Origens

Anne Dufourmantelle

 

A vida nos coloca a suavidade desde a origem. Acreditamos captá-la na sua fonte – criança dormindo relaxada, gosto de açúcar do seio materno, voz que embala, recita, acaricia –, a adivinhamos em outros lugares, no movimento do animal, no começo da noite, no verão, na trégua de um combate, no encontro de um olhar. Nós a reconhecemos na cabeceira dos moribundos, no olhar que atravessa sua agonia sem febre, mas ela também não se deixa capturar ali. Ela vem acalmar a paixão dos amantes e opor ao carrasco um último suspiro contra o qual ele nada pode fazer.

 

Manifestamos suavidade. Demonstramos suavidade. Suavizamos o final de uma vida, seu começo. A suavidade é um enigma em sua simplicidade. Sempre reconhece sua própria evidência. Emissora e receptora, ela pertence tanto à carícia quanto ao pensamento. Seria, na origem, uma qualidade do ser? Uma experiência? Uma ética? Uma mentira? Existe uma sensorialidade primitiva que, um dia, teria identificado a suavidade?

 

Vinda da mais longínqua memória da vida, de onde mãe e filho são apenas um, corpos fusionados, a suavidade evoca um paraíso perdido. Um antes original que seria uma aurora. Desde o começo, porém, teria havido violência, terror, assassinato. O mimetismo e a rivalidade que inflamam o ódio; não há fala sem traição nem civilização sem a tendência à crueldade mais refinada. O paraíso já está sempre perdido se o levarmos de volta à origem, e só os melancólicos podem constatá-lo. Viver é uma conquista arrancada dessa paixão pela perda que também é um engano; as epopeias, as narrativas, os mitos lembram isso. É preciso ter coragem para não ceder a esse éden perdido, pois ele é um terrível mal-entendido que facilitará todos os ressentimentos que virão.

Ele dará razão ao sacrifício.

 

A suavidade também vem depois da separação, o intervalo da respiração, depois da fome, depois da angústia, depois do grito.

 

Perturbadora, pacificadora, perigosa, ela aparece na margem.

 

Do outro lado, uma vez que o limite for ultrapassado. Do vazio, do cheio, do espaço, do tempo, do céu, da terra, ela faz uma ruptura entre os signos, entre a vida e a morte, entre a origem e o fim. Irredutível aos registros dos sentimentos que a rodeiam: benevolência, proteção, compaixão. Ela é fronteiriça, já que ela mesma oferece uma passagem. Ao se difundir, ela altera. Ao ser concedida, metamorfoseia. Ela abre no tempo uma qualidade de presença para o mundo sensível.

 

A suavidade inventa um presente expandido. Falamos em esbanjar suavidade, reconhecê-la, entregá-la, recolhê-la, esperar que venha. Ela é o nome de uma emoção cujo nome perdemos, vinda de um tempo no qual a humanidade não estava dissociada dos elementos, dos animais, da luz, dos espíritos. Em que momento o gênero humano tomou consciência dela? A que ele a opôs, quando vida e sobrevida se confundiam?