O pensar do Chão...

Ana Mumbuca

            Sou do pensar do chão. Há um ditado popular que diz que “o que vem debaixo não atinge”. Na sabedoria do meu povo, quem experimentar sentar em um formigueiro de formigas jiquitaia saberá que a verdade desse ditado não se sustenta. E, pensando de baixo, do mais profundo do chão, meus pensamentos ancestrais emergem. O chão que penso é terra sagrada e, como terra sagrada, não é lugar para qualquer um. Não por sermos seletivos, mas pelo fato de que só é possível entrar no chão sagrado quem consegue comunicar pelos sentidos. A permanência no chão sagrado é o mesmo que viver em festa, estando em guerra.

            O fazer leituras do mundo a partir do chão que vivo é colocar à disposição o conhecer de um povo que, pela construção perversa de uma sociedade colonialista, foi colocado dentro de classificações e caraterizações, subalternas. Por isso insistimos na construção de uma sociedade das confluências.

            Saber ler os sinais da terra, das árvores, das chuvas, do fogo e dos bichos nos faz entender que o macaco está cantando e tocando na festa da onça. “Amigo barroão, o dia está amanhecendo, a lama está caindo e o cabelo aparecendo, tingo lingo, cuidado nela.” Tempo de alertas!

Por mais que se tente, não é possível dimensionar ou descrever as nossas relações cosmológicas, que se materializam e se evaporam pelo mundo, expandindo o brilho da voz da sabedoria ancestral do povo quilombola e do povo indígena e de todas as vidas compostas, anunciadas através dos muitos plantadores de palavras e sentidos, em um entrançamento confluindo com o fogo, a água, o ar e a terra. O povo que sabe “costurar com as vidas” nos une e entrança o mundo das muitas proteções.

 Nós nos movemos pelas memórias de referências ancestrais e, nisso, estamos vivendo atualmente um tempo que nenhuma outra geração dos nossos viveram. Estamos vivendo e aprendendo tudo ao mesmo tempo, por isso a existência dos atritos em vez de conflitos, disputamos pela defesa e não pela competição, para anunciar em vez de apenas denunciar. Segundo as memórias dos antigos, quando a minha bisavó Laurina foi buscar o fruto do buriti nas veredas das terras mumbuca, foi atraída ao voltar por um brilho que reluzia ao olhar do sol. Então, ela pegou um molho do capim-dourado, levou para casa e fez um chapéu. Ela só fez esse chapéu porque conhecia o trançado ancestral feito apenas com seda da palmeira do buriti, reconhecida como uma técnica de entrançamento indígena.

Segundo pesquisa, sementes de capim-dourado pesam de 0,033+-0,0007 mg,[F1]  tem entre 0,89+-0,9 mm[F2]  de comprimento e 0,32 +-0,6[F3]  de largura. Uma semente tão pequena faz brilhar um grande campo. Tudo isso pela confluência do fogo, da água e da terra em que germina. Sem o fogo para quebrar a dormência, ela não consegue nascer; sem a chuva para umedecê-la após a passagem do fogo, ela também não germina. Essa planta nos ensina sobre o saber confluir com elementos tão distintos e tão necessários para fazê-los nascer.

Precisamos continuadamente perguntar: qual é o meu território cosmológico? Qual é o meu proposito existencial? Quais estão sendo as minhas confluências? São perguntas que só responde quem viaja pelas ondas de uma construção ancestral de um mundo orgânico existente. É pela ótica do anúncio – buscamos confluentes – que há pessoas dispostas a defender as vidas de forma compartilhada e, pela resolutividade, juntar aspectos que pesquisas acadêmicas ou outras astúcias humanas não foram suficientes para mostrar o quão ricas, belas e desafiadoras são as relações cosmológicas.

 Diante do cenário político-eleitoral que estamos vivendo, quais sinais e leituras os bichos, a terra, as árvores, o fogo e as chuvas têm a nos dizer? Temos que lembrar que períodos eleitorais divididos em anos não contam e não condizem com a contagem dos nossos tempos. Esse descompasso recai e deprecia o que entendemos como tempo, e até tenta nos fazer pensar que a nossa maneira de contar o tempo é dividindo-o, e que os partidos são uma de nossas formas de nos organizarmos politicamente. A conjuntura é mais complexa do que se pensa. É daqueles que só sabem falar pelos dedos aquilo que não vivem em seus frios escritórios.

A fé e a política são armas que podem literalmente mover montanhas e até destruir um país inteiro (é o que estamos vivendo). Em razão disso, não dá para negligenciar esse aspecto tão importante da vida das pessoas. Não é possível falar de coisas complexas como consciência de classe, mais-valia e exploração da classe trabalhadora sem antes respeitar o entendimento básico que as pessoas têm sobre a realidade. Não dá para fazer uma política bem-sucedida afrontando o que as pessoas acreditam e no sentem como verdadeiro em suas vidas. Ao mesmo tempo, não podemos permitir que a fé de determinado grupo esteja acima de tudo e de todos e dentro de um Estado que deveria ser laico e não leigo. Paradoxos a serem interpretados de forma coerente, e sob a ótica dos que pensam do chão.

Não há candidaturas que pautem exatamente o que eu acredito e defendo politicamente. Só tenho a alternativa de me abster de participar do processo político ou votar no que é urgente. E o urgente no momento não é só expulsar Bolsonaro do Palácio do Planalto, mandar os militares de volta para o quartel e os pastores para as igrejas... É ingênuo acreditar que só precisamos derrotar Bolsonaro nas urnas e o estado de barbárie, o fascismo, racismo etc.

Votar no Lula é reconhecer que ele é o melhor negociador e amortecimento do sistema colonialista.

Sou uma semente pequena, e em guerra faço festa. Do fogo sou a chama. Desfruto do poder da chama que não perde nada ao acender outra. Sejamos chamas e vamos acender cosmologicamente o sentido de viver. Estamos em alerta e preparados para garantir que nada ofusque a existência das muitas vidas: água, fogo, ar, território, indígena, quilombo e todas as vidas que confluem pela verdade de uma existência em plenitude.


Ana Mumbuca  Quilombola nasceu no Tocantins, no quilombo Mumbuca, na região do Jalapão. Raíz das mulheres Jacinta, Guardina, Laurinda, Laurentina e Almerinda. Plantadora  de coisas boas, por ancestralidade. O saber fazer arte com as mãos. Graduou-se em Serviço Social. Obteve o título de Mestre em Desenvolvimento Sustentável,  pela UnB e Doutoranda em Direitos Humanos e Cidadania - UnB.