Deslocamentos significantes no mundo pós-colonial: reflexões a partir da política contemporânea

Tomás Lima Pimenta

Thiago Canettieri

 

  Modernidade e o "superávit de expectativa"

De acordo com o modelo da crítica decolonial, formulado, por exemplo, por Aníbal Quijano e Enrique Dussel, haveria uma correspondência entre o advento da modernidade e a experiência colonial. O sujeito moderno, que emerge no discurso filosófico com toda sua potência já no século XVII, seria, na verdade, um resultado da experiência concreta dos processos de “descobrimento”, conquista e colonização do novo mundo. O ego cogito, enuncia Dussel,[1] seria uma sublimação do ego conquiro. Essa nova subjetividade seria marcada por um processo coercitivo, uma violência originária, na medida em que toda alteridade é negada[2] em sua exterioridade e reduzida à posição de um “momento” de um sistema que se reproduz pelo princípio do idêntico.

            A essa nova concepção de razão e subjetividade corresponde também uma nova forma de temporalidade. Há um crescente hiato entre aquilo que Koselleck[3] denominou “espaço de experiência” e “horizonte de expectativa”, ou seja, entre uma certa experiência vivida do presente (que inclui, certamente, também o passado) e aquilo que se espera do futuro. Ou seja, o tempo passa a ser experimentado como uma linearidade em permanente transformação. A “temporalização da história”, como um acúmulo progressivo de experiências conhecidas, é algo próprio da modernidade – é o que permite reconhecer uma diferença qualitativa entre passado e futuro. A noção de progresso só se torna inteligível em um tal quadro de temporalidade, pois instaura um “superávit de expectativa”.[4]

            Essa temporalização da história só foi possível, segundo Paulo Arantes,[5] a partir da extensão do domínio europeu colonial. A expansão territorial dos reinos europeus fez consolidar uma economia mundo que instaurou a experiência da “simultaneidade do não simultâneo”, criando uma “zona de coerência comum entre fragmentos do mundo tão incomensuráveis” – como escreve Gabriel Tupinambá.[6] Essa justaposição se torna o “combustível” para a experiência de um horizonte de expectativas marcado pela ideia legitimadora do progresso, afinal, a experiência histórica depende de condições materiais. Tal “dissincronia” de mundos distintos integrados por uma dinâmica social abrangente cria, então, o efeito de temporalização. Ao justapor duas realidades não simultâneas, interpretando, portanto, que uma é atrasada e outra é adiantada, resulta nessa sensação de abertura histórica que conformou a experiência colonial desde seu primeiro momento em diante.

 

Essa mesma brisa marinha que impulsionou o grande transbordamento capitalista da economia-mundo europeia também ajudou a disparar a flecha do tempo braudeliano do mundo, orientado segundo uma inédita linha do horizonte, cujo ponto de fuga (…) se apresenta como um novo tempo em que a diferença entre experiência e expectativa não para de crescer.[7]

 

Soma-se a esta experiência do tempo, uma certa “moralização” da história, que passa a ser compreendida como um processo de aprendizagem e progresso civilizatório. Essa concepção evolutiva da história vai definir os critérios de validade de uma experiência histórica em detrimento de outra. Como sabemos, está embutida, ademais, uma narrativa fundamentalmente eurocêntrica. A história é traçada de tal modo que toda a humanidade em sua pluralidade é concatenada em uma linha evolutiva que culmina no advento das sociedades modernas e europeias. Para essa concepção, a Europa é o fim: assim proclama Hegel em sua portentosa filosofia da história.[8]

Tal modelo se replica em todos os campos, seja na estética, lógica, política, ciências, economia, teologia etc. Em suma, todo pensamento moderno europeu é acomodado nas coordenadas dessa concepção histórica. Por exemplo, a política é compreendida como um desenvolvimento que vai do estado de natureza, passando pela tirania e culminando na república constitucional e democrática. A economia parte de uma economia familiar baseada em trocas esporádicas, passa pelo mercantilismo metropolitano e culmina no livre mercado capitalista.

Por fim, está imbuído a esta representação histórica um forte teor racial. Tudo aquilo que se distingue da branquitude europeia é expelido para o passado, à medida que a branquitude é arrojada sobre o horizonte.[9] Não é por outro motivo que a ascensão do liberalismo, como em Locke,[10] por exemplo, acompanhou uma concepção de sujeito como aquele que detém uma propriedade, nem que seja sua própria pessoa. No entanto, a pretensão universal da afirmação sempre foi restrita ao princípio idêntico eurocêntrico: “masculino, branco e ocidental.”[11]

Através dessa lente, tudo aquilo que se conforma aos ideais modernos (república, democracia, mercado, razão, branquitude, Europa etc.) é projetado no futuro, como destino de um processo de aprendizagem da humanidade, ao passo que tudo aquilo que é reputado primitivo é rejeitado para o passado.[12] A história não seria nada mais do que todo o drama político que se dá entre esse mundo arcaico e esse ideal a se realizar. Os povos que haveriam concluído esse processo tornariam-se simplesmente a-históricos e apolíticos, para seguir a fórmula clássica de Fukuyama – tornam-se, portanto, eternos e universais.[13] O destino de todos os elementos prístinos é deixar-de-ser aquilo que são e desenvolver, como sementes que já contêm em si o germe da árvore que serão e que, no seu vir-a-ser árvore, devem negar seu ser-semente. Assim se daria o progresso histórico.

            Entretanto, a história dos últimos cem anos provocou transformações medulares que devem ser cuidadosamente apreciadas por qualquer reflexão crítica e decolonial. Um apanhado de todas essas transformações mereceria um estudo detalhado da historiografia: de fato, o século XX deixou tão claro quanto o sol de meio-dia que a “civilização” carrega interna e necessariamente a barbárie. Por ora, gostaríamos de suscitar, aqui, de modo conscientemente experimental, um conjunto de ponderações que poderiam, caso pertinentes, orientar elaborações ulteriores. A assunção fundamental deste ensaio é que essas transformações provocam uma série de deslocamentos e deslizamentos na ordem dos significantes que orientaram o imaginário do mundo moderno, tanto em sua parcela "avançada" quanto na colônia e pós-colonia. Nomes como Europa, centro, periferia, modernidade, colonialidade, precariedade começam a se reeordenar e ganhar significações até antes insuspeitadas. Pensar, hoje, decolonialmente, requer uma atenção redobrada a tais mutações.

 

Um novo tempo do mundo

            Como linha mestra para guiar essa cadeia de considerações, gostaríamos de recuperar a ideia fundamental de Paulo Arantes de que haveríamos ingressado em uma era de expectativas decrescentes. Seguindo o vocabulário Koselleckiano, a modernidade seria marcada por um distanciamento crescente entre nosso espaço de experiência e nosso horizonte de expectativas. Agora, ao contrário, vivemos em uma era em que esse horizonte de expectativas se aproxima cada vez mais de nós de maneira catastrófica. Arantes auscultou o novo tempo do mundo. O progresso capitalista – que se acreditou ser infinito – começou a falhar. Com isso, um novo regime histórico se instaura. Nas palavras do autor: “linearmente desenhado, o futuro se aproxima do presente explosivamente carregado de negações. Não basta anunciar que o futuro não é mais o mesmo, que ele perdeu seu caráter de evidência progressista. Foi-se o horizonte do não experimentado.”[14]

            Essa transformação fundamental no regime de historicidade contemporâneo possui uma série de causas, das quais podemos enumerar três fundamentais. Em primeiro lugar, as guerras mundiais e a invenção e aplicação da bomba atômica são fatos indeléveis e de alta significância. Por um lado, o ideal iluminista de uma paz perpétua resultado de uma crescente racionalização social foi por água abaixo. Por outro, a humanidade deve, a partir de então e para sempre, ser confrontada com a possibilidade de sua extinção imediata – possibilidade que pode ser recalcada, como parece ser o caso de nossa geração, mas nunca mais abolida. Soma-se a isso a crise ecológica sem precedentes, que também lança sobre a humanidade uma imagem do seu eclipse. Somados, esses três aspectos produzem um estado mental (um Stimmung, para utilizar um vocábulo de Heidegger) visceralmente apocalíptico. Não é de se espantar que, no plano da cultura, consumimos tantas produções distópicas, apocalípticas e pós-apocalípticas, um fenômeno avigorado pela recente pandemia. Por fim, e mais fundamentalmente, há uma transformação essencial no interior do próprio regime internacional de acumulação capitalista que se apresenta como uma tendência de longo-prazo de perda de dinamismo econômico: baixo crescimento e crescente desemprego estrutural. Nomeamos esta transformação "crise do valor".

Consideramos, portanto, que essa mudança de era está assentada sobre uma transformação mais profunda na própria base material da sociedade capitalista. Nesse sentido, a obra de Robert Kurz é reveladora. Kurz oferece uma precisa leitura de Marx, insistindo que o “limite do capital é o próprio capital”. Sua dinâmica contraditória bloqueia a continuidade da acumulação futura desestruturando todo o nexo social que sustenta essa sociedade.

O capital, como uma forma historicamente determinada de mediação social entre os indivíduos – ou seja, uma relação social –, carrega dentro de si uma contradição inescapável. Capital é controle sobre o trabalho e, mais precisamente, sobre o trabalho não pago - como escreve Marx. Como uma relação baseada na lei imperativa da competição, o capital possui uma lógica expansiva que requer o aumento contínuo do volume de trabalho não pago mobilizado. O aumento desse volume se dá de dois modos fundamentais, como descreve Marx em O capital. O primeiro deles, o mais-valor absoluto, implica a ampliação do tempo de trabalho excedente pela extensão forçada da jornada de trabalho. Entretanto, essa ampliação se choca com “limites insuperáveis” na medida em que “o limite absoluto da jornada média de trabalho, que é, por natureza, sempre menor do que 24 horas, constitui um limite absoluto de mais-valor”.[15] Por outro lado, o volume de trabalho não pago pode também ser ampliado através do chamado de mais-valor relativo, isto é, o processo de “redução do tempo de trabalho necessário e a correspondente alteração da proporção entre as duas partes da jornada de trabalho”.[16] O meio para alcançar esse objetivo é, em geral, o desenvolvimento das forças produtivas, ampliando e generalizando formas automatizadas da produção.

Contudo, a necessária automação produtiva conduz à expulsão sempre crescente da força de trabalho dos circuitos produtivos. Uma sociedade baseada em mais-valia relativa faz espraiar o desemprego. Marx já havia observado tal fenômeno em relação ao desenvolvimento da maquinaria e da indústria no século XIX. Mas essa tendência acelerou de modo significativo com a Quarta Revolução Industrial na segunda metade do século XX. A microeletrônica e a robótica tornam um volume cada vez maior de trabalho vivo supérfluo.

Orientado para a acumulação de riqueza material, o desenvolvimento contraditório dos meios de produção cria um anacronismo em relação à forma social. Esse processo é o que Robert Kurz denomina de “crise do valor”.[17] Dessa forma, os ideais que nortearam o projeto da modernidade, por exemplo, da propriedade e do trabalho, passam a ser impossibilidades pela própria lógica do capital.  Tomemos como exemplo a defesa da sociedade burguesa da Filosofia do Direito de Hegel. Lá, propriedade, família e trabalho são concebidos como modos fundamentais de reconhecimento na sociedade moderna. "Ser alguém" passa a significar, na modernidade, ser proprietário, membro de uma família e de um estamento (ou seja, ser empregado dentro de uma categoria laboral reconhecida socialmente).[18] O que observamos agora é o fato de que a realização desses ideais torna-se objetivamente cada vez mais inalcançável. A contradição do capital está no fato de que ele impossibilita a efetivação das normas que pretensamente lhe sustentam.[19] Eis, portanto, a contradição absoluta do capital.

Tal processo reconfigura – e é isso que nos interessa aqui – a dinâmica centro-periferia. Há uma inversão no vetor que orienta a sociedade: estaríamos diante de um processo de periferização do centro.[20] A condição periférica, dessa maneira, é, simultaneamente, a característica que designa uma forma social que sempre esteve presente – em virtude das peculiaridades de sua formação social – e uma tendência que se coloca hodiernamente para todo o mundo. As formas próprias da periferia tendem a se generalizar na sociedade, tomando “o centro” de assalto. As periferias, que se estabeleceram, desde a origem da modernidade/colonialidade, como regimes de produção híbridos, territórios de superexploração da força de trabalho, com profundas desigualdades sociais, organizado pela violência e com uma intricada conexão entre legalidade e ilegalidade, agora despontam como o “horizonte de expectativa” de todo o mundo.[21]

 

Queremos mais do que meramente notar que muitos dos aspectos emergentes e das contradições escondidas da modernidade capitalistas eram tão perceptíveis nas colônias quanto nas metrópoles – ou que as primeiras eram muitas vezes o local de produção para os modos de vida das segundas. O que queremos sugerir, além disso, é que os processos históricos mundiais contemporâneos estão alterando as geografias da relação centro-periferia tal como a recebemos, realocando para o Sul não apenas alguns dos mais inovadores e energéticos modos de produzir valor, mas a força motriz do capitalismo contemporâneo, tanto como formação material quanto cultural.[22]

 

Completando nosso breve esquema das relações entre centro e periferia ao longo da modernidade, podemos, portanto, sugerir que o dito “fim do futuro” – diagnosticado e sentido mais severamente desde o centro das sociedades desenvolvidas – equivale a um retorno à superfície da relação que constituiu a abertura desse mesmo futuro. Se o tempo histórico moderno nasce da fricção promovida pela economia-mundo entre centro e periferia e da tradução desse conflito espacial em uma dinâmica temporal rumo ao não-experimentado – custeada pela exploração colonial –, então nada mais angustiante para a experiência histórica do que a expansão das formas de organização periféricas como modelo mesmo de reprodução social do capitalismo.

 

Sinais do deslocamento na superfície

Munidos de um arsenal categorial para compreensão deste novo tempo do mundo, passamos agora para uma listagem de caráter experimental e inacabado de algumas manifestações superficiais dessas fraturas mais profundas no núcleo do mundo moderno/colonial. Gostaríamos, portanto, de fazer notar como essa fratura pode ser divisada em deslocamentos de significantes, que complexificam a relação centro-periferia como o pensamento decolonial o havia concebido ao longo do século XX.

Preliminarmente, é patente que a Europa foi desbancada de seu posto de ideal para as elites latino-americanas. Nessa toada, aquela oposição clássica entre o erudito e o popular, que sustentou inúmeros conflitos de ordem simbólica e epistêmica, perdeu sua efetividade (a não ser nas faculdades de humanidades, onde o pensamento Europeu ainda goza de uma autoridade decisiva). As elites periféricas substituíram há muito o ideal moderno Europeu por uma certa representação dos EUA, que combina um individualismo atroz com uma apologia da violência e do consumo de massa. O paladar refinado orientado pelo velho continente foi integralmente substituído pela fruição irrefreada da indústrial cultural norte-americana e pelo fast food.

Em um sentido mais profundo, o que observamos é o esvanecimento do próprio ideal de desenvolvimento. A despeito de se o modelo ideal fosse a Europa ou os EUA, aproximar-se do ideal era concebido sempre como um processo de desenvolvimento, um progresso. O nacionalismo brasileiro estivera sempre atrelado a uma representação do Brasil como potência, como nação rica e soberana, uma imagem que teve seu último suspiro na aspiração petista por um "Brasil Maior", ou seja, uma aspiração pelo status de nação propriamente.  Tal anseio foi de todo abandonado pela elite pós-colonial. Ao contrário, constatamos nos últimos anos uma adesão irrestrita de toda a classe alta e empresarial a um projeto de completo aprofundamento e acirramento da condição periférica, de retorno aos traços mais acentuados do mundo colonial: o modelo primário exportador desprovido de cidadania, ao qual se soma papel cada vez mais predatório do capital financeiro e a universalização de um padrão de consumo de bens ultratecnológicos estrangeiros. Na ausência de expectativas de melhoramento, estabelece-se uma corrida em direção ao espólio e expropriação irrestritos dos nacos existentes.

Nesta nova configuração, a Europa passa a ocupar, para o neofascismo brasileiro, o lugar de um entrave para o programa de desmonte completo da legislação e vigilância ambiental. Segundo Bolsonaro, a Europa não seria senão uma “seita ambiental”,[23] na qual ele identifica, em seu raciocínio primário, uma dose de hipocrisia paternalista, pois a Europa já teria desmatado toda sua vegetação e agora tentaria impor critérios ambientais sobre os outros. O curioso é que, para a verve devastadora do fascismo, o fato de que a Europa houvesse destruído seu ambiente não é ensejo para a elaboração de uma alternativa sustentável, mas a justificação para o prosseguimento irracional da exploração desmesurada. Aqui, a Europa, propulsora da desmesura colonial, se apresenta como o princípio de moderação que o bárbaro americano experimenta como mordaça.

Já no plano geopolítico, observamos uma crise profunda do modelo liberal-humanitário que predominou desde o fim da guerra fria. Esse fracasso se manifesta tanto na ascensão de governos autoritários e antiliberais em países do capitalismo central, quanto no fracasso da política externa expansionista dos EUA e da OTAN, que se mostrou incapaz de realizar sua missão “civilizatória” e vem acumulando derrotas militares significativas nos últimos anos. Por outro lado, contemplamos a ascensão meteórica da economia Chinesa e de seu arco de influência sobre o planeta, como também uma mudança decisiva da postura geopolítica Russa sobre a Eurásia.

Tais mutações no plano geopolítico parecem instigar ares otimistas em setores do pensamento latino-americano. Não são poucos aqueles que se entusiasmam com a decadência do poder ocidental.  O embaraço, no entanto, é que esse novo bloco Eurasiático emergente já não representa, como bem observou o sociólogo ucraniano Volodymyr Ishchenko a respeito da mais recente invasão russa, nenhum ideal emancipatório ou humanitário que a própria URSS, apesar de todas suas contradições, era capaz de incitar.[24] Tudo se passa como se adentrássemos numa nova Guerra Fria que já não pode ser compreendida como um conflito entre dois ideais civilizatórios (capitalismo x comunismo), mas como um antagonismo entre um capitalismo liberal (pelo menos no interior de suas fronteiras) e um capitalismo antiliberal nacionalista, ambos desprovidos de um horizonte otimista de desenvolvimento e progresso. Ambos os modelos são assombrados pelo prospecto de uma precarização quase-universal.

E não é só do nosso lado do esquema global que se notam mutações objetivas e subjetivas significativas. Os desdobramentos recentes da crise do capital fizeram se espraiar formas de relações sociais que antes estavam contidas aqui. Um crítico social alemão já havia notado que “ao lado dos países centrais” corria um dilúvio. Pois bem, estamos no momento em que essa onda quebra com toda força e invade o centro. Não é por menos que os sociólogos europeus estejam surpresos com o precariado que cresce na Europa. Como notam Guy Standing,[25] Oliver Nachtwey[26] e Christopher Guilluy,[27] formas de relações cada vez mais precárias, características de uma sociedade em "declínio" estão se disseminando no velho continente. Embora ainda exista uma disseminação diferencial – que se sustenta a partir de relações racistas e xenófobas – os autores já notam a presença dessas forma-periferia entre os “nativos” europeus. Todos esses estudos já apontam para uma nova convergência perversa do mundo e para o modo por meio do qual as condições de reprodução da vida se degradam a tal ponto que a vida periférica se torna o critério primordial.[28]

Esse processo em curso de um “devir-periferia do mundo” não é apenas a generalização da precarização das relações sociais, mas acompanha também o derretimento institucional das repúblicas democráticas do ocidente. Como bem demonstrou Robert Kurz,[29] a forma-política está conectada geneticamente à forma-mercadoria e, assim, conformou o quadro do que entendemos por política hoje. Mas tal construção nunca foi ubíqua. Na periferia do capitalismo a instabilidade política seria condição necessária para a produção ampliada de mercadoria. O que acompanhamos agora, com o novíssimo radicalismo de direita,[30] pode ser inscrito na mesma lógica de colapso que passa todo o sistema social. A explosão violenta da extrema direita contemporânea, de uma certa maneira orientada para a catástrofe, faz sincronizar os países centrais com a condição política da periferia: instabilidade, violência e arbitrariedade do poder. O tempo da política de raiz iluminista, republicana, assentada em instituições fortes e firmes, mesmo enquanto ideologia, ficou, definitivamente, para trás. Diante desse horizonte de expectativas rebaixado, não é surpresa que o discurso da extrema direita se volte para “formas elementares da vida política”,[31] que passam longe da perspectiva universalista uma vez proclamada – mesmo que tenha sido na prática tão estreita quanto um buraco de agulha. Os neonazis alemães dos anos 1970-1980, desde a Nationale Aktivisten, já mobilizavam esse tipo de discurso. Hoje não é surpresa que o lema trumpista seja “America First” ou que Bolsonaro tenha por base o “cidadão de bem” – as possibilidades de sobrevivência se restringiram para uma distinção muito básica de diferenciação do “nós X eles”. Evidentemente, não se trata de lunáticos – embora sejam: são a expressão de uma condição social objetiva fermentada a fogo lento que finalmente entornou do caldeirão. Sua origem, portanto, está umbilicalmente conectada ao colapso da modernização.

Seja como for essa transformação no metabolismo do capitalismo tem reconfigurado os vetores dos processos históricos mundiais contemporâneos e estão alterando as geografias da relação centro-periferia tal como a percebemos. O “atraso” que caracterizou os países periféricos – percebida, é claro, pelo pensamento ilustrado de Norte ao Sul – não era apenas uma “lentidão” na longa jornada do desenvolvimento. Tampouco se trata de formas pretéritas, perdidas nas curvas da evolução histórica. Se trata, na verdade, de uma especificidade do capitalismo. Nas periferias ocorreu a fusão “do que havia de pior do capitalismo” com a “ausência de participação do seu (fraco) processo civilizatório”.[32] O próprio “desenvolvimento civilizatório”, como notaram Adorno e Horkheimer,[33] dependia da produção da barbárie em seu subsolo. Durante muito tempo esse “caos sistêmico” pôde ser externalizado – mas agora já não é mais possível.  Agora é a particularidade da periferia que se universaliza nesse novo tempo do mundo. A realidade da periferia se apresenta como o movimento tendencial da totalidade concreta do capital em plena crise.

Isso significa, entre outras coisas, que a periferia é uma espécie de prisma que reflete, agora, todo o mundo. Se torna, assim, um sintoma da crise aguda que o sistema capitalista atravessa, se manifestando em todo o corpo social de maneira generalizada. Está em curso um devir-periferia do mundo. Um pensamento crítico atento para “que horas são” no relógio do mundo, deve se haver com o estado paradoxal de nossa realidade: se durante um tempo a geografia histórica do capitalismo dependia de uma relação diferencial entre centro-periferia, agora essa distinção parece estar em declínio. É exatamente este tornar tudo periferia que revela o momento de verdade das formas sociais do capital em crise. Esse colapso, que sempre existiu nas periferias, esteve inscrito em seu núcleo desde sempre, e somente agora se tornou explícito.

O somatório de todos os aspectos mencionados produz um desamparo cognitivo no pensamento que ainda insiste em operar nas categorias próprias da modernidade/colonialidade. É sempre muito curioso observar como jornalistas, analistas e comentadores percebem essa convergência periférica nos países de centro. Diante da tentativa de invasão dos apoiadores de Donald Trump ao Capitólio, em Washington, D.C., entrevistados diziam estar indignados com a situação, afinal, os Estados Unidos da América não eram “uma república das bananas qualquer”. Recentemente, diante da invasão russa à Ucrânia, um correspondente de um jornal televisivo de ampla abrangência revelou que estava surpreso, pois se tratavam de países “minimamente civilizados e europeus” – recalcando o fato de que a Europa fora, por duas vezes, palco de guerras com um teor de destrutividade e barbaridade dificilmente concebível para o "resto" do mundo ou o fato do capitalismo norte-americano ser baseado em relações de compadrio, corrupção e chantagens.

Tais deslocamentos impõem um desafio ainda maior para qualquer prática política que se nomeie “decolonial”. Afinal, não há descolonização possível que não tenha de haver com o mundo diante do qual se encontra e se posicionar diante dos atores em cena.

 

Tomás Lima Pimenta é graduado em Ciências Econômicas pela UFMG, mestre em Filosofia pela New School for Social Research, e é, atualmente, Ph.D. candidate em Filosofia na mesma instituição. Tomás desenvolve pesquisas sobre Hegel, teoria crítica e pensamento decolonial.

 

Thiago Canettieri é professor do Departamento de Urbanismo da UFMG. Doutor em Geografia pela UFMG. Autor do livro A condição periférica (Consequência, 2020).



[1] Enrique Dussel, Europa, modernidade e eurocentrismo, in: A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Buenos Aires: Clacso, 2005.

[2] Aqui, Dussel opera, em relação à experiência histórica do colonialismo, um gesto típico do pensamento filosófico do século XX, que voltou sua crítica aos pilares dos conceitos de razão e subjetividade no pensamento moderno. O princípio da identidade aparece, por exemplo, na Dialética Negativa (Zahar, 2009) de Adorno, como constitutivo da modernidade. Mas Adorno e Horkheimer, ao contrário de Dussel, projetam sua origem não à experiência colonial mas ao próprio mito fundador do assim chamado mundo "ocidental", isto é, ao personagem de Ulisses. Vale notar que para os filósofos de Frankfurt, este princípio de identidade será a base da personalidade autoritária que conduz ao fascismo.

[3] Reinhart Koselleck, Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto, 2006.

[4] Reinhart Koselleck, Progresso e declínio: um adendo à história de dois conceitos, in: Histórias de conceitos: estudos sobre a semântica e a pragmática da linguagem política e social. Rio de Janeiro: Contraponto, 2020.

[5] Paulo Arantes, O novo tempo do mundo. São Paulo: Boitempo, 2014.

[6] Gabriel Tupinambá, “Um pensador na periferia da História”, Revista Porto Alegre, 7 de janeiro de 2020. Disponível em: http://revistaportoalegre.com/um-pensador-na-periferia-da-historia/ . Acesso em: 22 de março de 2022.

[7] Paulo Arantes, O novo tempo do mundo, op.cit., p. 48.

[8] G.W.F. Hegel, Vorlesungen über die Philosphie der Geschichte. Berlim: Suhrkamp, 1989, p. 134.

[9] Tomás Pimenta, “Raça, Modernidade e Desumanização”, in: Andréa Guerra e Rodrigo Lima (orgs). A psicanálise em elipse decolonial. São Paulo: n-1 edições, 2021.

[10] John Locke,Dois tratados sobre o governo. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

[11] Robert Kurz, Ontologia negativa. Revista Krisis, n 25, 2002.

[12] Koselleck chama esses conceitos de conceitos de expectativa.

[13] Francis Fukuyama, The end of history and the last man. Nova York: The Free Press, 1992, p. 276.

[14] Paulo Arantes, O novo tempo do mundo, op. cit., p.78.

[15] Karl Marx, O capital: crítica da economia política. Livro primeiro – o processo de produção do capital, trad. bras. Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013, p. 377

[16] Ibid., p. 390

[17] Robert Kurz, Crise do valor de troca. Rio de Janeiro: Consequência, 2018.

[18] G.W.F. Hegel, Elements of the philosophy of right. Cambridge: Cambridge University Press, 1991, p. 239.

[19] Por essa razão, o modelo de crítica que busca contrastar a efetividade das sociedades capitalistas com seus fundamentos normativos, predominante hoje em certos nichos da chamada teoria crítica, nos parece completamente impotente.

[20] Thiago Canettieri, A condição periférica. Rio de Janeiro: Consequência, 2020.

[21] Paulo Arantes, “A fratura brasileira do mundo”, in: P. Arantes, Zero à esquerda. São Paulo: Conrad, 2004.

[22] Jean Comaroff e John Comaroff, Theory form the south. Londres: Routledge, 2011, p. 25.

[23] ​​UOL, “Bolsonaro vê críticas injustas por desmatamento: ‘Europa é seita ambiental’”, 16 de julho de 2020. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2020/07/16/bolsonaro-ve-criticas-injustas-por-desmatamento-e-uma-briga-comercial.htm Acesso em: 28/02/2022.

[24] Volodymyr Ishchenko, A Russian Invasion of Ukraine Could Destabilize Russia’s Political Order. Disponível em: https://lefteast.org/russian-invasion-could-destabilize-russias-political-order/ Acesso em 08/03//2022.

[25] Guy Standing, O precariado: a nova classe periogosa. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.

[26] Oliver Nachtwey, Germany’s hidden crisis: social decline in the heart of Europe. Brooklyn: Verso, 2018.

[27] Christophe Guilluy, La France périphérique: comment on a sacrifié les classes populares. Paris: Flammarion, 2015.

[28] Thiago Canettieri, Uma maldição tropical: notas sobre o devir-periferia do mundo. Revista Porto Alegre, 01 de outubro de 2020. Disponível em: http://revistaportoalegre.com/uma-maldicao-tropical-notas-sobre-o-devir-periferia-do-mundo/ . Acesso em 22/03/2022.

[29] Robert Kurz, A democracia devora seus filhos. Rio de Janeiro: Consequência, 2020.

[30] Cf. Theodor Adorno, O novo radicalismo de direita. São Paulo: Editora Unesp, 2020.

[31] Gabriel Feltran, Formas elementares da vida política. Blog Cebrap, 2021. Disponível em: http://novosestudos.com.br/formas-elementares-da-vida-politica-sobre-o-movimento-totalitario-no-brasil-2013/ Acesso em: 08/03/2022.

[32] Marildo Menegat, As epístolas de Paulo aos seus discípulos, Revista Cult, v 272, 2021.

[33] Theodor Adorno e Max Horkheimer, Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 2007.