os mundos que desmoronam

Acerca de um livro de David Lapoujade

 

 

LÉO PINGUET

 

 

Sobre A alteração dos mundos: versões de Philip k. dick.

1.     Se nosso mundo se parece cada vez mais com um mundo de ficção científica (FC), e também com um mundo dickiano, é porque Philip K. Dick teve o gênio, notado por Baudelaire, de criar lugares-comuns, isto é, simulacros levados até o ponto em que eles cessam de ser imagens artificiais para se tornarem signos que servem de modelo para nosso mundo. Mas talvez também porque as condições de uma crise gnóstica, próxima em vários aspectos àquela que viveu Dick nos anos 1970, estão novamente reunidas. Para entrar em matéria, tanto na literatura dickiana como no comentário que dela propõe o filósofo David Lapoujade, restituamos suscintamente as sequencias dessa história, evocada na introdução de A alteração dos mundos [São Paulo: n-1 edições, 2022].  

Crises gnósticas

1.     A primeira crise gnóstica ocorreu no século II e III de nossa era. A escatologia cristã – abrangendo o Apocalipse e o Fim dos Tempos – foi decepcionante para alguns crentes. Não só não acabava de não acontecer mas levantava um problema ainda mais cruel: como conciliar a ideia de um Deus demiurgo e de um Deus destruidor? Os gnósticos colocavam a seguinte questão, que Dick e suas ficções retomaram à sua maneira: não estaríamos aprisionados num mundo artificial, criado por um deus inferior, maldoso ou ao menos imperfeito, um mundo fadado à destruição de um Deus superior, este sim perfeito, porém mais distante? A solução dos Pais da Igreja, como Santo Agostinho, foi de condenar esta heresia e de situar a origem do Mal no homem (e sobretudo na mulher) com a doutrina do pecado original 1 .

2.     A segunda crise gnóstica e sua resolução moderna é mais conhecida por nós. Recorde-se o comentário de Foucault sobre a decisão de Descartes de excluir preventivamente a loucura do âmbito do pensamento e, assim, da Razão 2 . Ela poderia ser assim enunciada: antes mesmo de intervir, o Gênio Maligno não  conseguiria me fazer duvidar que, duvidando, eu penso, e que pensando, não sou louco 3 .

3.     Essa decisão veio barrar a inquietação barroca de Montaigne, de Calderón ou de Cervantes, sobre a vida como sonho, inquietação já domesticada pelo regime teatral da representação, como o lembra Lapoujade. Não por acaso, um dos personagens mais famosos de Dick se chama Rick Deckard (um René Descartes americanizado). E não por acaso, igualmente, um filósofo se interessa hoje em extrair conceitos desse universo, sob a forma de uma tábua das categorias aberrantes que compõe um capítulo de A alteração  dos mundos.

O delirio, criador de mundos

4.     A porta de entrada na obra dickiana – a de uma terceira crise gnóstica – é a seguinte. Diferentemente de Descartes, Dick e todos os gênios malignos que ele inventa para perturbar o cogito de seus personagens não exclui a loucura do âmbito do pensamento e suas dúvidas. Se esta exclusão não é possível, é que o ego e seus delírios não conseguem mais abstrair-se do mundo, ao passo que “Descartes descobria o eu independentemente de qualquer mundo” (p. 54). Mais, poderia acrescentar-se que a moral provisória cartesiana, ao modo de um psicanalista robô dickiano, já reconciliava “as pessoas com o mundo tal como ele era 4  », antes de lhes propor de se conduzirem na matéria como “mestres e possuidores” 5  ». Dick, por sua vez, faz parte de um outro mundo onde ninguém se safa tão facilmente da loucura. Dois anos antes da crise gnóstica de Dick, Deleuze e Guattari afirmavam em O anti-Édipo que todo « delírio tem um conteúdo histórico-mundial 6  ». Não se delira sobre seu pai ou sua mãe, como em Freud, para salvaguardar algum princípio de realidade, assim como não se delira sobre si mesmo, suas mãos e seu corpo, à maneira de Descartes, para garantir ao filósofo um ego cogitativo em direção ao saber dos princípios metafísicos. Delira-se sobre o mundo inteiro.

5.     Aqui se enlaça a filosofia e a obra de Dick tal como propõe David Lapoujade: A FC não se define pela ciência ou pela tecnologia, que facilmente podem enclausurar o gênero num folclore. A FC se define pelo fato de que ela pensa por mundos (p. 11). É a primeira tese da obra. Além da consonância desse pensamento por mundos com a crítica das informações-mundo, sobre a qual voltaremos na conclusão, revela-se sua consonância com a crítica dos mundos artificiais como a Disneylandia e a Califórnia vivida por Dick (p. 114-129). Os blockbusters hollywoodianos, de Star Wars a Jurassic Park passando pelo Marvel Cinematic Universe, poderiam servir de exemplo. Também eles se tornaram entretenimento de massa que comporta não só narrativas mitológicas mas mundos em expansão, na fronteira entre a ficção e o real que eles produzem e declinam em quantidades de reboot, prequel, sequel spin-off, séries, videogames, produtos derivados para colecionar (ver os vários personagens colecionadores em Dick), cosplay e congressos onde se reúnem fãs e influenciadores (quase uma categoria de personagens dickianos). Mas geralmente, é todo o público, incluindo nós, que vive da persistência desses mundos de sucata em casulos mais ou menos regressivos.

“Tudo aquilo que é desejável torna-se imediatamente acessível, como um sonho regressivo de onipotência infantil .” (p. 122)

6.     Os mundos dickianos também têm a particularidade de se desdobrar, pluralizar-se, revelar-se factícios, mas sobretudo, nota Lapoujade, de se alterar, de interferir uns nos outros, de confrontar o TOC consigo mesmo (p. 116), até de entrar em guerra, desagregar-se e acabar, por vezes muito rapidamente, desmoronando. Esses mundos são tudo, menos confortáveis. É que o problema de Dick diz Lapoujade, é mais profundo do que a questão sobre a realidade, frequentemente retomada pelos comentadores – a do androide versus o humano, que aqui deixaremos de lado – a questão é a do delírio. (p. 17) É a segunda tese mestra da obra. O problema dos mundos é antes de tudo clínico. Ego cogitoergo delirium mundi, se nos perdoarem o pastiche. A saúde mental não diz respeito primeiramente à subjetividade, ela concerne a integridade dos mundos. Ora, em Dick já não existe sentido ou mundo comuns. Nem o sujeito-narrador, nem o sujeito pensante garantem a objetividade da narrativa e de suas meditações metafísicas. Como o lembra O anti-Édipo novamente: “Fala-se com frequência das alucinações e dos delírios; mas o dado alucinatório (eu vejo, eu ouço) e o dado delirante (eu penso...) pressupõem um Eu sinto mais profundo” 7 . O sujeito-pensante e o narrador dickiano só asseguram um Eu sinto, das intensidades, dos devires e das passagens que o atravessam.

Lógicas irracionais

7.     Consequentemente, o comentário proposto por Lapoujade se articula a partir dos princípios que presidem esses processos e sua oposição aos princípios da filosofia clássica: “Se as narrativas de Dick testemunham a destruição dos mundos, é porque as categorias que organizam sua realidade perdem seu valor de princípio.” (p. 41)

8.     Leitor de Alfred Korzybski, por intermédio do autor de FC A. E. van Vogt e O mundo dos não-A (o mundo da lógica não-aristotélica), nem por isso Dick postula a necessária complementariedade entre os novos princípios da “ciência” e a “saúde” (p. 140 ; p. 187), muito pelo contrário. Discretamente, Lapoujade segue o trabalho empreendido numa obra anterior: Deleuze, os movimentos aberrantes 8  (Deleuze só é citado quatro vezes em A alteração dos mundos). O problema do pensamento deleuziano, segundo ele, era aquele, clássico, dos fundamentos e de um princípio de razão suficiente face aos movimentos aberrantes. Tratava-se de perguntar com que direito a filosofia se arroga o direito de distribuir direitos e de excluir do pensamento populações inteiras, como os loucos, tal como Descartes o fez a partir da Razão. Como então pensar lógicas irracionais, sem princípios de razão, como ser justo com aqueles que comumente não têm direito ao pensamento e à existência 9  ?

9.     Na obra de Dick, em que proliferam lógicas irracionais, o princípio de causalidade, de identidade, do terceiro excluído, o eu, as categorias transcendentais do tempo e do espaço só valem quando sofrem distorções, como o nota Lapoujade. A alteração não é, pois, secundária. Ela age verdadeiramente nos próprios fundamentos dos mundos dickianos. Contrariamente à fenomenologia husserliana, que postulava uma Urdoxa, uma opinião originária como fundação e doação do mundo, em Dick “não há o dado, existe apenas aquilo que é transmitido, difundido, projetado” (p. 103), suscetíveis de manipulações e conflitos. Não há tampouco compossibilidade entre acontecimentos num mesmo mundo, fundado sobre um “princípio racional de exclusão leibniziano” (César tendo ou não atravessado o Rubicão, os nazistas tendo ou não perdido a guerra), pois este princípio também ele opera sobre o já constituído. (p. 81)

10.   Remetendo a Deleuze e a Simondon, a alteração dickiana remete, segundo Lapoujade, a uma “disjunção inclusiva” ou “metaestabilidade” que operam ao nível de um mundo informal onde os indivíduos se desfazem, as realidades inconciliáveis se superpõem. (p. 81) O anti-Édipo já estabelecia: “É verdade que a realidade cessou de ser um princípio. [...] O esquizo é desprovido de princípios 10 . » Se ela compartilha tais premissas, a esquizoanálise dickiana não é materialista como a de Deleuze e Guattari. Ela é idealista, cibernética e paranoica: uma hibridação de Berkeley (p. 49 ; p .105), de Norbert Wiener (p. 50 ; p. 106-7) e, nós acrescentaríamos, do Présidente Schreber. Lapoujade, por sua vez, propõe o termo de « imaterialismo » (p. 105). A questão dickiana não é, portanto, nem “o que isso significa?” (psicanálise) nem “como isso funciona ?” (esquizoanálise deleuzo-guattariena 11 ) mas « quem está por trás de tudo isso?” (p. 44)

11.   Ao princípio de causalidade, pois, se contrapõem, em Dick, primeiro a instabilidade do probabilismo da teoria dos jogos, depois a noção de sincronicidade, criada pelo físico Pauli e retomada pelo psicanalista Jung em sua introdução aos preceitos do Yi-King – sincronicidade, isto é, “configuração momentânea que forma a totalidade de todos os eventos tanto físicos como psíquicos”. O mundo de Dick não é mais regido pelas relações constantes entre os fenômenos que o compõem e que asseguram sua unidade, mas por um psiquismo-mestre que controla suas aparências, a ponto de pluralizar os mundos, segundo a lógica do “pluriverso”, termo retomado por Lapoujade a William James 12 .

12.   Mas por que “substituir metodicamente a causalidade pela sincronicidade” (p. 44) ? É que o princípio de causalidade não permite responder aos problemas ligados à “influência de realidades virtuais ou eventuais” sobre as realidades atuais. É assim em O Senhor do Castelo Alto. Se em nossa realidade a segunda guerra mundial assistiu à derrota dos nazistas, o romance pergunta: como saber “o que é que sobrevive do nazismo numa realidade que pretende ter acabado com ele?” (p. 47). Como a eventualidade do nazismo, seu virtual, age em nossa realidade, fora de toda causalidade? Estamos seguros que uma foto reportagem da revista Life sobre uma família norte-americana típica dos anos 1950, sentada diante de sua televisão, não entra em sincronicidade com a foto reportagem sobre uma família nazista tão típica quanto, que aparece no romance? O “que eles ganharam num mundo onde, entretanto, foram vencidos?” (p. 47) Se essa pergunta, levantada por Dick em 1962, pode continuar atual 13 , é porque ela é ao mesmo tempo uma questão virtual e uma consideração inatual.

 

Asylum mundi

 

13.   Quando a sincronicidade substitui o princípio de causalidade, o princípio de realidade se pluraliza, os mundos se desagregam e, com eles, o princípio de identidade e o eu: “Se o princípio de realidade  e o princípio de causalidade desmoronam, como não arrastariam na sua queda o princípio de identidade? Como todas as noções perdem seu valor de princípio, os personagens não compreendem mais o que está acontecendo com eles [...] Nas suas meditações, Descartes concluía da atividade do “Eu penso” pela substancialidade do “eu” como coisa pensante. Em Dick, nada [...] me garante que “Eu” (je) seja mesmo eu (moi).” (p. 53)

14.   Em Dick, na esquizofrenia se instaura um “princípio de não-identidade” que, mais que uma certeza fundadora, toma a forma de um “problema insolúvel” ou de uma “cisão irreparável”, e por fim a de uma “identidade plural” que faz explodir o eu. O ato performativo do cogito cartesiano, ou o ato lockiano “sempre renovado de apropriação dos conteúdos de consciência” (p. 63) e garantido pela continuidade da memória, são a cada instante, em Dick, perturbados pelo que Lapoujade chama de uma guerra de psiquismos. Nesta guerra, todos os golpes são permitidos: falsificação do passado, da memória histórica e dos arquivos pelos aparelhos de Estado tecnocráticos, difusão de drogas que provocam alucinações e perturbações psíquicas, controle mental exercido por agências publicitárias, programação cibernética da informação, do trabalho, do consumo e fetichismo da mercadoria instituídos por empresas industriais e comerciais. Quando essas superestruturas não provocam diretamente a defasagem dos psiquismos, é a ingerência de normas sociais contraditórias que privatizam as visões do mundo e, assim, a realidade como conjunto comum, o que o romance Os olhos do céu, analisado por Lapoujade, coloca em cena de maneira emblemática.

15.   O mundo dickiano já não é mais o theatrum mundi barroco, porém um asylum mundi, à maneira do planeta-manicômio apresentado em Os clãs da lua Alfa. Nada nem ninguém garante a unidade e a estabilidade do mundo, bem como do eu, de modo que o mundo se pluraliza nas secreções dos delírios de cada um, e esses delírios de cada um têm uma “dimensão imediatamente coletiva e social” e são um campo de relações de força. Lapoujade enuncia o princípio dickiano por excelência: todo mundo pertence a um psiquismo que o controla. Compreende-se assim o lugar atribuído ao personagem paranoico em Dick, já que ele é “o homem de uma única ideia que age com a força de um último princípio, não no sentido em que ele seria o mais elevado dos princípios, mas no sentido em que é o último que lhe resta.” (p. 160)

16.   Considerando a guerra dos princípios que é também uma guerra dos mundos, compreende-se também que estes não cessam de se alterar, de colapsar. Como o resume Lapoujade, “a “realidade” do mundo não é um problema teórico, é o objeto de lutas políticas concretas.” (p. 126)

 

A zona do fantástico

 

17.   Ao articular esses princípios, Lapoujade propõe três eixos que recolocam em questão alguns motivos convencionais abordados pelos comentários dickianos. Primeiramente, como vimos, a FC não se define pelas núpcias entre a ciência e a ficção, mas pelo fato de que ela pensa por mundos. Em segundo lugar, a obra de Dick não se resume à questão “o que é a realidade?”. A leitura filosófica da literatura encontra aqui seu lugar pois não se contenta em formular, ou repetir, as questões. Ela traz à tona os problemas criados pelo escritor – ainda mais por sua obra, que ultrapassa por vezes as declarações do próprio autor – para recolocar  as questões com novo frescor. Ora, vimos que a questão dickiana sobre a realidade, questão de superfície, encobre o problema mais inquietante do delírio, levado a limiares coletivos e conflitivos.

18.   Em terceiro lugar - esta proposição desagradará certos fãs incondicionais: a obra de Dick não se situa somente na FC. Também aqui, a FC não define o movimento geral que a afeta. Assim, segundo Lapoujade, a obra de Dick se define antes de tudo como uma obra fantástica. O corolário dessa proposição é, em Dick, o desacoplamento entre a ciência e a ficção, por um lado, e o princípio do progresso, por outro, em favor sobretudo dos princípios de regressão e entropia. O romance Ubik figura como “o anti-modelo do livro de FC padrão, seu contrário: ali, tudo regride, e aquilo que progride só o faz rumo à degradação e à morte.” (p. 86) Mais, são todos os romances dickianos que rompem com uma “intriga linear” de tipo progressivo, todos os romances bifurcam o tempo todo, seguindo desenvolvimentos aleatórios, “porque eles estão construídos nessa zona [...] onde as categorias se desmontam,  causalidade, identidade, realidade, o mais próximo do caos.” (p. 198) E esta “zona” é a do fantástico.

19.   Não nos enganemos. Fundada nas proposições de Todorov, essa identificação do fantástico dickiano não opera de maneira aristotélica. Ela funciona, escreve Lapoujade, ao nível de um “tipo de experiência singular independente dos gêneros, esses momentos em que o personagem não sabe mais se o acontecimento sobrenatural do qual é testemunha é uma ilusão dos sentidos, um produto da imaginação, caso em que as leis do mundo permanecem imutáveis, ou então se ele pertence à trama da realidade, quer dizer, que obedece às leis de um mundo desconhecido.” (p. 70)

20.   O fantástico não é, pois, um gênero, mas uma zona, a ser aproximada de um “campo pré-individual descrito por Simondon e Deleuze”, no sentido em que o fantástico é o “local das gêneses e das transformações incessantes”. Para dizê-lo com outras palavras, como escreve Lapoujade, enquanto a FC “concebe um mundo (ou vários)”, “o fantástico faz sempre a experiência da colisão entre dois mundos (ou mais)”, razão pela qual ele se “aloja na indecisão” entre o real e o irreal. Dick não concebe mundos senão para os fazer entrar em colisão e os ver serem engolidos numa “inquietante estranheza”. (p. 70)

 

Estilística e Bricolagem

 

21.   Filosófica, a leitura da obra dickiana proposta por Lapoujade não é menos um comentário interno e panóptico. Primeiramente, no sentido em que o conjunto de mundos criados por Dick, até nos seus detalhes mais ínfimos, são contemplados. Mas sobretudo no sentido em que as questões são colocadas a partir dos mundos dickianos, não desde uma exterioridade ou um sobrevôo. As pistas provenientes das análises de referência da FC, bem como os conceitos ou os filósofos mencionados, são convocados  apenas para formular os conceitos dickianos, conceitos que emanam dos perceptos que atravessam sua obra na qual Lapoujade não cessa de nos mergulhar novamente. Cada ideia é sustentada, pluralizada por exemplos e versões que abundam em A alteração dos mundos (marcadas por recorrentes “ou bem” e “ou ainda”): variações seja de personagens, seja de intrigas, seja de situações extraídas das novelas e dos romances de Dick. Os trajetos periféricos com outros romancistas – Burroughs e a paranoia, Ballard e a entropia –, as artes plásticas – Warhol, a Pop’ Art e o kitsch greenbergiano, Rauschenberg e a bricolagem lévi-straussiana, Smithson e a entropia –, ou o cinema – Lynch e a inquietante estranheza –, todos esses desvios só comparecem a fim de precisar a singularidade dos mundos criados por Dick.

22.   Deste conjunto, talvez só lamentamos algumas generalidades retomadas a D. H. Lawrence, que já tinha inspirado Deleuze em favor de um certo antiamericanismo. A análise da obra de Dick permite prescindir disso, já que a carga contra os Estados Unidos soa mais justa quando vem de um autóctone. Contudo, seria um equívoco tomar a força assertiva contida na frase lapoujadiana como peremptória. É preferível sentir nela uma tonalidade deleuziana, mesclando a oralidade e o escrito, um estilo onde o argumentador vira um narrador e inversamente, em particular no uso frequente do demonstrativo (“é isso”, “não é mais isso”), os “sem dúvida” e os “talvez” que pontuam os parágrafos, toda uma escritura que implica num trabalho de visão e de afirmação que ultrapassam o registro estritamente acadêmico. Como exemplo, compare-se a seguinte passagem de Lapoujade:

“Como esse novo mundo artificial impõe suas imagens visuais e sonoras aos psiquismos, não existe mais, portanto, mundo “interior” distinto que possa escapar dessa invasão. Os psiquismos encadeiam os clichês, as imagens padronizadas e tornam-se, por sua vez, humanos artificiais.” (p. 125)

E esta passagem de Deleuze:

“São imagens flutuantes, esses clichês anônimos, que circulam no mundo exterior, mas que também penetram em cada um e constituem seu mundo interior, de modo tal que cada um só possui em si clichês psíquicos pelos quais ele pensa ou sente, se pensa e se sente, sendo ele mesmo um clichê entre outros no mundo que o rodeia”. 14

24. Contudo – cabe-nos agora falar como Aristóteles – se esse caráter deleuziano do pensamento e do estilo de Lapoujade talvez seja o próprio de A alteração dos mundos, não é isso que o define. O que define o êxito estilístico e teórico da obra é sem dúvida a maneira pela qual ela entretece a cada instante suas análises com as evocações, descrições ou citações de Philip K. Dick, a ponto de as teses formuladas por Lapoujade parecerem emanar do próprio texto de Dick. O filósofo aplica em sua escritura aquilo que ele revela nos personagens de Dick, ao final da obra, a saber: a arte da bricolagem. O objetivo do bricoleur, lembra ele, diferentemente do filósofo-engenheiro, “não é se apropriar de um mundo fixando as condições de sua expansão, mas reunir fragmentos de mundos heterogêneos de maneira a circular entre eles.” (p. 190)

26. Não se trata de tornar-se senhor e dono da natureza (ou, em nosso caso, da obra de outrem). Nem cabe se fazer engenheiro, cibernético, programador, comunicador, psicanalista ou tecnocrata (ou comentador fanático e dogmático). Trata-se de sobreviver em mundos cujos especialistas-déspotas se transformaram em Deuses malignos, a ponto de perturbar tais mundos e torná-los invivíveis. Do mesmo modo que os bricoleurs dickianos, a obra de Dick compõe o estoque a partir do qual se agencia o comentário proposto por Lapoujade. O que haveria de melhor, feitas as contas, para comentar Dick do que tornar-se dickiano, até no método? E o que haveria de melhor do que desviar suas ficções rumo a uma filosofia, para dela sugerir novos usos que, modestamente, tentarão “reparar os mundos”? (p. 146)

 

         Fim do mundo, fim do mês

 

27. Notemos, para concluir, que o livro de Lapoujade dá sequencia à recente edição em francês da integralidade das novelas de Philip K. Dick 15 . Estaríamos enganados se aí víssemos uma simples oportunidade editorial, um encadeamento lógico de causa (dickiana) e efeito (lapoujadiano). A releitura de Dick proposta por Lapoujade responde antes de tudo a uma necessidade 16 . Ela se inscreve primeiramente num ambiente contemporâneo onde todos os “cenários, todas as simulações, as hipóteses geradas, catastrofistas ou não, forçam a pensar em termos de mundo, a “globalizar” o menor dado”, onde “não somos mais informados sobre partes do mundo, mas permanentemente alertados sobre o estado geral do mundo.” (p. 14) Face ao efeito esmagador de tais informações, A alteração dos mundos extrapola o estrito comentário e nos interroga: não estamos à mercê, a exemplo dos personagens dickianos, de qualquer aspecto de nossa individualidade e ao caráter estereotipado de nossas existências? (p. 11) Desde logo, não estamos nós também à mercê de delírios esquizoides, de incessantes up and down entre complexos de inferioridade e de superioridade, entre paranoia mistificadora (da conspiração) e paranoia desmistificadora (contra as conspirações)?

28. Basta pensarmos no destino flutuante da hipótese relativa às origens da pandemia Covid-19 num acidente de laboratório de Wuhan. Será que não embarcamos numa egotrip tal como o personagem Douglas Quil na novela Souvenir? A hipótese, primeiro desacreditada como fantasiosa, depois considerada uma pista de investigação não conclusiva pela OMS, foi posteriormente de novo objeto de pesquisas mais sérias 17 . Pequenos assalariados, cidadãos comuns, uma inoculação memorial-informacional e eis-nos transformados em espiões da Interplan, retornando de uma missão em Marte-Wuhan: a falsa-lembrança vai pegar ou não? Ela vai revelar uma conspiração, ou uma genealogia viral banal e “natural”, ou ainda o fundo de nossos fantasmas, por substituição retroativa?

29. Através de algumas incisões disseminadas ao longo da obra, A alteração dos mundos entra assim em sincronicidade profunda com um sentimento confuso, comum e de época. Esse sentimento é aquele inspirado pela crise da nossa relação ao mundo, relação mediatizada por uma hipérbole de comunicados e de imagens, ora contraditórias, ora extravagantes, ora intoleráveis, que fazem com que elas nos apareçam a cada dia um pouco mais delirantes. O que está em jogo nessa luta, como em Dick, é antes de tudo a informação. À crise climática, à crise sanitária, à crise econômica, à crise democrática, etc., respondem a paranoia sobrevivencialista, a paranoia securitária, a paranoia migratória, a paranoia xenófoba, etc., até o nosso riso, também ele paranoico, que não chega mais a distinguir, em todas essas informações, os acontecimentos e os enunciados autênticos de suas paródias factícias. 18

30. A crise da faculdade de julgar não é só um problema de história da filosofia, ela está no coração das narrativas dickianas como nossa experiência contemporânea. David Lapoujade o nota: é “como se as informações sobre o estado presente do mundo não fossem mais do que uma sucessão de narrativas de antecipação sobre seu estado futuro” (p. 14), os quais colocam em jogo nossa crença num mundo comum. E essa multiplicidade entrópica de crises não é, afinal, controlada pelo princípio superior TINA, “There Is No Alternative, princípio (neoliberal) que pretende que “se resta um único mundo, ele também está condenado a desaparecer, a se devorar do interior, já que ele vive apenas da destruição dos outros mundos”? (p. 93) Feitas as contas, será que o slogan de resistência dos coletes amarelos  - “Fim do mundo, fim do mês” - não era dickiano?

 

Texto generosamente cedido pela revista Acta fabula, vol. 23, n° 1, Essais critiques, Janvier 2022, URL : http://www.fabula.org/revue/document14090.php, página consultada no dia 5 de setembro 2022. O título original do artigo é “Principes des mondes dickiens ».

 

Tradução : Peter Pál Pelbart

 

 

NOTAS

1  Hans Blumenberg, La Légitimité des Temps modernes [1966], trad. M. Sagnol, J.-L. Schlegel et D. Trierweiler, Paris, Gallimard, coll. « Bibliothèque de philosophie », 1999.

2  Michel Foucault, Histoire de la folie à l’âge classique, Paris, Gallimard, coll. « Tel », 1972, p. 56-58.

3  René Descartes, Méditations métaphysiques, Première méditation, Paris, Garnier-Flammarion, 1992, p. 59.

4  Philip K. Dick, Là où il y a de l’hygiène in Nouvelles complètes, t. II, Paris, Gallimard, coll.  « Quarto », 2020, p. 196-197 ; citado par Lapoujade p. 41 do original em francês.

5  Para a terceira máxima da moral provisória de Descartes ver Discours de la méthode, Troisième Partie, Paris, Garnier-Flammarion, 1992, p. 47-48. Para a famosa fórmula « comme maîtres et possesseurs de la Nature », mais nuançada que suas interpretações posteriores fizeram crer, ver Ibid, Sixième Partie, p. 82 (nós sublinhamos).

6  Gilles Deleuze et Félix Guattari, L’Anti-Œdipe. Capitalisme et schizophrénie I, Paris, Minuit, coll. « Critique », 1973, p. 106.

7  Ibid, p. 25.

8  David Lapoujade, Deleuze, les mouvements aberrants, Paris, Minuit, coll. « Paradoxe », 2014. [Deleuze, os movimentos aberrantes. São Paulo: n-1 edições, 2015.

9  David Lapoujade, Les Existences moindres, Paris, Minuit, coll. « Paradoxe », 2017. [As existências mínimas. São Paulo: n-1edições, 2017]

10  L’Anti-Œdipeop. cit., p. 103.

11  Ibid, p. 129-130.

12  Ver, sobre William James, as duas obras de David Lapoujade : William James : empirisme et pragmatisme [1997], Paris, rééd. Les Empêcheurs de tourner en rond, 2007 ; Fictions du pragmatisme : William et Henry James, Paris, Minuit, coll. « Paradoxe », 2008. [William James, a construção da experiência e Ficções do pragmatismo, ambas pela n-1 edições, respectivamente 2017 e 2021]

13  Ver as ressonâncias históricas e sincrônicas na obra recente de Johann Chapoutot, Libres d’obéir : le management, du nazisme à aujourd’hui, Paris, Gallimard, coll.  « NRF Essais », 2020.

14  Gilles Deleuze, L’Image-mouvement, Paris, Minuit, coll. « Critique », p. 281.

15  Philip K. Dick, Nouvelles complètes I & II, Paris, Gallimard, coll. « Quarto », 2020.

16  Ver a entrevista de David Lapoujade a Claire Viain pour ArtPress, n° 488, mai 2021, p. 95. Disponível em: https://www.artpress.com/2021/05/11/echo-artpress-488-versions-de-philip-k-dick-de-david-lapoujade/

17  Coll. « Investigate the origins of COVID-19 » in Science, Vol. 372, n° 6543, 14 mai 2021 : « Les théories de la libération accidentelle d'un laboratoire et de la propagation zoonotique restent toutes deux viables » (tradção nossa). Disponível em: https://science.sciencemag.org/content/372/6543/694.1

18  Ver a definição proposta por Frédéric Lordon de um princípio « gorafico » de nossa atualidade que é « uma história de realidade e de ficção, mais precisamente de realidade doravante sistematicamente antecipada à ficção”, in « Critique de la raison gorafique », 7 de abril de 2021. Disponível em: https://blog.mondediplo.net/critique-de-la-raison-gorafique.