir. Aqueles que se lançam sobre nós como feras desejam apenas interditar o debate, afirmar sua doxa baseada na força e, se preciso for, impô-la através da violência.

Por isso, estamos diante de um desafio que jamais foi vivido desde a redemocratização. Não se trata apenas de ampliar o debate público, de seguir estudando e produzindo conhecimento em todas as áreas, o que tem sido feito com maestria nas universidades e outras instituições de ensino e de pesquisa país afora. Trata-se agora de pensar também em estratégias e táticas de ação que nos possam tirar da paralisia e do pânico. A produção de saberes precisará estar vinculada a uma prática cotidiana que aproxime as pessoas, que os saberes se troquem como se trocam afetos positivos, em que as mais diversas vivências e experiências de mundo sejam igualmente valorizadas. É preciso que essa disponibilidade para a construção coletiva de saberes se espraie socialmente, chegando às escolas, aos centros comunitários, às comunidades e aos coletivos dos mais diversos tipos.

As estratégias devem passar também por ações coordenadas que nos permitam combater o ímpeto dos “herdeiros de Trasímaco” (expressão usada por Salinas Fortes em seu Retrato calado), com seus discursos e suas ações violentas, seu ímpeto de destruição e seu desejo de servir à vontade de tiranos. É preciso acreditar e sustentar a palavra e o diálogo, mas é necessário também estar preparado para outros tipos de combate em defesa das populações acossadas pelas atividades criminosas, como o garimpo e a mineração desenfreada, o desmatamento e a destruição de biomas, as milícias e a violência policial e carcerária. E junto/as combater incansavelmente o racismo, a homofobia e toda forma de violência contra as mulheres.

Poderíamos concluir com Sócrates que a justiça gera concórdia e amizade, enquanto a injustiça produz ódios e disputas, impedindo o empreendimento de qualquer coisa em comum e que, portanto, os justos têm uma vida melhor e são mais felizes que os injustos, de maneira que a justiça será sempre mais vantajosa que a injustiça. 

Mas, muito mais que isso, é preciso fazer com que o injusto, aquele que produz o ódio e a destruição, passe a temer os justos em virtude de sua capacidade de organização e de construção coletiva de novas formas de solidariedade e de convivência, que passam pela produção de novas formas de sensibilidade, de uma capacidade de imaginar coletivamente novos mundos possíveis e de pensar para além do que se pensa.

Nessa hora extrema, em que se está sob ataque incessante (que o povo de Bacurau nos inspire), em que a luta em legítima defesa da vida livre e criadora, da justa partilha da vida e dos frutos do trabalho coletivo é uma imposição, a gente não pode se eximir de ter coragem.