Duas guerras?

Ucrânia e Mutação climática

 

Bruno Latour

 

Não creio ser o único que está angustiado, e duplamente angustiado. É o que sinto ao ler ao mesmo tempo as notícias da guerra na Ucrânia e o novo relatório do GIEC sobre a mutação climática[1]. Não consigo escolher entre essas duas tragédias. Inútil tentar contrapor a primeira à segunda, ou mesmo hierarquizá-las, fingindo que uma é mais urgente, a outra mais catastrófica. Ambas me golpeiam de frente ao mesmo tempo.

Elas só têm em comum o fato de serem definitivamente geopolíticas. Ainda que não se trate de ocupar as mesmas terras.

A guerra de Putin se joga no tabuleiro das grandes potências e pretende ocupar uma terra sem qualquer justificativa que não o prazer de um príncipe. À moda antiga, de alguma maneira. Com a diferença de que desde 1945 essas ocupações de terra (que o inglês designa brutalmente como um landgrab) necessitavam uma justificativa, um mandato das Nações Unidas, um disfarce talvez, sim, mas ainda assim um semblante de legalidade.

A outra tragédia não se joga nesse tabuleiro tradicional. Claro que há ocupação de terra, mas é antes a Terra que reforça seu domínio sobre todas as nações. Obvio que há grandes potências, mas cada uma delas invade as outras e despeja sobre elas sua poluição, seu CO2, seus resíduos, de modo que cada uma é a um só tempo invasora e invadida, sem conseguir sustentar seus combates no interior das fronteiras dos Estados-nação. Sobre esse atravessamento de um país sobre os outros, o relatório do GIEC é devastador: as grandes potências ocupam as outras nações, tanto quanto a Rússia tenta destruir a Ucrânia. Sem mísseis ou tanques, é verdade, mas através do curso ordinário de suas economias. As duas tragédias realmente são concomitantes.

Se elas não parecem tocar minhas emoções exatamente do mesmo modo, é porque infelizmente já possuo um repertório de atitudes e afetos para reagir aos horrores da guerra na Ucrânia, mas não tenho (ainda) os mesmos hábitos tristes para reagir às inúmeras destruições das grandes potências em guerra contra as terras que elas invadem – e que no entanto as cercam cada vez mais estreitamente, intensificando seu controle. Todos já viram centenas de filmes de guerra, mas quantos filmes “de clima”?

E é exatamente de guerra que se trata doravante em ambos os casos, nesse sentido preciso, já que não há nenhum princípio superior comum, nenhum árbitro supremo para julgar os conflitos. Já não há mais para conter a Rússia; ainda não há para conter o clima. A decisão só depende do resultado dos conflitos.

Vários jornalistas introduziram a hipótese de que a guerra de Putin marcava o fim de um parênteses que eles chamaram de o novo “entre-duas guerras”. Eis que, sugerem eles, a partir de fevereiro de 2022 acabaria o entre duas guerras, aquela que tinha começado em 1945 com a fundação das Nações Unidas e a ideia de paz. Paz virtual, certamente, projeto que se situava num impasse em vários conflitos, mas que obrigava, ainda assim, os imperialistas a obter da fragilíssima instituição das Nações Unidas um atestado de virtude.

Ora, Putin, presidente de um país fundador dessa venerável instituição, nem tentou obter um mandato para invadir a Ucrânia (cuja existência, aliás, ele nega, o que o autoriza a matar aqueles que estranhamente ele chama de seus irmãos). E a China o apoiou gravemente. Fim desse entre duas guerras que teria durado 77 anos. Se fico aterrorizado é porque tenho 75 anos e porque minha vida se encontra exatamente nesse entre-duas guerras. Esta longa ilusão sobre as condições de paz perpétua... ao lado de toda minha geração, teria eu vivido um sonho?

Três gerações para esquecer o horror da Segunda Guerra mundial (já mal consigo enumerar o encadeamento dos conflitos), talvez não seja tão mal assim, ao final das contas. A anterior, a dos meus pais, só precisou de 22 anos. O efeito da Grande Guerra não tinha sido suficiente.

Mas a outra tragédia não consigo fazê-la entrar no mesmo enquadre temporal. A impressão de paz voou pelos ares para mim desde os anos oitenta, quando os primeiros relatórios indiscutíveis sobre o estado do planeta começaram a ser sistematicamente denegados por aqueles que se tornariam os climato-céticos.

Se eu tivesse que escolher uma data para fixar o limite dessa outra “entre-duas guerras”, 1989 poderia convir. A queda da União Soviética (quando querem explicar a loucura de Putin, dizem que é esse seu drama íntimo!) marca ao mesmo tempo o máximo de ilusões sobre o fim da história e o início dessa outra história, dessa geo-história, desse novo regime climático que, eu tinha certeza, iria somar seus conflitos a todos os outros, sem que eu saiba nem remotamente como desenhar suas linhas do fronte. Essa entre duas guerras teria durado, na verdade, 45 anos.

Será uma lei da história que seja preciso pagar algumas décadas de paz relativa por um conflito tão terrível, de modo que ele force todos os protagonistas a se entenderem, antes que o esquecimento enfraqueça seus efeitos? Mas então, quais conflitos seremos obrigados a suportar antes de podermos ainda uma vez tentar refundar um novo ideal de paz?

Não sei como segurar (tenir) as duas tragédias ao mesmo tempo. Contudo, num certo sentido a tragédia climática, tal como consta no último relatório do GIEC, engloba todas as outras. Num certo sentido, portanto, ela é “mundial”, porém num sentido totalmente diferente do adjetivo com o qual nos habituamos na Europa a enumerar nossas guerras (as dos outros, lá longe, nem sequer enumeramos..). “Planetária” seria um termo melhor.

Ora, aí está o coração de minha angústia – vejo que Putin desfecha o último golpe contra a ordem saída da segunda guerra “mundial”, mas não vejo emergir a ordem que poderia sair da guerra “planetária” relatada pelo GIEC. É aí que devemos confiar no mundo, no planeta, na terra. Acreditar numa outra lei da história, aquela pela qual inevitavelmente – ó como faço questão desse advérbio! – inevitavelmente, os conflitos atuais podem, não, devem desembocar, na preparação da ordem planetária que poderia seguir a ordem mundial, por mais impotente que se a considere, para impedir os tanques russos de ocupar a Ucrânia.

Se eu acreditasse verdadeiramente, não estaria tão angustiado; se não acredito verdadeiramente, não escreveria esse texto. A única coisa da qual estou seguro, absolutamente seguro, é que não se deve de modo algum escolher entre essas duas tragédias.

 

Publicado em 3 de março de 2022 na revista AOC.

 

Tradução Peter Pál Pelbart

 

Bruno Latour é sociólogo, antropólogo, autor de mais de vinte livros, entre eles Jamais fomos modernos e Diante de Gaia.



[1] O GIEC é um grupo de especialistas intergovernamental que avalia a evolução do clima, e cujos relatórios servem de base para as negociações internacionais sobre as mudanças climáticas.