Fábrica de Hiperstição

“Não posso deixar vocês crescerem em um mundo tão corrompido pelo mal sem ao menos defende-las e a outras crianças como vocês” – disse ao volante, numa autogravação de celular para as filhas, Edgar Welch, em 04 de dezembro de 2016.[1] Welch cruzou os mais de 560 quilômetros de sua casa em Salisbury, na Carolina do Norte, até Washington D.C., com o objetivo de resgatar supostas crianças – vítimas de abusos sexuais e rituais satânicos – que seriam mantidas em cativeiro no subterrâneo da pizzaria Comet Ping Pong por uma rede chefiada por Hilary Clinton e pessoas poderosas ligadas ao Partido Democrata. Depois de invadir a pizzaria armado com um fuzil de assalto e disparar três vezes, Welch se rendeu às autoridades. Mesmo não encontrando sinais das crianças no restaurante, apenas concedeu que a informação sobre a localização das crianças não foi totalmente acurada. Quando questionado sobre como obteve essa informação, disse que “através do boca-a-boca”, mas que, ao pesquisar na internet, supostas “provas substanciais de uma combinação de fontes o haviam deixado com a ‘impressão de que algo nefasto estava acontecendo’. [...] um artigo sobre o assunto o levou a outro e depois a outro”. Nesta mesma entrevista – realizada pelo The New York Times – Welch afirmou não gostar do termo fake news, pois se destinava a “diminuir as histórias fora da grande mídia”. Por fim, apesar de ser republicano, alegou não ter votado em Trump – mas que estava “orando para que o Sr. Trump leve o país na direção certa”.[2]

Para entender como essas informações circularam, temos que retornar a outubro/novembro de 2016 – quando a WikiLeaks tornou públicos e-mails hackeados do chefe da campanha de Hillary Clinton, John Podesta. Embora não houvesse nada explicitamente incriminador nas centenas de e-mails divulgados, não levou muito tempo até que o uso de palavras ordinárias como “pizza”, “cheese”, “pasta” etc. fosse ligado ao uso dado a elas por comunidades de pedofilia na dark web (“cheese pizza” = child pornography; “pasta” = boy; “cheese” = child etc.). O que tornou isso possível? Uma teoria da conspiração que, até onde se sabe, teve origem no 4Chan; ganhou tração pelo Twitter e Facebook através de contas falsas; foi publicada em uma página de “notícias alternativas” por Sean Adl-Tabatabai com a chamada “FBI Insider: Clinton Emails Linked to Political Pedophile Sex Ring”;[3] e que então foi replicada por blogs e outros canais trumpistas de notícias alternativas (uma das notícias produzidas a partir da versão de Sean Adl-Tabatabai – com a chamada “IT’S OVER: NYDP Just Raided Hillary’s Property! What They Found Will RUIN HER LIFE” – gerou, sozinha, mais de 107 mil compartilhamentos e reações no Facebook). Centenas de milhares de interações foram produzidas por uma rede digital que envolveu mídias sociais, blogs e canais de notícias – e que operaram não somente replicando a narrativa, mas também acrescentando a ela sempre novos elementos.[4] Note-se que a narrativa já tinha “forma” mesmo antes do vazamento dos e-mails de John Podesta – e que o vazamento, por fim, a propulsionou na fase mais crítica das eleições. Os esforços da mídia tradicional para desacreditar a teoria conspiratória surtiram o efeito oposto: Twitter, Facebook, Instagram e o YouTube foram inundados por “leituras críticas” dos artigos de descrédito publicados por jornais como o The New York Times – que estariam tentando “abafar a verdade”.[5]

O Pizzagate, como hoje se sabe, foi um balão de ensaio para o QAnon. Em 2017, ano seguinte às eleições nos EUA, um usuário anônimo no 4chan – conhecido apenas pela letra Q – começou a divulgar “informações sigilosas” supostamente adquiridas desde dentro da administração Trump. Q alegava ter “Q Clearance”, o que garantiria o acesso a tais informações secretas (e daí a escolha da letra) – e que passaram a ser reveladas em postagens que se tornaram conhecidas como “Qdrops”. “Anon”, por sua vez, designa qualquer usuário anônimo em fóruns como o 4chan ou o 8chan/8kun (website que abrigou, posteriormente, as postagens de Q). A escatologia construída pelos Qdrops previa a existência de uma rede satanista global de pedofilia, tráfico de órgãos e de crianças, composta por uma elite política, financeira e cultural, e que teria operado impunemente na gestão Obama; Trump emergia, assim, como alguém que lutava contra o deep state (suposta rede secreta de poder que operaria como um governo clandestino engessando/dirigindo e até mesmo coibindo as ações do governo eleito) para expor/punir tais elites em um evento de revelação cataclísmico chamado de “the Storm”. Os Qdrops eram publicados como breadcrumbs (literalmente, “migalhas” de informações que conduziriam os leitores “à verdade”) numa estratégia de “future proves past”: eventos correntes eram lidos como provas de antigas postagens.[6] Pouco importa, nesse sentido, que inúmeros Qdrops não tenham se realizado no real, uma vez que o horizonte da revelação (e de sua realização) apontava sempre para o futuro.

O alcance de Q – assim como o do Pizzagate – foi exponenciado pelas mídias sociais. Até que canais como Facebook, YouTube e Twitter anunciassem políticas de combate à propagação de fake news com potencial de produção de violência, os conteúdos conspiratórios circularam livremente pelas plataformas (influenciadores/hermeneutas digitais do QAnon possuíam enormes audiências).[7] Tais medidas, na realidade, chegaram muito tarde: em 06 de janeiro de 2021, o Capitólio foi invadido por algo entre 2000-2500 pessoas – lideradas pelo autodenominado QAnon Shaman Jacob Chansley – que, estimuladas pelo “Save America Rally” de Donald Trump, buscaram interromper a certificação do presidente eleito pelo Congresso.[8] O próprio Trump (mas também membros de sua família, staff e membros da administração) amplificou o alcance de contas ligadas ao QAnon – durante o seu mandato, contabilizou-se 315 interações (retweets/reações) com 168 contas individuais de apoiadores do QAnon, chegando a vinte interações em um único dia –[9] o que revela, para dizer o mínimo, o interesse direto em colher benefícios através de quaisquer eventos que se mostrassem politicamente lucrativos.

No Brasil, o uso massivo das mídias sociais se provou decisivo para a vitória da chapa Bolsonaro-Mourão nas eleições de 2018 – estratégia posta em movimento, hoje se sabe, por uma rede de marketing e desinformação eleitoral (ainda em atividade) autointitulada, segundo relatório recente da polícia federal encaminhado para o STF, “gabinete do ódio” [GdO]:

Identifica-se a atuação de uma estrutura que opera especialmente por meio de um autodenominado “gabinete do ódio”: um grupo que produz conteúdos e/ou promove postagens em redes sociais atacando pessoas (alvos) – os “espantalhos” escolhidos – previamente eleitas pelos integrantes da organização, difundindo-as por múltiplos canais de comunicação, em atuação similar à já descrita outrora pela Polícia Federal, consistente no amplo emprego de vários canais da rede mundial de computadores, especialmente as redes sociais, com eliminação de intermediários, com as seguintes características: a) em “alto volume” e por multicanais, implicando em variedade e grande quantidade de fontes; b) de maneira rápida, contínua e repetitiva, focada na formação de uma primeira impressão duradoura no receptor, a qual gera familiaridade com a informação e, consequentemente, sua aceitação; c) sem compromisso com a verdade; e d) sem compromisso com a consistência do discurso ao longo do tempo (i.e., uma nova difusão pode contrariar absolutamente a anterior sem que isso gere perda de credibilidade do emissor). Observa-se também que, além de promover ataque aos veículos tradicionais de difusão de informação (jornais, rádio, TV etc.) e de estimular a polarização e o acirramento do debate, a organização utiliza essa estrutura para atacar de forma anônima diversas pessoas (antagonistas políticos, ministros do STF, integrantes do próprio governo, dissidentes etc.), tudo com o objetivo de pavimentar o caminho para alcance dos objetivos traçados (ganhos ideológicos, político-partidários e financeiros).[10]


O GdO mimetizou as práticas empregadas por Trump e seu estrategista digital, Steve Bannon, com quem a família Bolsonaro manteve relações estreitas ao longo do seu primeiro mandato. O “Trump dos Trópicos” emergiu na campanha de 2018 como “mito”, suposto outsider anti-establishment (seus apoiadores possuem ouvidos moucos para o fisiologismo de família) capaz de enfrentar, sozinho, a ameaça comunista em um “sistema” corrupto aparelhado pelo PT.  Se o anedótico kit gay e o descrédito das urnas eletrônicas foram pontos fortes da campanha de 2018, após a vitória as atividades do GdO se expandiram: para além dos ataques a personalidades políticas e/ou públicas, houve o “pavão misterioso” (uma tentativa estapafúrdia de se produzir um “Q” brasileiro – e desviar a atenção do escândalo da Vaza Jato),[11] ataques a um suposto “marxismo cultural” das universidades federais brasileiras (nas quais haveria, segundo o então Ministro da Educação Abraham Weintraub, “plantações extensivas de maconha” e “laboratórios de droga”)[12] e uma intensa campanha de desinformação movimentada durante a pandemia de COVID no Brasil.[13] A produção de narrativas digitais e teorias conspiratórias se intensificou tanto que, no início de 2021, um artigo na Foreign Policy já falava em um QAnon brasileiro:


A versão brasileira do QAnon tem um tom marcadamente pró-Bolsonaro. Seus seguidores têm como alvo personalidades populares da mídia como Luciano Huck e Xuxa, com uma multidão de QAnons acusando ambos de promover a pedofilia. Também são considerados malignos os partidos políticos de esquerda, antigos líderes do Congresso Nacional do Brasil e juízes da Suprema Corte. Dito de forma simples, os opositores de Bolsonaro são declarados inimigos do QAnon. Em contraste, o presidente e seu comparsa, o Ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo, são alçados a cruzados nacionalistas, travando uma batalha contra tudo, desde crimes sexuais infantis e corrupção das elites até supostas conspirações de vacinação e a propagação do marxismo. A admiração de Bolsonaro pelo desmoralizado ex-presidente americano Donald Trump – suposta fonte do QAnon – só consolidou o apoio do movimento ao líder brasileiro e suas várias causas. [14]

 

Com a proximidade das eleições presidenciais de 2022, há um forte motivo para a preocupação, uma hipótese e dois aspectos deste fenômeno que eu gostaria de explorar. O motivo da preocupação é evidente: crenças (não importa se falsas ou verdadeiras) constituem princípios de ação (resultaram, no limite individual, na invasão da pizzaria Comet Ping Pong por David Welch; coletivamente, produzem consequências bem mais desastrosas: não se trata somente da eleição de representantes da alt right contemporânea, mas da possibilidade de eventos de violência de massa como a invasão do Capitólio – e que lança maus auspícios para um resultado eleitoral que não seja favorável a Bolsonaro neste ano). A hipótese é a de que o conglomerado contemporâneo de tecnologias digitais tornou possível a emergência de um sistema autopoiético cuja dinâmica interna alterna entre a produção de uma meta-narrativa e a instanciação desta narrativa em memes; este sistema – e que opera exclusivamente por retroalimentação positiva – não dá sinais de colapso; justamente por isso, parece se adequar bem ao conceito de hiperstição. E, por fim, os dois aspectos – os quais chamarei de tecnopolítica e tecnopoiesis – configuram tentativas de compreender como tais tecnologias, por um lado, atualizam os horizontes socioeconômicos da qual emergem; e, por outro, programam nossas formas de pensar/perceber.  

* * *

Em entrevista de 2009 para Delphi Carstens, Nick Land define a hiperstição do seguinte modo:

A hiperstição é um circuito de retroalimentação positiva que inclui a cultura como um componente. Ela pode ser definida como a (tecno-)ciência experimental das profecias autorrealizáveis. Superstições são meramente falsas crenças, mas as hiperstições – através de sua própria existência como ideias – funcionam causalmente para produzirem sua própria realidade. A economia capitalista é extremamente sensível à hiperstição, em que a confiança atua como um tônico eficaz e vice-versa. A ideia (fictícia) do Ciberespaço contribuiu para o influxo de investimentos que rapidamente o converteram em uma realidade tecno-social. [15]

 O conceito surge no âmbito da CCRU (Cybernetic Culture Research Unit – grupo para-acadêmico fundado por Nick Land e Sadie Plant e que esteve em atividade entre 1995-2003) da junção das palavras [hyper] + [superstition] – e remete a circuitos de “ficções que se fazem reais”.[16] “Hiperstições”, diz a CCRU em outra passagem, “não são representações, nem desinformação ou mitologia”. [17] O próprio real, para a CCRU, não se opõe ao ficcional – antes, trata-se do horizonte de realização/atualização (para usar uma expressão de Deleuze) do virtual/de múltiplas possibilidades ficcionais: “a realidade é compreendida como sendo composta por ficções – terrenos semióticos consistentes que condicionam respostas perceptivas, afetivas e comportamentais”.[18] O conceito é útil para problematizar a relação entre as tecnologias digitais e aquilo que ordinariamente tem sido chamado de fake news/pós-verdade no horizonte político do capitalismo tardio. Se, conforme propõem Nick Land e a CCRU, a economia capitalista mostra-se extremamente “sensível” à hiperstição, há um horizonte de condensação/concentração que torna a fabricação de hiperstições função de uma atividade (para seguir com Niklas Luhmann) autopoiética no interior de um sistema de tecnologias. Na medida em que tal conglomerado torna possível a. a autonomia do sistema e b. o processo de retroalimentação que dá origem às narrativas cibernéticas criadas a partir das inter-relações entre suas “unidades tecnológicas” de produção (Twitter; Instagram; WhatsApp; Youtube; Telegram etc.), eu proponho chamá-lo de “fábrica de hiperstição”.

Em palestra proferida na mesa “Negacionismos” do evento Crise da História, Assombros da Memória – realizada virtualmente em setembro de 2021 pela UFT – João César Castro Rocha aventou uma hipótese:[19] a de que o circuito de canais integrados da extrema direita bolsonarista tratar-se-ia de um circuito exclusivo de retroalimentação positiva. A partir de uma leitura de Bateson, João César concluiu que, para haver equilíbrio homeostático em um sistema, a retroalimentação negativa também deve importar – sem a qual ele entraria em colapso. De forma otimista – e diante dos apocalípticos resultados do negacionismo científico emplacado por Bolsonaro e suas redes durante a pandemia de COVID no Brasil – o diagnóstico que traçou foi o de colapso do sistema (e do fim de uma dissonância cognitiva que, em última instância, produziu a morte de milhares de pessoas). Infelizmente, acho que o diagnóstico estava errado – ao menos é o que sugerem os dados. Por exemplo, em relação ao QAnon, mesmo após o FBI tê-lo incluído – em um documento de 2019 – em uma lista de teorias conspiratórias consideradas ameaças potenciais de terrorismo doméstico;[20] mesmo após seu (tardio) banimento das redes sociais;[21] e mesmo após as consequências que se seguiram à invasão do Capitólio e derrota de Trump em 2021,[22] a base de “fiéis” cresceu: de acordo com uma pesquisa do Public Religion Research Institute, de 14% da população estadunidense em março de 2021 para 17% em setembro do mesmo ano.[23] No Brasil, o inquérito das fake news – aberto em 2019 – ainda não foi julgado pelo STF,[24] e o TSE, apesar de ter reconhecido a ocorrência de disparos em massa da chapa Bolsonaro-Mourão nas eleições de 2018, julgou duas ações de investigação judicial eleitoral da chapa improcedentes.[25] Enquanto pouco se fez para conter o avanço das campanhas digitais de desinformação, a influência digital do bolsonarismo cresce em força nas redes sociais: a audiência de Bolsonaro no TikTok, por exemplo, supera hoje os 2 milhões de seguidores (em abril já era, reportadamente, ao menos 13 vezes maior que a de Lula no mesmo aplicativo – chegando a bilhões de visualizações);[26] e, no Twitter, o presidente já conta com mais de 8 milhões de seguidores. A notícia da potencial compra do Twitter pelo apoiador de golpes nas Américas Elon Musk foi entendida pelos bolsonaristas, aliás, como uma vitória da liberdade de expressão: o que, seja em Trump ou Bolsonaro, trata-se de um código para a manutenção de circuitos favoráveis de – já podemos dizê-lo – hiperstição.

A pergunta que devemos encarar é: por que, mesmo com mais de 600 mil mortos, resultado de um fracasso assombroso no combate à pandemia de COVID; com o retorno da inflação e da fome (segundo levantamento do II VIGISAN, mais de 33 milhões de pessoas se encontram em situação de fome no país);[27] com os aumentos quase semanais no preço dos combustíveis e gás de cozinha; com a inação do MEC diante do colapso absoluto da ciência e da pesquisa; em suma, do fracasso da administração pública em todos os níveis – a popularidade digital de Bolsonaro não dá sinais de arrefecimento? O que garante esta “blindagem” das narrativas bolsonaristas frente ao fracasso acachapante de sua gestão?  Por que, afinal, uma quebra no suposto equilíbrio homeostático do sistema (como pressupunha a hipótese de João César) não conduz ao seu colapso?

Gostaria de arriscar, a partir de Nick Land, a seguinte hipótese: as redes digitais bolsonaristas constituem um circuito de hiperstição; o circuito opera como um sistema de retroalimentação positiva, como bem sugeriu João César, mas com a especificidade de que, neste tipo de sistema, não há um princípio de realidade que garanta algo como um double bind batesoniano: o sistema se perpetua integrando as contradições – continuamente – na meta-narrativa que propõe. Contrário à cibernética de Norbert Wiener – e que pressupõe que processos de retroalimentação positiva, se não controlados, levam à destruição do próprio sistema – Land afirma que “a retroalimentação positiva de longo-alcance não é nem homeostática, nem amplificadora, mas escalativa. Onde modelos cibernéticos modernistas de retroalimentação negativa e positiva são integrados, a escalada é integradora ou ciberemergente”. [28]

Mads Rosenthal Thomsen formulou essa ideia da Literatura Mundial (cuja origem conceitual está em Goethe) como um sistema que opera por retroalimentação positiva, na medida em que constelações de obras atraem outros textos com características similares para sua órbita: “os cânones internacionais consistem em várias constelações de obras que compartilham propriedades de caráter formal e temático, em que obras canonizadas podem chamar a atenção para obras menos canonizadas, mas afiliadas, e atraí-las para a cena da literatura mundial”.[29] Suspeito que o mesmo ocorra com as narrativas criadas por um sistema de hiperstição – a retroalimentação positiva funciona como um exercício de improv (em que os atores são sempre estimulados a avançarem com as improvisações dos colegas), e as variáveis tornam-se (não importa quão aparentemente contraditórias) funções causais no presente. A meta-narrativa é, neste sentido, apenas a forma de fundo – e que vai se ampliando (ela é, lembremo-nos – escalativa) – da hiperstição. A sua outra forma (o seu instantâneo) é o meme.

Em tweet de 2019, Eduardo Bolsonaro compartilhou um vídeo publicado originalmente em maio de 2018 pelo canal de YouTube Brasileirinhos, intitulado “esporro do palhaço”.[30] Na edição do vídeo, um sujeito com o rosto pintado e um nariz de palhaço diz:

[...] mermão, não é nem para bater nesses caras. Se depender de mim, não toca num fio de cabelo dos barbudinhos. Deixa nego gritar, chamar de fascista. [...] Os cara viraram feminista, comunista, essas porras, por que não tiveram a devida atencao em casa. [...] O que nós devemos fazer agora? Memes. Farmeme. Zoa. Os caras saem na rua, vocês vão lá zoar os caras pra caralho. [...] Zoa até esses caras terem vergonha de ser do PSOL, “eu sou do PSOL!!” mas ficar escondido. Até a foice e o martelo virarem um símbolo macabro que nem a suástica.

 

Print de tweet de Eduardo Bolsonaro. Fonte: https://twitter.com/bolsonarosp/status/1178634938809233413

 

Em outro tweet de 2019, Eduardo Bolsonaro diz: “será que sou um criminoso por esse humor político? Nunca imaginei que fosse falar isso, mas: seja resistência, faça memes!”.[31] Para entendermos a diretiva, é preciso recuar. Em 2015, o termo “meme magic” difundiu-se pelo então 8chan a partir da criação de dois sub-fóruns – /bmw/ (Bureau of Memetic Warfare) e /magick/. O termo refere-se à capacidade dos memes de produzir consequências reais para o mundo – retroativamente, os fóruns buscavam resgatar memes que teriam antecipado eventos no mundo real (trata-se da mesma lógica future proves past do QAnon).  


 

Imagem à esquerda: Kek Frog, associada ao poder dos memes de se cumprirem no mundo real; à direita, tweet de Donald Trump de outubro de 2015.

 

Em 2016, a postagem número 77777777 no sub-fórum /pol/ do 4chan – “Trump will win” – fez com que a comunidade de anônimos iniciasse uma campanha massiva online para eleger Trump. Como isso se realizaria? Através de um chamado para a “meme war”: a produção e distribuição de memes deveria se projetar para além do 4chan, alcançando e influenciando os “normies” (não usuários).[32] Um tweet de Trump de 2015 foi resgatado pela comunidade que, a partir de então, passou a associar a imagem de Pepe the frog (meme que já circulava no 4chan ao menos desde 2008 – e que a esta altura já era símbolo do trumpismo e de ideias ultra-conservadoras) e Kek – palavra que se origina de uma onomatopeia coreana difundida no jogo World of Warcraft equivalente ao LOL (Laughing Out Loud) – e que, no fórum /pol/, rapidamente foi associado ao nome de um deus-sapo egípcio. Pepe então tornou-se a imagem de um avatar do deus Kek, e ganhou um culto próprio na comunidade.[33]


Fonte: < https://theconversation.com/how-an-ancient-egyptian-god-spurred-the-rise-of-trump-72598 >

 

A #Farmeme incentivada por Eduardo Bolsonaro, assim, trata-se de fenômeno homólogo ao que se movimentou durante a campanha e administração Trump, e, ao que tudo indica, chegou ao centro da cena política brasileira pela conexão Olavo de Carvalho x Steve Banon.[34] Os memes – tanto aqui quanto lá – executam esta dupla função: por um lado, movimentam-se rapidamente nas comunidades digitais, abastecendo com fluxo inigualável um circuito tecnológico útil à extrema direita (Márcia Tiburi tem chamado de “tokens” as pessoas/símbolos vitimizadas pelos memes em campanhas digitais de difamação); por outro lado, cumprem com a função de atualizar com “instantâneos” a meta-narrativa hipersticional. O movimento de retroalimentação – como a Wechselspiel do primeiro romantismo alemão – trata-se do jogo entre o absoluto/a narrativa de fundo – e o fragmento – memético.[35] O sistema codifica a opinião pública em algoritmo (likes + shares + filter bubbles + echo chambers): a radicalização (Alt-Lite Intellectual Dark Web Alt-Right) por exposição é o seu resultado individual; o coletivo, a produção do neofascismo.[36] 

 

* * *

 

Em  Gramofone, Filme, Typewriter , Friedrich Kittler sugere que Hitler é tão inseparável do rádio quanto Kennedy é da televisão. [37]  Dominantes em eras distintas, o rádio e a televisão formataram a política para ser, respectivamente, radiogênica e telegênica. Neste ensaio, tentei argumentar que a guinada à direita que levou à presidência Trump nos EUA e Bolsonaro no Brasil não se faz compreender sem a atividade de um sistema autopoiético de hiperstição – e que se produz pelas inter-relações de um conglomerado de tecnologias digitais ao qual dei o nome de “fábrica de hiperstição”. Gostaria de discutir, por fim, alguns conceitos que, assim espero, permitirão vislumbrar funções complementares do modo de existência deste objeto. 

 

Os conceitos de tecnopolítica e tecnopoiesis resultaram de uma tentativa de compreender como o conceito de “materialidade” – no horizonte teórico das materialidades da comunicação –, ainda que respondesse à obra de Marx, havia sido despido de seu aspecto político. O resultado desta investigação foi o entendimento de que o materialismo em Marx admite, por um lado, uma tecnopolítica – o que, bem sinteticamente, diz respeito a como os dispositivos disponíveis em qualquer janela histórica reportam imediatamente às relações de produção da qual emergiram; na realidade, tais dispositivos seriam a sua formacondensada. A tecnopolítica designaria, portanto, os limites sociais da produção de dispositivos, na medida em que estes são expressões da forma social dentro/a partir da qual foram produzidos.  Por “dispositivos/aparatos” quero designar, como o faz Agamben ao expandir o conceito foucaultiano, literalmente “qualquer coisa que tenha de algum modo a capacidade de capturar, orientar, determinar, interceptar, modelar, controlar e assegurar os gestos, as condutas, as opiniões e os discursos dos seres viventes”. [38]  Por outro lado, o mesmo materialismo admite, como sua contraface, uma tecnopoiesis – e que diz respeito aos modos como os dispositivos conformam nossos sentidos/formas de percepção, designando, portanto, os modos de programação de tais dispositivos. Isso significa – como argumenta Friedrich Kittler em  Gramofone, Filme, Typewriter  – que os dispositivos estão constantemente/e historicamente programando a percepção humana. Na verdade, eles são, em si mesmos – para nós, suas  superfícies de inscrição  –, a materialização de todas as formas possíveis da experiência disponíveis para uma dada janela histórica. Evidentemente, isso torna a política uma parte imanente da estética: pois se a percepção é fabricada, os dispositivos então materializam a  disputa política  pela percepção.

O entendimento de que as tecnologias são instrumentos de programação dos corpos nos coloca em posição de perguntar quais forças políticas relevantes são postas em movimento por essas mesmas tecnologias. O conceito de ambiência [Stimmung], nesse sentido, torna-se instrumental: pois responde às sensações provocadas pela interação física entre o corpo e os dispositivos tecnológicos.[39] Tais sensações jamais podem ser produzidas ou compreendidas separadamente dos componentes materiais que as “disparam”, e que remetem, portanto, ao atrito entre circuitos de input/output, cujo resultado é a produção de respostas fisiológicas (da percepção à resposta motora). Essas respostas possuem um duplo aspecto: pois que se materializam, por um lado, em reações individuais (como é o caso do Pizzagate); mas também possuem suas manifestações coletivas (QAnon; GdO). Intensidade e êxtase – conceitos abordados no livro Vida da Literatura[40] podem ser, nesse sentido, pensados como funções internas à dinâmica da ambiência. A intensidade, como sugere o teórico da literatura Hans Ulrich Gumbrecht, trata do aspecto individual; o êxtase, ao contrário, diz respeito a “uma situação em que a intensidade pode nos conduzir, parece pressupor, implicar e produzir uma dimensão social”.[41] Ambos (intensidade/êxtase) – o insight é de Flora Süssekind – podem também ser forças negativas.[42] Tais conceitos, quero crer, possibilitam avançar com a análise de fenômenos sociais como o fascismo/neofascismo como tipos ou formas de respostas da massa à tecnopoiesis do capital (na direção de Elias Canetti em Massa e Poder e do ensaio de Walter Benjamin sobre a reprodutibilidade técnica).[43] O corpo humano – e, concretamente, todo o comportamento humano – torna-se, neste horizonte, médium/função para expressão/materialização de um “pensamento” das tecnologias: do neoliberalismo às mídias sociais.

 



[1] Cf. MILLER, Michael E. “Pizzagate’s violent legacy”. The Washington Post, 2021. Disponível em: < https://www.washingtonpost.com/dc-md-va/2021/02/16/pizzagate-qanon-capitol-attack/ >

[2] Cf. GOLDMAN, Adam. “The Comet Ping Pong Gunman Answers Our Reporter’s Questions”. The New York Times, 2016. Disponível em: < https://www.nytimes.com/2016/12/07/us/edgar-welch-comet-pizza-fake-news.html >

 

[3] A página, YourNewsWire.com, de acordo com o proprietário, Sean Adl-Tabatabai, trata-se de um website que veicula notícias “alternativas” (na prática, opera como um difusor de fake news para a alt-right). Cf. GODWIN, Richard. “Sean Adl-Tabatabai on being in the eye of the ‘fake news’ storm”. Evening Standard, 2017. Disponível em: < https://www.standard.co.uk/lifestyle/london-life/sean-adltabatabai-on-being-in-the-eye-of-the-fake-news-storm-a3468361.html >

[4] Cf. SILVERMAN, Craig. “How The Bizarre Conspiracy Theory Behind ‘Pizzagate’ Was Spread”. Buzzfeed, 2016. Disponível em: < https://www.buzzfeed.com/craigsilverman/fever-swamp-election >

[5] Cf. KANG, Cecilia; GOLDMAN, Adam. “In Washington Pizzeria Attack, Fake News Brought Real Guns”. The New York Times, 2016. Disponível em:  < https://www.nytimes.com/2016/12/05/business/media/comet-ping-pong-pizza-shooting-fake-news-consequences.html >

[6] Cf. HANNAH, Matthew. QAnon and the information dark age.  First Monday , 26(2). Disponível em: < https://firstmonday.org/ojs/index.php/fm/article/view/10868 >

[7] O Youtube – reduto de produtores de conteúdos em vídeo para a alt right – foi um dos últimos a tomar medidas contra a veiculação de conteúdos de ódio/incitadores de violência. Cf. DWOSKIN, Elizabeth; STANLEY-BECKER, Isaac. “YouTube joins Silicon Valley peers in preelection QAnon clampdown”. The Washington Post, 2020. Disponível em: < https://www.washingtonpost.com/technology/2020/10/15/youtube-qanon-crackdown >

[8] Cf. JACOBO, Julia. “This is what Trump told supporters before many stormed Capitol hill”. ABC News, 2021. Disponível em: < https://abcnews.go.com/Politics/trump-told-supporters-stormed-capitol-hill/story?id=75110558 >. O movimento “stop the steal” foi apoiado, como se sabe, pelo próprio Trump. Para uma timeline, cf. ATLANTIC Council’s DFRLab. “#StopTheSteal: Timeline of Social Media and Extremist Activities Leading to 1/6 Insurrection”. Just Security, 2021. Disponível em: < https://www.justsecurity.org/74622/stopthesteal-timeline-of-social-media-and-extremist-activities-leading-to-1-6-insurrection/ >

[9] Cf. KAPLAN, Alex. “Trump has repeatedly amplified QAnon Twitter accounts. The FBI has linked the conspiracy theory to domestic terror”. Media Matters for America, 2019. Disponível em: < https://www.mediamatters.org/twitter/fbi-calls-qanon-domestic-terror-threat-trump-has-amplified-qanon-supporters-twitter-more-20 >

[10] Cf. pp.1-2 do relatório do inquérito policial n.2021.0052061 (INQ STF n4874-DF), assinado pela delegada da PF Denisse Ribeiro, disponível em: OLIVEIRA, Caroline. “PF confirma a existência do ‘gabinete do ódio’ em relatório enviado ao STF; leia o documento”. Brasil de Fato, 2022. Disponível em: < https://www.brasildefato.com.br/2022/02/11/pf-confirma-a-existencia-de-gabinete-do-odio-em-relatorio-enviado-ao-stf-leia-o-documento >

[11] O pavão misterioso se tornou também um meme – Cf. “Pavão Misterioso” no Museu de Memes, disponível em: < https://museudememes.com.br/collection/pavao-misterioso >

[12] Cf. RODRIGUES, Mateus. “Convocado pela Câmara, Weintraub reafirma que há produção de drogas em universidades federais”. G1, 2019. Disponível em: < https://g1.globo.com/educacao/noticia/2019/12/11/weintraub-reafirma-existencia-de-plantacoes-de-maconha-e-laboratorios-de-droga-nas-universidades-federais-em-comissao-na-camara.ghtml >; FILHO, João. “Por dentro da paranoia olavista do novo ministro da Educação, Abraham Weintraub”. The Intercept Brasil, 2019. Disponível em: < https://theintercept.com/2019/04/14/mec-olavo-weintraub-educacao-comunismo/ >

[13] Cf. REBELLO, Aiuri. “‘QAnon brasileiro’ segue firme nas redes e se mostra alinhado a movimento de teorias conspiratórias dos EUA”. Disponível em: < https://brasil.elpais.com/brasil/2021-02-13/qanon-brasileiro-segue-firme-nas-redes-e-se-mostra-alinhado-a-movimento-de-teorias-conspiratorias-dos-eua.html >

[14] MUGGAH, Robert. “In Brazil, QAnon Has a Distinctly Bolsonaro Flavor”. Foreign Policy, 2021. Disponível em: < https://foreignpolicy.com/2021/02/10/brazil-qanon-bolsonaro-online-internet-conspiracy-theories-anti-vaccination/ >

[15] LAND, Nick. “Hyperstition: An Introduction. Delphi Carstens Interviews Nick Land”. Orphan Drift, 2009. Disponível em: < http://www.orphandriftarchive.com/neo-future/delphi-carstens-hyperstition-tedx/ >

[16] CCRU. CCRU Writings 1997-2003. Time Spiral Press, 2015, p.25.

[17] CCRU. CCRU Writings 1997-2003. Time Spiral Press, 2015, p.164.

[18] CCRU. CCRU Writings 1997-2003. Time Spiral Press, 2015, p.25.

[19] A palestra está disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=IQwHuXpgnlQ >

[20] Cf. WINTER, Jana. “Exclusive: FBI document warns conspiracy theories are a new domestic terrorism threat”. Yahoo! News, 2019. Disponível em: < https://news.yahoo.com/fbi-documents-conspiracy-theories-terrorism-160000507.html >

[21] Cf. GREENSPAN, Rachel E. “QAnon spreads like wildfire on social media. Here’s how 16 tech companies have reacted to the conspiracy theory”. Business Insider, 2021. Disponível em: < https://www.businessinsider.com/how-every-tech-company-social-media-platform-handling-qanon-2020-10#triller-said-it-would-ban-qanon-after-it-defended-the-conspiracy-theorys-presence-on-the-app-5 >

[22] Até dezembro de 2021, mais de 725 pessoas envolvidas no evento da invasão foram presas. Cf. U.S. Department of Justice. “One Year Since the Jan.6 Attack on the Capitol”. Disponível em: < https://www.justice.gov/usao-dc/one-year-jan-6-attack-capitol >

[23] A pesquisa levou em consideração a resposta dos entrevistados (mensurada em graus de concordância) em relação a três crenças fundamentais do QAnon: “1. The government, media, and financial worlds in the U.S. are controlled by a group of Satan-worshipping pedophiles who run a global child sex-trafficking operation; 2. There is a storm coming soon that will sweep away the elites in power and restore the rightful leaders; 3. Because things have gotten so far off track, true American patriots may have to resort to violence in order to save our country”. Cf. PPRI Staff. “The Persistence of QAnon in the Post-Trump Era: An Analysis of Who Believes the Conspiracies”. Disponível em: < https://www.prri.org/research/the-persistence-of-qanon-in-the-post-trump-era-an-analysis-of-who-believes-the-conspiracies/ >

[24] O ministro do STF indicado por Bolsonaro, o “terrivelmente evangélico” André Mendonça, sugeriu inclusive o seu arquivamento. Cf. DOCA, Geralda; MUNIZ, Mariana. “Mendonça sugeriu fim de inquérito de fake news para encerrar conflito com STF”. O Globo, 2022. Disponível em:  < https://oglobo.globo.com/politica/mendonca-sugeriu-fim-de-inquerito-de-fake-news-para-encerrar-conflito-com-stf-25494532 >

[25] “Apesar da improcedência das aijes, o colegiado ainda concluiu, por maioria, que houve disparos em massa organizados e executados por milícia digital intitulada ‘gabinete do ódio’, que visou promover a campanha de Jair Bolsonaro em 2018 e atacar seus adversários políticos.” Cf. VITAL, Danilo. “Não há provas da gravidade dos disparos em massa em favor de Bolsonaro, diz TSE”. Consultor Jurídico, 2021. Disponível em: < https://www.conjur.com.br/2021-out-28/tse-forma-maioria-nao-cassar-bolsonaro-disparos-massa >

[26] Cf. TEIXEIRA, Matheus. “Bolsonaro tem 13 vezes mais audiência que Lula no TikTok, diz estudo”. Yahoo! Notícias, 2022. Disponível em: < https://br.noticias.yahoo.com/bolsonaro-tem-13-vezes-mais-211000483.html >

[27] Cf. II Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da COVID-19 no Brasil [livro eletrônico]. II VIGISAN: relatório final/Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar – PENSSAN. São Paulo: Fundação Friedrich Ebert: Rede PENSSAN, 2022. Disponível em: < https://olheparaafome.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Relatorio-II-VIGISAN-2022.pdf >

 

[28] LAND, Nick. “Circuitries” (1992). In: MacKay, R. & Brassier, R. (eds). Fanged Noumena: Collected Writings of Nick Land 1987-2007. Urbanomic, 2011, p.298.

[29] THOMSEN, Mads Rosenthal. Mapping World Literature. International canonization and transnational literatures . New York: Continuum, 2008, p.3.

[32] Cf., a propósito, o esclarecedor livro de Angela Nagle, Kill all Normies, sobre a relação entre guerra cultural, fóruns eletrônicos, mídias sociais e a ascensão de Trump e da direita alternativa: NAGLE, Angela. Kill all Normies: Online Culture Wars from 4Chan and Tumblr to Trump and the Alt-Right. Winchester: Zero Books, 2017.

[34] Cf., a este respeito, artigo recente de Erick Felinto e Richard Grusin: FELINTO, Erick; GRUSIN, Richard. “Gore mediation and the Bromance of Jair Bolsonaro and Donald Trump”. Intermedialités, n.37-38, 2021.

[35] É curiosa também a semelhança que o grupo CCRU – e a forma de produção/apresentação dos seus escritos – guarda com o Primeiro Romantismo Alemão e, marcadamente, a revista Athenaeum.

[36] Cf., por exemplo, pesquisa recente realizada pela UFMG: RIBEIRO, Manoel Horta et. al. “Auditing Radicalization Pathways on Youtube”. Conference on Fairness, Accountability, and Transparency (FAT* ’20), January 27–30, 2020, Barcelona, Spain. ACM, New York, NY, USA. Disponível em: <https://doi.org/10.1145/3351095.3372879>

[37] KITTLER, Friedrich. Gramofone, Filme, Typewriter. Tradução de Daniel Martineschen e Guilherme Gontijo Flores. Belo Horizonte: Editora UFMG; Rio de Janeiro: EdUERJ, 2019, p.24.

[38] AGAMBEN, Giorgio. “O que é um dispositivo”. In: Outra Travessia, n.5, Florianópolis, 2005, p.13.

[39] Cf. GUMBRECHT, Hans Ulrich. Atmosphere, Mood, Stimmung: on a hidden potential of literature. Stanford: Stanford University Press, 2012.

[40] SÜSSEKIND, Flora; FOSCOLO, Guilherme (orgs.). Vida da Literatura. São Paulo: N-1, no prelo.

[41] Cf. o ensaio de Gumbrecht intitulado “A vida da literatura: intuições sobre corpos místicos, bliss e intensidade”, a ser publicado pela N-1 no Vida da Literatura.

[42] Cf. o ensaio “Epifanias Negativas”, de Flora Süssekind, também no Vida da Literatura.

[43] Cf. CANETTI, Elias. Massa e Poder. Traduzido por Sérgio Tellaroli. São Paulo: Companhia das Letras, 1995; BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política (Obras escolhidas, v.1). “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”. iBooks.