DO FASCISMO FUTURISTA AO GERONTO-FASCISMO

Franco “Bifo” Berardi

Tradução: Damian Kraus e Francisco Freitas

 

 

Faltam algumas semanas para os 100 anos da Marcha sobre Roma dos camisas negras de Benito Mussolini

A menos de 30 dias das eleições na Itália, que podem pela primeira vez pôr no poder uma mulher fascista, o filósofo e militante italiano Franco ‘Bifo’ Berardi analisa o velho e o novo rosto da besta parda

1. cem anos depois

Como num encantamento, às vésperas do centenário da Marcha sobre Roma, a descendência direta de Benito Mussolini se apronta para tomar o poder na Itália.

Tida como certa a vitória da coalizão da direita nas eleições programadas para 25 de setembro, o Fratelli d’Italia pode ser o partido mais votado entre os três que integram a coalizão. Giorgia Meloni, secretária do Fratelli d’Italia, tem grandes chances de se tornar a primeira presidenta do Consiglio na história italiana.

O fascismo aparece em cada canto da cena italiana e também da europeia: no retorno da fúria nacionalista, na exaltação da guerra como única higiene do mundo, na violência antioperária e antissindical, no desprezo pela cultura e pela ciência, na obsessão demográfica-racista que quer convencer as mulheres a terem filhos de pele branca, para evitar a grande substituição étnica, e porque, se os berços ficarem vazios, a nação envelhecerá e decairá, como Ele dizia.

Voltou todo esse lixo.

Portanto, é a volta do fascismo? Não exatamente. Aquele fascismo, o de Mussolini, era um fascismo futurista − a exaltação da juventude, da conquista, da expansão.

Porém, após cem anos, a expansão acabou, o ímpeto conquistador foi substituído pelo medo de serem invadidos por migrantes estrangeiros. E, no lugar do futuro glorioso, há agora no horizonte a extinção iminente da civilização humana.

“Sol que surge livre e fecundo

Você não verá outra glória no mundo

maior que Roma” [1]

Assim falava a retórica nacionalista do século passado.

Agora, o Sol provoca medo, porque os rios ficam secos e as florestas ardem.

O que avança é então o Geronto-Fascismo − um fascismo da época senil, o fascismo como reação raivosa ao envelhecimento da raça branca.

Também sei que muitos jovens devem votar na Meloni, mas o espírito dessa direita está capturado numa espécie de demência senil, um esquecimento das catástrofes passadas, como que tomado pelo Alzheimer.

O geronto-fascismo, agonia da civilização ocidental, não durará muito. Porém no breve período que estiver no poder poderia produzir efeitos tremendamente destrutivos. Mais do que possamos imaginar. 

 

O que foi o fascismo histórico?

É preciso uma breve aula sobre a história italiana.

A Itália, um nome feminino. No Renascimento, as cem cidades da península viviam a sua história sem se pensarem como nação, mas principalmente como locais de passagem, de residência, de trocas.

A beleza desses locais, a sensualidade dos corpos: a autopercepção dos habitantes da península de cem comunas era feminina até que chegou a austera fanfarra da nação. Nos séculos posteriores ao Renascimento, a península foi terra de conquista por exércitos estrangeiros, mas o povo dava seu jeito.

“Que seja a França ou a Espanha, mas que se coma”, dizia o ditado que, na língua da época, rimava na frase: “Francia o Spagna, basta che si magna.”

O país declina, mas algumas cidades prosperam e outras fazem o que podem.

Depois vem o Ottocento, um século retórico que acredita na nação, uma palavra misteriosa que não quer dizer nada. O que temos em comum é o local do nascimento, ou talvez a identidade, fundada sobre o território?

A identidade nacional é uma superstição na qual os habitantes da cidade nunca acreditaram, mas que foi imposta por uma minoria influenciada pelo Romantismo mais reacionário .

Os piemonteses, montanheses presunçosos reféns da França, pretendem que os napolitanos e os venezianos aceitem se submeter ao seu comando. O Sul foi conquistado e colonizado pela burguesia do Norte e assim se inicia a sua decadência: entre 1870 e 1915 emigram vinte milhões de italianos do Sul e do Vêneto. Na Sicília nasce a máfia, que ao princípio era uma expressão das comunidades locais para se defenderem dos conquistadores, mas depois se tornou uma estrutura criminosa de controle do território.

A questão do Sul como colônia nunca acabou, e ainda hoje continua a se aprofundar , embora cidades como Palermo ou Nápoles vivem uma vida extraitaliana, cosmopolita.

Durante a guerra da independência, um jovem chamado Goffredo Mameli escreveu as palavras de Fratelli d’Italia, que acabou sendo o hino nacional [2] . Não é um hino belíssimo, não. É um amontoado de frases retóricas, belicistas e escravagistas. Mameli morreu muito jovem, e não merecia continuar a ser exposto à zombaria dos que escutam essa musiquinha que tenta ser viril, mas que, ao contrário, o que provoca é riso. 

As posturas guerreiristas acabam fracassando estrepitosamente porque os habitantes das cidades italianas sempre foram inteligentes demais para se deixarem tratar como italianos. São venezianos, napolitanos, sicilianos, romanos, genoveses, bolonheses. O que mais? Só a burguesia piemontesa, que, se me permitirem dizer, nunca fui muito brilhante, pôde acreditar nessa ficção branca, vermelha e verde.

E depois chegaram os grandes desafios do novo século, o século da indústria e da guerra. Havia que ser competitivos, agressivos, não mais maricas.

Em 1914, enquanto a Sérvia e a Áustria entram na guerra, acirra-se a polêmica entre intervencionistas e não-intervencionistas. Os Futuristas, intelectuais de baixo voo, ficam agitados: desprezo pelas mulheres, a guerra é a única higiene do mundo, vocifera o péssimo poeta Marinetti, em seu Manifesto de 1909. Abaixo a Italieta! Gritam os estudantes intervencionistas tentando convencer os sicilianos e napolitanos para ir e se deixarem assassinar na fronteira com o Império Austro-Húngaro…que para os napolitanos e sicilianos nada significa. A história da nação italiana é a história de uma sistemática traição.

Quando eclode a guerra na Europa, em 1914, a Itália é aliada da Áustria e da Alemanha, mas o governo italiano decide não entrar na guerra, e fica à espera para ver como a situação evolui. Em 1915 prevalecem os intervencionistas e a Itália entra então na guerra ao lado da França e da Inglaterra, e contra aqueles que eram seus aliados. O resultado da guerra é catastrófico. Quinze mil mortos em Caporetto [3] .

Jovens de vinte anos enviados à morte cantam:

“Oh Gorizia, amaldiçoada seja

por cada alma que tem consciência,

dolorosa foi a partida

e para muitos não houve retorno” [4]

Após a guerra, as potências vencedoras, a Grã-Bretanha, a França e os Estados Unidos, que pela primeira vez entraram nos assuntos europeus, convocam o Congresso de Versalhes para dar uma nova ordem à Europa, e talvez ao mundo.

Os vencedores franceses e ingleses querem castigar a Alemanha, mas num livro intitulado As consequências económicas da paz, John Maynard Keynes aconselha não exagerar, porque, com os alemães, ainda que derrotados, não se brinca.

O presidente norte-americano, um tal Woodrow Wilson, ignorante da História e da Antropologia, pensa em impor ordem na coisa e proclama a Autodeterminação dos Povos. Mas Wilson se esquece de explicar o que quer dizer povo, embora essa palavra, de fato, nada signifique. E a outra, Nação, também não. Duas palavras desprovidas de sentido lógico que transformam a história do Novecento num inferno de guerras sem fim.

No Congresso de Versalhes, os italianos querem ser tratados como vencedores, e reivindicam para si a Dalmácia, a Albânia e parte da África. Mas os verdadeiros vencedores, as potências imperialistas consolidadas, tratam os italianos como lacaios e traidores, e não levam em consideração essas petulantes reclamações. Sidney Sonnino, o esquisito ministro do Reino da Itália, se retira com seu lenço encharcado em lágrimas.

A humilhação é arrasadora para aqueles que haviam combatido, os veteranos, que acreditaram que ficando do lado dos vencedores iriam ter glória, riqueza e colônias.

Um romanholo chamado Benito, saído do Partido Socialista em 1914 para passar para o lado dos intervencionistas, assume a condução dos veteranos, que percebem que combateram por nada e gritam vendetta contra a Inglaterra plutocrática. Benito possui uma cultura retórica e provinciana, mas também boa memória, e encarna a virtude do macho latino − arrogância, fanfarronaria, oportunismo. A sua voz soa potente com a amplificação eléctrica, e suas poses são perfeitas para o cinema, o novo veículo que acompanha a criação dos regimes de massas na primeira parte do século XX.

Em 1919, os operários do norte industrial ocupam as fábricas e os lavradores da Emília-Romanha entram em greve contra os fazendeiros reclamando melhorias nas condições de trabalho. Benito Mussolini guia o orgulho da nação contra os interesses mesquinhos dos operários. É ‘a pátria’ contra as organizações da sociedade real. Então, em outubro de 1922, após obter a maioria relativa nas eleições, ele lidera a Marcha sobre Roma e nasce o fascismo: um homem só no comando, violência contra os sindicatos, perseguição dos intelectuais, assassinato dos dirigentes de esquerda. Antonio Gramsci escreve na prisão seus Quadernos onde explica o que era –e continua a ser − o núcleo, o âmago do fascismo: a violência patronal contra a classe trabalhadora.

A Itália se tornou masculina, e a Itália masculina quer um império , mas isso não é do agrado nem dos ingleses nem dos franceses, nações consolidadas que já possuem um império.

As nações jovens, a Itália, a Alemanha, o Japão, reivindicam o direito de terem seu lugar ao sol, e fecham a aliança. Nasce o eixo Roma-Berlim-Tóquio (RoBerTo)

Mussolini envia tropas à Líbia, à Etiópia, à Abissínia: lá vão então os jovens italianos mandados para combater naquelas terras, conduzidos por criminosos de guerra como o general Graziani. Massacram povoados inteiros. Lançam bombas de gás mostarda contra aldeias no Corno de África.

Do seu balcão romano, diante de uma multidão oceânica, Mussolini proclama que renasceu o Império de Roma. É o ano de 1936, e da Espanha chega o estrondo de uma nova guerra. Hitler manda a Luftwaffe bombardear Guernica, Mussolini envia 5.000 militares para combaterem junto com o bando do fascista Francisco Franco contra os Republicanos [5] .

A potência germânica aumentou, como previsto por Keynes. A humilhação gera monstros, e os monstros querem vingança. E a vingança dos alemães humilhados se desata em 1939, com a invasão dos Sudetos (Tchecoslováquia), depois da Polônia e, por fim, da França. Milhões de judeus que vivem na Alemanha, na Polônia e em outros países europeus são apontados como os inimigos a ser exterminados. Também na Itália, onde haviam vivido pacificamente, em cidades como Roma, Veneza e Livorno, foram isolados e demitidos dos seus trabalhos. As leis raciais prepararam as deportações, a entrega dos judeus italianos ao aliado nazista.

Em 1939, pelo mar, escapam da Alemanha 120 mil judeus. Querem chegar à Inglaterra, mas os ingleses os rejeitam, como hoje rejeitamos os africanos que querem desembarcar em nossas costas.

Mussolini é aliado de Hitler, mas não confia nele, pois teme que ele queira invadir a região nordeste da Itália, onde se fala alemão. Quando Hitler lança a invasão da Polônia, no dia 1º de setembro de 1939, para conquistar a saída ao mar Báltico, a guerra se precipita rapidamente, envolvendo as potências mundiais uma após outra. Porém Mussolini hesita.

A exemplo do começo da Primeira Guerra Mundial, o governo italiano espera um pouco para decidir a sua entrada no conflito. “Não-beligerância”, diz Mussolini, que gostava de palavras difíceis.

Contudo, em 1941, ficava claro que Hitler estava ganhando a guerra. A Alemanha ocupara quase toda a Europa, por isso Mussolini decide intervir ao lado do nazismo vencedor, após pronunciar a frase que talvez melhor define a alma do fascismo: “Preciso de alguns milhares de mortos para sentar à mesa de negociação” [6] .

Os mortos foram muitos mais que alguns milhares, e Mussolini encontrou a mesa de negociação quatro anos mais tarde, em Piazzale Loreto, Milão, onde foi pendurado de cabeça para baixo.

Em junho de 1941, as tropas italianas entraram na França, já ocupada pelos alemães! E alguém comentou, repetindo as palavras de Francesco Ferrucci em 1530, diante do seu carrasco: “Vil Maramaldo, você assassina um homem morto”.

Mussolini pensava que a vitória dos nazistas estava garantida e que o fim da guerra era iminente. Mas o infame se enganava: ele não considerara o fato de o povo soviético ter resistido, pagando um preço de 20 milhões de mortos – muito mais do que alguns milhares… e a mesa de negociações à qual o infame quis se sentar voou pelos ares. Ele não considerou que os Estados Unidos iriam entrar no conflito, com todo o peso dos seus armamentos.

A guerra italiana, mais uma vez, foi um desastre. Enquanto os alemães ocupavam todo o território europeu, Mussolini mandou infelizes militares italianos, malvestidos e pior equipados, para combaterem na África, na Rússia e na Grécia. Ele ameaçara quebrar as costas da Grécia, mas as ofensivas italianas foram reveses.

Há um belíssimo filme de Gabriele Salvatores, Mediterrâneo [7] , que narra a história de um grupo de militares italianos enviados para estourar os rins da Grécia, que vão para uma ilhazinha do Egeu onde ficam por anos, sem qualquer contato com o resto do mundo. [8]

Os italianos, que em sua grande maioria acreditaram nas fanfarronices do Duce, inclusive quando parecia não existir perigo de ficarem mergulhados em algo tão horrível como a guerra, agora começavam a perceber o que era o fascismo, o abismo do horror que se ocultava por trás de palavras sem sentido como Nação, Pátria, Honra, Bandeira, Fratelli d’Italia e muitas outras.

Em 25 de julho de 1943, o Grande Conselho do Fascismo, isto é, o parlamento dos infames que o respaldaram quando parecia vitorioso, destituíram Mussolini e o fizeram prisioneiro [9] . Os alemães o liberaram pouco tempo depois para que constituísse a República Social de Salò, que controlou parcialmente o norte de Itália por quase dois anos − os grupos residuais de fascistas que formavam parte dela ajudaram os nazistas a cometerem chacinas que marcaram os últimos anos da guerra, como o massacre de Marzabotto e o de Santa Anna di Stazzena [10] .

Em 8 de setembro desse ano, o exército italiano se dissolveu – muitos integrantes se tornaram partisans e combateram junto com as tropas anglo-norte-americanas que atravessaram a península de Sul a Norte, e em abril de 1945 liberaram as cidades do norte da presença residual de nazistas e fascistas.

Entre esses partisans estava meu pai, que me contou esta história desde criança. Meu pai teve a sorte de morrer antes de ver o que está acontecendo hoje. Creio que faria muito mal para ele.

Mas o que está acontecendo hoje na Itália? O que está acontecendo na Europa?

Vejamos.

<> 

 

2. Apenas um homem no comando, quer dizer, uma mulher

O governo encabeçado por Draghi caiu. Draghi, ex-funcionário de Goldman Sachs, ex-diretor do Banco Central Europeu, tem uma confiança absoluta no piloto automático que governa tudo. Em nome do piloto automático contribuiu em 2015 para destruir a democracia na Grécia e, consequentemente, na Europa: o sistema financeiro europeu devia subjugar o povo grego que com 62% dos votos havia decidido recusar o memorando que ordenava a privatização geral e a redução dos salários e das aposentadorias. Draghi era diretor desse Banco Central Europeu e cumpriu sua parte para impor a humilhação e um brutal empobrecimento ao povo grego. Era sua tarefa, era a vontade do piloto automático.

Mario Draghi é uma pessoa culta, diferente da grande maioria dos políticos italianos que, em geral, têm uma vergonhosa ignorância, como o caso do ministro de Relações Exteriores, Luigi di Maio, um fantoche que desconhece qualquer idioma estrangeiro e que está convencido que Pinochet foi o ditador da Venezuela.

O governo Draghi nasceu no início de 2021, depois de uma conspiração de palácio urdida por um killer profissional, amigo de Mohammad bin Salman, chamado Matteo Renzi. O sistema financeiro europeu queria trocar o premier Giuseppe Conte, líder do movimento Cinque Stelle, que parecia inclinado demais às reivindicações sociais para confiar a ele todo o dinheiro que a União Europeia investe para apoiar a economia italiana, o país que mais sofreu os efeitos da pandemia.

Encontraram o modo de tirar Conte do meio e chamaram Draghi para salvar o país e transformá-lo, finalmente, em um país sério, ou seja, respeitoso das leis do lucro e das regras estabelecidas pelo sistema financeiro.

O caos barroco da política italiana teve que se curvar ao rigor protestante das finanças alemãs, e o sossegado Draghi era a pessoa certa para isso.

Todos se prostraram aos pés do Duce financeiro, todos elogiaram sua liderança, todos se declararam dispostos a apoiar seu programa, seus métodos e seus objetivos.

Todos, exceto ela.

Exceto Giorgia Meloni, uma romana autêntica, autoproclamada feminista, fundadora de um partido. Pela primeira vez na história italiana, uma mulher funda um partido e o chama, paradoxo genial, Fratelli d'Italia (Irmãos da Itália).

Giorgia explica o feminismo assim: “Na esquerda falam muito sobre a paridade das mulheres, mas no fundo pensam que a presença feminina deva ser, de toda maneira, uma concessão masculina. Onde esteja, seja mulher ou homem, deve chegar por capacidade e não por cooptação. E se as mulheres chegam, quando chegam não é por concessão de um homem”. (Página 58 do livro autobiográfico Io sono Giorgia).

Meloni gosta de competir com os homens como se fosse um homem. E vence. “Talvez é por reação ao complexo de inferioridade que muitas mulheres sejam levadas a competir entre si, mas eu me divirto mais competindo com os homens” (página 70).

Feminismo e competição: um oxímoro que funciona . Que outra mensagem pode ser mais convincente para o eleitorado feminino, quando a ideologia dominante colocou a competição no centro e a adulação hipócrita das mulheres é um dos motivos recorrentes da publicidade comercial e da propaganda liberal?

Fratelli d'Italia é o único partido que não fez parte do governo Draghi. Pelo menos formalmente ele foi um oponente. Embora ele não estivesse na oposição em questões sociais.

Tampouco foi opositor na hora de mandar armas ao exército ucraniano para prolongar infinitamente a guerra e com ela a agonia da população daquele país.

Mas fingiu ser oposição ao rejeitar cargos ministeriais que todos os outros ocuparam com comodidade.

Segundo as pesquisas eleitorais para o pleito de final de setembro, o partido de Giorgia Meloni será o mais votado e, portanto, em princípio (apesar de os princípios valerem pouco neste país que voltou à época barroca), Giorgia Meloni será a Presidente do Conselho.

Será a primeira presidente do sexo feminino do Conselho desde a unificação da Itália.

 

Interessante, não? Cem anos depois da filha machona de Mussolini, é uma mulher a que quer levar ao governo nacional o culto à pátria, a família tradicional, o heroísmo militar, o respeito às hierarquias, a rejeição aos imigrantes, uma concepção racial de cidadania.

Em uma palavra: o Fascismo.

Mas as coisas não são tão simples. Alguns traços do fascismo – nacionalista, racista, repressão às organizações operárias, militarismo – ressurgiram na cultura nacional e nas eleições políticas, mas não são exclusivas do partido de Giorgia Meloni. Eles são compartilhados por muitas outras forças políticas que vão às eleições. Eles são, sem dúvida, compartilhados pelo PD - Partido Democrático (social democrata), tão responsável quanto a Liga (extrema direita) pela repulsa sistemática de que são vítimas milhares de estrangeiros que se afogam no Mediterrâneo.

O artífice da política hipócrita e cruel de recusa e detenção dos migrantes é, de fato, um expoente do Partido Democrata. Seu nome é Marco Minniti, ex-ministro do Interior na última década, que dirige uma Fundação cujo patrocinador é a principal agência militar italiana, Leonardo.

O racismo é a política não oficial mas substancial da República Italiana e da União Europeia. Os refugiados de pele branca são recebidos de braços abertos, e os que têm a pele de uma cor um pouco diferente são enviados para se afogar no mar.

Desse ponto de vista, Giorgia Meloni não é diferente de outros partidos que administram o poder no continente.

Quanto ao resto, o fascismo, violência patronal contra os trabalhadores, já é um estilo de poder na Itália . Em meados de julho, em Piacenza, cidade onde estão localizados a maioria dos depósitos de distribuição logística italiana, incluindo a Amazon, sete ativistas sindicais foram submetidos a processos penais acusados ​​de organizar greves e sabotar a produção para impor aumento de salário às empresas. Quatro desses trabalhadores perseguidos têm nomes não italianos.

 

E a guerra?

Depois de 24 de fevereiro, o governo Draghi mostrou uma lealdade inabalável à política da OTAN e aos belicistas na Casa Branca.

Enquanto 73% dos cidadãos são contra a participação na guerra na Ucrânia, Draghi e todos os seus draghetti, a começar pelo ultramilitarista líder do PD, Enrico Letta, enviaram armas e munições aos ucranianos para que a guerra não termine nunca.

A questão é se a direita italiana será tão leal. Alguns lembram que a lealdade nas alianças nunca foi o ponto forte da história italiana, como vimos durante a Primeira Guerra Mundial e também na Segunda.

Agora começa a Terceira, e não faltam razões para se perguntar que jogo a Itália vai jogar, considerando que os três líderes da direita têm amigos íntimos na frente adversária: o húngaro Orban é o favorito de Giorgia Meloni, e o próprio Putin é um velho amigo dos três.

Os da aliança atlântica, unidos para alimentar o fogo na fronteira leste da Europa, estão preocupados com o que poderia fazer o velho capo Silvio Berlusconi, grande amigo de Vladimir Putin, e o futuro ministro do Interior Matteo Salvini, um energúmeno que há alguns anos assinou um pacto de aliança entre seu partido, a Liga do Norte – Lega Nord, e o Rússia Unida, o partido que governa a Rússia.

Meloni tem uma posição mais ambígua. No passado, naturalmente, ela gostava do nacionalismo cristão do neotsarismo russo, mas quando estourou a guerra na Ucrânia, quando a Europa pacífica se transformou na União das Nações Europeias Armadas, a líder do partido neomussoliniano se apressou em prometer fidelidade à sua nova pátria.

Vamos ver.

Este verão de 2022 é o mais quente de que a memória humana tenha registro, as florestas estão queimando de Trieste a Livorno, os rios estão secos, as geleiras estão derretendo, os trabalhadores estão morrendo sob o sol em canteiros de obras. A inflação reduz os salários já escassos, e o outono que se aproxima dá medo.

 

Mas, impedernido, o ótimo Presidente da República convocou eleições em meio à onda de calor, e a votação será no dia 25 de setembro… bem a tempo de comemorar o Centenário da Marcha sobre Roma.

 

E do que se fala nas intermináveis ​​conversas políticas? Dos trabalhadores dos depósitos de logística que foram presos em Piacenza? Dos imigrantes que morrem afogados no mar Mediterrâneo? Por acaso do pessoal do sistema de saúde que foi reduzido ao mínimo, dos médicos que morreram de Covid na pandemia, dos vinte mil enfermeiros que pediram demissão porque não aguentam mais?

Essas devem ser ninharias. Fala-se de alianças de coalizões, de novos partidos que nascem com nomes engraçados como Azione, Coraggio Italia, Italia Viva. Eu diria Itália moribunda. Em nome da democracia, prepara-se a celebração do funeral da democracia. A votação será no dia 25 de setembro, e é muito provável que votarão em Giorgia Meloni, que jura fidelidade à OTAN, o que em seu coração significa fidelidade ao fascismo, ao racismo, à guerra. Mas também é provável que mais da metade dos eleitores não votem.

A abstenção, de fato, é o primeiro partido na Itália.

Não sei o que deveria fazer. Dizem que “se você não votar, você ajuda a Giorgia Meloni a vencer”. E então? Não vejo nenhuma diferença entre os programas do partido fascista de Giorgia e o partido democrata de Enrico Letta. Quando foram realizadas as eleições nos Estados Unidos há dois anos, todo mundo pensava que era impossível alguém ser pior do que Donald Trump. Joe Biden demonstrou que isso não é verdade, que é possível ser pior que Trump, expulsar mais migrantes que Trump, legitimar o príncipe árabe estrangulador - como Donald Trump teria feito - e, acima de tudo, provocar uma guerra mundial, o que provavelmente Trump não teria feito.

 

Por que devemos continuar acreditando na democracia representativa se a democracia representativa provou ser uma farsa contra os trabalhadores?

 

Ao mesmo tempo, percebo que com a direita no governo as condições de vida da sociedade italiana vão piorar dramaticamente. Em primeiro lugar, querem eliminar a Renda de Cidadania, uma renda básica universal, lançada em 2019 e que permitiu a sobrevivência de milhões de jovens desempregados que estão à beira da pobreza absoluta. A direita diz que a “reddito di cittadinanza” (Renda de Cidadania) permite aos jovens recusar um trabalho quando não gostam dele. Preferem escravos, prontos para aceitar qualquer exploração em troca de qualquer salário para não morrer de fome!

A direita vai desencadear o racismo contra os imigrantes que são obrigados a aceitar trabalhar o dobro pela metade, sob o sol, em condições de clandestinidade.

O que mais pretende fazer a direita quando estiver no governo?

Um objetivo declarado de Giorgia Meloni é uma mudança no presidencialismo da República, que a Constituição antifascista de 1948 queria que fosse parlamentar: quer uma pessoa, um homem, no comando, embora agora esse “homem” seja uma mulher.

Finalmente, Meloni pretende “relançar a natalidade” com amplos programas. Como em todo o Hemisfério Norte, também na Itália, graças ao feminismo e aos vários anticoncepcionais, as mulheres decidiram não ser mais animais de reprodução e querem viver suas vidas sem ter que obedecer às ordens nem do marido nem da Nação.

Por outro lado, as novas gerações estão cada vez mais conscientes de que ter filhos hoje é um gesto irresponsável, porque significa entregar pessoas inocentes ao inferno de um clima intolerável, em um mundo que está regredindo para modos de vida inumanos, com salários cada vez mais baixos e condições de vida que se parecem demais com a escravidão.

 

Meloni quer filhos para as guerras que virão, quer escravos para a economia da exploração total.

 

E, acima de tudo, Meloni, como Salvini da Lega Nord, quer que as mulheres italianas tenham filhos para evitar que os migrantes de lugares distantes venham para a Itália para substituir a população que decresce.

Este é o ponto mais importante do fascismo que retorna à Itália, como em todo o “mundo branco”: o pânico da “grande substituição”. A guerra ucraniana transformou a União Europeia em um estado racial, no qual os refugiados de pele branca gozam de privilégios que são negados aos “escuros”. Em todos os países, acentua-se o caráter identitário branco das políticas migratórias e sociais.

Eis aí o caráter profundo do Geronto-Fascismo: uma população de velhos que durante cinco séculos saqueou, violou e explorou os povos do Sul do mundo, e agora tem medo de invasão. Este é precisamente o ponto pelo qual o geronto-fascismo está destinado a perder: as mulheres não se colocarão a fazer filhos para o forno do futuro.

 

3. E agora...

 

A Itália não é fascista pela vontade de Deus, e a democracia italiana nem sempre foi um ritual hipócrita. Nos anos posteriores à infame guerra de Mussolini, graças à Resistência, os italianos puderam escrever uma Constituição com muitas coisas interessantes. Por exemplo, em seu Artigo 11, afirma que a Itália repudia a guerra.

 

Repudia a guerra? É sério? E por que hoje estamos ajudando os russos a massacrar civis ao prover armas para uma resistência que tem a suástica tatuada no antebraço?

 

E a Constituição, que nunca foi totalmente aplicada, está agora em perigo porque seus inimigos são a maioria. São os empobrecidos pelo capitalismo neoliberal e pelas políticas financeiras, são os que foram bombardeados durante quarenta anos pela televisão berlusconiana, que já não se lembram que a Constituição proclama que somos todos iguais, independentemente das diferenças de renda, raça e religião, e que a propriedade privada só é legítima quando não contraria os interesses da maioria.

Mas o povo italiano nem sempre foi assim tão desmemoriado, tão azedo, tão triste, nervoso, irritado e, portanto, racista e até um pouco bobo. Houve um tempo em que os patrões não podiam despedir levianamente os trabalhadores que se filiavam a um sindicato, porque havia solidariedade entre os trabalhadores e porque era fácil fazer amizade, não como hoje em que ninguém sorri na rua e estamos prontos para nos destruir, porque a precariedade transformou os trabalhadores em miseráveis competidores ​​que têm medo de perder o emprego e por isso estão dispostos a trabalhar doze horas como escravos. Uma vida de merda que já não vale a pena ser vivida!

Um povo de depressivos raivosos que vão votar em quem lhes promete recuperar uma honra perdida que jamais existiu , e que lhes promete aumentar o número de africanos afogados no mar para que não venham a desembarcar em nossas costas sagradas, e que lhes promete guerra, e mais guerra, e mais guerra.

E enquanto isso, faz calor, se morre de calor, e os rios são fios de água, enquanto a água começa a escassear, os combustíveis custam cinco vezes mais, o preço do gás aumenta a cada dia, se alguém adoece não encontra um médico porque a Saúde foi privatizada, e se terminou uma carreira profissional o único emprego que consegue não é suficiente para pagar o aluguel. E sabe o que te digo?

Vamos desertar. Vamos fechar tudo. Vamos boicotar a guerra que destrói recursos e obriga a reabrir as usinas a carvão, esperando que alguém desencadeie um ataque nuclear.

 

Vamos ocupar todas as escolas, todas as faculdades em todas as universidades. Façamos como sugerem os jovens do End Fossil: Ocupemos! Occupy!

 

Vamos criar espaços de amizade, espaços para projetar um futuro possível, onde o saber esteja a serviço do bem-estar coletivo, e não da guerra.

 

________________

Notas

 

[1]  Texto do Hino a Roma, com música de Puccini. Obra de Fausto Salvatori, inspirado no Carmen saeculare, de Horacio (Quinto Orazio Flacco), poeta do século Iº A.C.

[2]  O Canto dos Italianos, conhecido como Fratelli d’Italia, o Hino de Mameli, foi escrito pelo então estudante e patriota Goffredo Mameli em 1847. Neste mesmo ano ele enviou o texto a Torino para que fosse musicado pelo maestro genovês Michele Novaro, que o apreciou de imediato. O Hino fez sua estreia pública no 10 de dezembro de 1847 em Gênova, apresentado à população na Praça do Santuário de Nossa Senhora de Loreto, no bairro de Oregina, durante a comemoração da revolta do bairro genovês de Portoria contra os ocupantes Augsburgo. Nessa ocasião foi interpretado pela Filarmônica Sestrese.

[3]  A Batalha de Caporetto, conhecida na Itália e no exterior como ‘derrota’ ou ‘derrocada de Caporetto’, foi um enfrentamento ocorrido na frente italiana da Primeira Guerra Mundial, entre as forças conjuntas dos exércitos austro-húngaro e alemão, contra o Exército Real italiano. O ataque conduziu à mais grave derrota na história do Exército italiano, o colapso de batalhões inteiros e o recuo completo até o rio Piave. A derrota produziu quase 300.000 prisioneiros e 350.000 desertores, a ponto de em italiano se usar o termo Caporetto para descrever uma capitulação, uma derrota ou uma derrocada.

[4]  O Gorizia tu sei maledetta é uma canção antimilitarista e anarquista composta durante a Primeira Guerra Mundial. Gorizia é uma cidade do Nordeste italiano, na fronteira com a Eslovênia.

[5]  ver Guerra Civil espanhola 

https://it.wikipedia.org/wiki/Guerra_civile_spagnola

[6]  Frente às queixas de alguns colaboradores importantes e militares (entre eles Pietro Badoglio, Dino Grandi, Galeazzo Ciano e o general Enrico Caviglia) o Duce respondeu: “Só preciso de alguns poucos milhares de mortos para poder sentar à mesa de negociação”.

[7]   https://www.youtube.com/watch?v=4PLCjiekvYc

[8]   https://it.wikiquote.org/wiki/Mediterraneo_%28film%29

[9]  A última sessão do Grande Conselho do Fascismo, que levou à queda do regime fascista, durou dez horas, das 17 horas do 24 de julho até as 2 da madrugada do 25 de julho, e terminou com a aprovação da ordem do dia proposta por Dino Grandi, que pressionava para devolver ao rei o “comando efetivo” das Forças Armadas, dando a Vitor Manuel III a prerrogativa constitucional de destituir e deter Mussolini. A ata oficial dessa histórica reunião não existe: por vontade expressa de Mussolini, não se fez ata dos discursos.

[10]   https://www.maremagnum.com/libri-antichi/salo-vita-e-morte-della-repubblica-sociale-italiana/163095594