O Brasil ainda não está em uma encruzilhada: o que Exu nos ensina sobre política

Luiz Rufino


As histórias que guardam a memória do tempo contam que Exu é aquele que precede todo e qualquer acontecimento. Exu existe antes mesmo da vontade de criar, sua fome não cessa, faz graça com tudo e corre os cantos da existência convocando a vida a se impor. Exu não somente atravessou o Atlântico, mas também nos atravessa revelando quão potente somos e faz isso gargalhando da nossa precariedade. Entre seus infinitos feitos, os antigos contam que ele parou o tempo para expor as injustiças dos humanos, aprisionou o mentiroso em suas lorotas, cortou a cabeça do rei que julgava ser o único detentor do poder e sustentou a vida daqueles que deram de comer à encruzilhada. Aliás, é esse último ponto que quero fiar com vocês, a encruzilhada como política.


O Brasil não está em uma encruzilhada. Me desculpem, mas quem pensa a encruzilhada como uma espécie de “sinuca de bico” ou “beco sem saída” não é sensível às textualidades da rua e de seus praticantes. O Brasil há 522 anos está sob os efeitos do terror colonial. Por aqui, o olho-grande da dominação aquebrantou as mais diferentes formas de vida. Essa toada explora, vende, lucra e multiplica os ativos da empresa de desencante aqui instalada. Uma arquitetura que violenta, poluí e derruba florestas para grilar existências e pavimentar avenidas a fim de passar aqueles que padecem de obsessões cartesianas. Súditos de um rei sem cabeça, autointitulados “homens de bem”, almas escassas de poesia arranjadas em corpos incapazes de dobrar uma esquina.


A encruzilhada, ao contrário do que dizem, é o tempo/espaço em que se faz política cotidiana, porque é o signo que compreende as ações, relações, diálogos, incompletudes, conflitos, ambivalências, contradições, possibilidades, transformações e, principalmente, responsabilidade. A encruzilhada não é somente a morada de Exu, ela é mais, é o seu próprio corpo que se entrelaça a tudo o que é vivo, seja gente, bicho, palavra ou movimento. Exu é uma disponibilidade filosófica necessária para pensar política, conhecimento e ética. A encruzilhada como conceito parido por Exu é emergencial para pensar o Brasil assolado pelo quebranto colonial e a sanha militarizada, escravocrata e catequética dos “homens de bem” destituídos do principal atributo de quem vai a encruza: ser responsável.


Exu fundamenta toda e qualquer possibilidade de diálogo, por isso instaura o conflito, mas não aquele que se faz para dominar, e sim o caos como princípio da diversidade, das relações e da nossa capacidade de responder aos outros de forma responsável. Ora, minha gente, se isso não é política, o que é então? Tenho apostado que as tentativas de contenção, interdição e censura das potências de Exu – seja o demonizando ou estigmatizando quem faz bom uso da palavra e gosta de tomar uma cachacinha – são as principais artimanhas do modo autoritário que por aqui insiste apontar suas armas. Exu e a encruzilhada, por serem radicais dialógicos, atazanam os desejos daqueles que se querem total. Aliás, todo mundo já sabe que aquele que se quer de pé a qualquer custo, mesmo que no grito, de fato já não se levanta há tempos.


As mais velhas dessas bandas, as sábias que contam histórias e dão de comer as encruzas, dizem que Exu faz o erro virar acerto, afinal sempre haverá caminho para aqueles que sabem ir à encruzilhada. Em um Brasil desencantado pela obsessão dos caminhos retos, castradores, autoritários, escassos de poesia, beleza, corpo e vigor nos cabe aprender com Exu sobre política. Exu enquanto radical político é imprescindível para o Brasil, pois não é santo, mas sim orixá. Sendo orixá, princípio explicativo de mundo e de suas coisas, nos lança na condição imperativa de responder ao outro com nossas próprias vidas, ser/sermos diálogo, relação e transformação.