Os sonsos essenciais  [1]
Stella Senra

 

 

51.072 345 de brasileiros são a favor da tortura.

51.072 345 de brasileiros admitem o armamento da população.

51.072.345 de brasileiros aceitam a atuação das milícias.

51.072.345 de brasileiros concordam com a justiça feita pelas próprias mãos.

51.072.345 de brasileiros concordam que bandido bom é bandido morto.

51.072.345 de brasileiros aceitam que a polícia mate nas favelas, extermine os negros, os pobres, as crianças.

51.072 345 de brasileiros são indiferentes à morte por covid de mais de 600 mil de seus conterrâneos.

51.072.345 de brasileiros aceitam que se zombe do sofrimento dessas vítimas, que morram por falta de oxigênio, que sejam tratadas por medicamentos ineficazes.

51.072.345 de brasileiros admitem a violência contra seus conterrâneos que não sejam heterossexuais.

51.072.345 de brasileiros aceitam o estupro.

51.072.345 de brasileiros aceitam a pedofilia.

51.072.345 de brasileiros aceitam o feminicídio.

51.072.345 de brasileiros concordam que pobre não gosta de trabalhar.

51.072 345 de brasileiros não se incomodam que seus conterrâneos morram de fome, ou se alimentem de ossos e de lixo.

51.072.345 de brasileiros apoiam o racismo.

51.072.345 de brasileiros aceitam a violência contra os índios e quilombolas, que seus territórios não sejam demarcados e suas culturas destruídas.

51.072.345 de brasileiros admitem a mineração e o roubo de madeira em terra indígena.

51.072.345 de brasileiros concordam que a floresta amazônica arda em chamas.

51.072.345 de brasileiros aceitam comida envenenada por agrotóxicos.

51.072.345 de brasileiros ignoram a crise climática.

51.072.345 de brasileiros são contra a defesa dos direitos humanos.

51.072.345 de brasileiros são contra os direitos trabalhistas.

51.072.345 aceitam os ataques aos direitos dos deficientes perpetrados nos últimos três anos.

51.072.345 de brasileiros aceitam a subserviência do país aos interesses de outras nações e de grupos econômicos internacionais.

51.072.345 de brasileiros não se incomodam com a verdadeira doação das riquezas do país.

51.072.345 de brasileiros preferem acabar com a universidade pública.

51.072.345 de brasileiros acreditam que a escola distorce a formação das crianças.

51.072.345 de brasileiros abominam a cultura e a arte.

51.072.345 aceitam a destruição da saúde pública.

51.072.345 de brasileiros aceitam um regime totalitário com Deus acima de todos.

51.072.345 de brasileiros ignoram o estado laico.

51.072.345 de brasileiros se creem cidadãos de bem, defendem a pátria e a família. 

 

 

 

É preciso nunca esquecer esse acontecimento. 

Eles estavam aqui. Eles estão aqui. Eles continuarão aqui. 

 

   Outubro de 2022.

 



[1]  Na sua crônica “Mineirinho”, a escritora Clarice Lispector usa a expressão “sonsos essenciais” ao procurar entender a morte, por treze tiros, de um conhecido fugitivo do Manicômio Judiciário condenado a cento e quatro anos de prisão. A evocação pela escritora desse  fait-divers , muito explorado pela imprensa carioca nos anos 1960, coloca em cheque a justiça que mata Mineirinho, e chama atenção para a engrenagem social que nos leva à ilusão, impedindo o contato de todos nós com a “tessitura da vida”, com a “nossa mais funda humanidade”. Os “sonsos essenciais” – aqueles que se fazem de bobos sem ser – sabem o que está em jogo nesse episódio policial, mas preferem ignorar a violência histórica que lhes permite dormir tranquilos. Eles, os sonsos essenciais, continuam entre nós; e a violência que então abalou a escritora é hoje muito maior, mais generalizada e naturalizada. (Evoco aqui parte de um texto de Rosenbaum, Y. “A ética na literatura: leitura de ‘Mineirinho’”, de Clarice Lispector; publicado pelo Instituto de Estudos Avançados da USP, versão on-line).