Contra as Medidas Brancas da Razão

 

 

Em seu artigo sobre racismo e sexismo na cultura brasileira, Lélia Gonzalez começa o texto descrevendo um evento acadêmico organizado por 'brancos legais' para falar de pessoas negras, mas estas eram apenas convidadas a assistir. O evento acaba gerando indignação entre os negros presentes, que na descrição da Lélia é algo como um alvoroço, um fuzuê, uma baderna. A Lélia não diz que aquelas pessoas negras tomaram a palavra e argumentaram logicamente contra aquela situação. Ela descreve algo como fazer um escândalo, causar um barraco, algo assim. A primeira vez que li isso, me chamou atenção. Parecia remeter a situações familiares do contexto onde cresci, mas só depois de leituras de autores como Denise Ferreira da Silva e Frantz Fanon eu pude entender melhor.

Lembro do capítulo 5 do livro Pele Negra, Máscaras Brancas de Fanon, que diga-se de antemão, foi uma tese de doutorado rejeitada pelos brancos na França. E lembro aqui o quanto esse texto é eloquente, afetivo e poético. Nesse capítulo, Fanon diz que para ele a argumentação racional, neutra e objetiva exigida pelos brancos não foi possível. Ele diz que poderia apresentar todos os bons argumentos que um branco apresentaria, mas em seu caso seria rejeitado por causa da sua condição de sujeito racializado. Fanon diz que para ele a objetividade não foi possível. Fanon diz também como é atribuído ao sujeito racializado os caracteres da natureza, da força, da emoção, da paixão, enquanto que a branquitude se apropria da razão. É nuito forte como Fanon faz uma quebra no meio desse capítulo se lançando aos ritmos do cosmo, suspendendo o silenciamento que lhe era imposto.

Em seu livro Towards a Global Idea of Race, infelizmente ainda sem tradução para o português, Denise Ferreira da Silva diz que a branquitude é tida como o significante da transparência e a medida universal da razão. O caso do direito, tema tão abordado por Silva, é paradigmático nesse sentido, principalmente por sua modulação corporal. O direito torna visível corporalmente essa exigência de que seja necessário vestir uma certa roupa culturalmente determinada e se colocar à mesa para arguir conforme certos métodos exigidos por todo seu aparato normativo, tradicional e institucional.

O segundo episódio da série Small Axe (2020), produzida por Steve McQueen, traz uma interessante demonstração disso. O episódio mostra um caso de judicialização de um conflito racial e ali a corporeidade branca do direito é o tempo todo confrontada com a intervenção de corpos negros numa corte judicial. A cena expõe como aquela branquitude letrada e culta não vai por ela mesma usar diretamente dos recursos de coerção para aqueles que não cabem em sua medida. No caso, isso é deixado para a polícia. A branquitude letrada dissimula sua relação com a violência. Os brancos não vão perder a elegância, mas eles têm quem faça o serviço sujo para eles. Mesmo que eles não mandem. Não precisam mandar. Eles vão se proteger e sabem que o próprio sistema social vai protegê-los também pela sua própria reprodução.

No caso do Brasil, é comum que homens brancos usem como forma de desqualificação os atributos contrários ao bom uso da razão. As mulheres histéricas, as bichas depravadas, as negras barraqueiras, os nordestinos grosseiros, os indígenas preguiçosos. Não preciso dizer o óbvio que todas as pessoas não brancas são completamente capazes de fazer uso dos modos lógicos e argumentativos da razão e só sinto necessidade de desdobrar essa parte para dizer que fazem isso com atenção a muitos problemas ignorados pela maioria dos intelectuais brancos. Mas essa exigência que um corpo se expresse de acordo essa medida universal da razão, da educação e da elegância talhadas aos moldes europeus, é uma violência. Para quem negaram os meios de desenvolver o domínio e a prática do discurso intelectual e científico, é um processo sofrido para acessá-los. Experimentei isso na minha trajetória e para os meus pais que trabalharam dobrado para eu conseguir estudar, isso foi ainda mais difícil.

Tem algo que Silva chama de dialética da racialidade e que consiste nessa interrogação sem fim sobre os porquês das diversas violências e desigualdades raciais. Certas verbalizações parecem atualizar estruturas sociais muito mais abrangentes do que aquele momento e relação específicos em que acontecem. Estruturas que se forjam no atrito das relações, como o livro Racismo Estrutural de Silvio Almeida expõe muito bem. Agressões verbais que reproduzem racismo, elitismo, machismo e homofobia emergem no atrito do encontro entre corpos diversos. É nesse encontro que os contrastes entre corpos moldados socialmente de formas diferentes emergem. Isso está pra além da consciência e mesmo que se leia muitos livros sobre estes problemas, ainda é possível cometer erros grosseiros assim. Na minha trajetória, enquanto pessoa nordestina, sertaneja e não branca, experimentei discursos preconceituosos que vieram de pessoas que são acadêmicas e que se consideram de esquerda e contrárias a estes tipos de discursos. O espaço acadêmico muitas vezes pode ser um espaço opressor para quem veio das periferias, da escola pública e de um sistema de ensino precário.

Séculos de colonização e escravidão produziram um inconsciente social que codifica os corpos em hierarquias perversas. Não surpreende que na relação com pessoas brancas de classe social mais privilegiada esse fundo histórico se reatualize e não dá para negligenciar a responsabilidade com isso. Num contexto intelectual e institucional majoritariamente controlado pelos brancos, que detêm os meios de produção e circulação do trabalho intelectual, nós que viemos de contextos menos privilegiados se sentimos às vezes culpados por questionar tudo isso quando também precisamos desses espaços para florescer em nossas vocações. Mas não queremos acessar estes espaços de uma forma que nos violente subjetivamente, que nos faça ter vergonha do nosso jeito de falar e se expressar, que nos destrói a autoestima por não dominarmos o que não tivemos a oportunidade de aprender a dominar, e sobretudo, que ignore nossa potência. Não queremos meramente aprender e ter que se encaixar num modelo que sempre nos causou tanto sofrimento e que fez tantos de nós desanimar e desistir. Queremos criar outras medidas de consistência. Queremos fazer ciência com rigor também, mas cuja eficiência aponte em outra direção.

O momento em que chegamos a ocupar espaços nas instituições científicas se prolonga por algumas décadas e nos defrontamos com uma tradição que se estende por séculos. Eu nunca deixei de ler essa tradição, mas questiono muito por que só ela é lida. Não deixo de prestar atenção na produção de pesquisadores brancos, mas fico triste e indignado que nós não brancos sejamos tantas vezes ignorados. E repito, uma obra magistral como Towards a Global Idea of Race da Denise Ferreira da Silva, publicada em 2007, não tem tradução no país de origem da autora, uma mulher negra que cresceu numa favela do Rio de Janeiro e hoje é diretora de um instituto na Universidade de British Columbia no Canadá.

Nós, pessoas não brancas, herdeiras da violência e exploração colonial, somos as maiores conhecedoras da tradição ocidental e suas formas de pensamento. Está tudo marcado na nossa carne, nas nossas histórias e trajetórias e em nossas dores. Somos profundamente intelectuais. Conhecemos mais do que ninguém os efeitos da história intelectual que vai de Platão a Kant e de Aristóteles a Hegel. Sabemos muito bem o que as formas institucionais forjadas nessa história nos fez. Somos grandes conhecedoras dessa biblioteca que sempre esteve distante de nossas casas e de portas fechadas para nós. Lemos essa tradição melhor quando não conseguimos entender seus códigos autorreferentes e percebemos que ela nos arrancou todas as condições de formação para entendê-la e nos culpou por não podermos lê-la. É na nossa incompreensão dela que entendemos melhor o que ela diz.

Não abriremos mão de acessar esses meios de produção intelectual e criativa, mas não podemos reproduzir essa mesma medida em que nunca coubemos e que exclui a contribuição de saberes e perspectivas que não se expressam do jeito que a tradição ocidental branca exige. Criar outras medidas não é tarefa simples, mas é o desafio de uma filosofia que pretende ser decolonial, que tem como matéria-prima para sua elaboração as ruínas deixadas pela colonização, os rastros de tradições quase apagadas, estórias contadas por pessoas mais velhas, narrativas e documentos históricos para serem lidos à contrapelo. Perceber na carta de um senhor de engenho os traços de quem não escreveu, mas deixou como registro o incômodo, a baderna, o fuzuê, aquilo que Gonzalez contou, aquilo que eles têm que registrar contra a própria vontade pois constitui um acontecimento e acarreta efeitos históricos.

Porém, a decolonialidade que vejo circular por aí tende a mudar os enunciados teóricos mas mantém os sujeitos da enunciação e seus lugares de privilégio. No Reino Unido, há também britânicos fazendo teoria decolonial, além desta ser um discurso comum de encontrar entre brasileiras(os) brancas(os) de origens sociais privilegiadas economicamente, mas que não tem caminhada nenhuma com a periferia. Para mim, se tornou difícil levar isso à sério.

Não quero invalidar a contribuição teórica de quem vem de posições sociais mais privilegiadas, mas é importante questionar como o discurso de decolonialidade por parte de pessoas de tais contexto se apropria da experiência e luta de pessoas não brancas e pobres que há poucas décadas têm tido mais chances de ocupar um espaço de produção intelectual que a colonialidade manteve exclusiva aos brancos. Falar de colonização para nós é muitas vezes falar dos nossos pais e avós e dos lugares onde crescemos. É possível fazer análises riquíssimas da realidade e produzir conceitos que contribuam com as lutas dos de baixo sem dizer que está descolonizando algo quando colonização é sempre essa apropriação e obliteração do que corpos colonizados produzem com suas vidas.

Quanto aos de baixo, sou a favor da devoração total sem culpa de nada. Nossa conta já está paga pelo trabalho de gerações de desvalidos. Temos mais é que conhecer e se apropriar de todo conhecimento mesmo. Mas sobretudo temos que ser justos com nossa própria trajetória.

Aos de baixo desejo liberdade e muita criatividade para fazer o que não conseguimos fazer nos lugares onde crescemos, onde somos cruelmente reprimidos pela família e sociedade e onde não há qualquer incentivo econômico para a criação. Já basta enfrentar tudo isso. E que jamais nos culpemos pela nossa curiosidade, instiga e criatividade. Se tem uma coisa poderosa para enfrentar tanta pressão e privação para seguir buscando, essa coisa é o sonho e a paixão insubmissa. Isso nos leva longe. E quando chegamos longe, muitas vezes sentimos culpa e dor pela distância. Até que entendemos que é cruel sofrer pelo que se conquista com tanta luta.

Porém, é importante entender que nosso lugar de fala nos situa, mas não nos limita. Podemos até mudar de planeta, mas não vamos deixar de ter vindo de onde viemos e ter passado por tudo que passou para chegar aí. Temos toda liberdade de ser o que quisermos sem vergonha do que já fomos. Mas se quisermos realmente que outres de nós não passem mais pelas mesmas dificuldades que passamos, então não dá para se deixar enganar pelas moedas de prata que caem do caldeirão de merda do capitalismo. Lembremos Fanon novamente quando ele questiona o nosso desejo de ser branco, pois é o que somos ensinados a ser por sobrevivência e por inclusão social naquilo que nos excluiu como somos de fato. Esta tarefa não é fácil. Não cabemos nas medidas desse sistema perverso. Às vezes cortamos até pedaço de nós mesmos para caber, mas só dói e nunca cabemos. Temos que criar nossas próprias medidas nesse não lugar de não caber onde se chega nem de onde se saiu.

Mas uma dica que dou por experiência própria para aqueles que vêm de contextos periféricos é: se apropriem mesmo de outras línguas, métodos e teorias de toda tradição ocidental. Ainda é muito difícil se inserir nessas instituições científicas sem disputar nos termos que elas exigem. Nosso desafio é duplamente mais difícil que o de pessoas brancas que já ocupam essas instituições há séculos, pois temos que dar conta dos termos deles e ainda dar conta de toda nossas histórias que não cabem nesses termos. Para mim, quem primeiro fez isso muito bem foi Fanon quando conseguiu colocar as dificuldades que enfrentou para fazer pesquisa em confronto com a teoria, transformando tanto o material vivido quanto o material teórico. Mas hoje já temos mais uma gama de autoras e autores não brancas, que saíram de lugares marginalizados pelo sistema capitalista, para ler e pensar junto. Embora ainda não tenhamos mais espaços que sustentem o tempo da criatividade e onde não temos que ficar se debatendo com exigências metodológicas e teorias que só nos alienam das nossas próprias realidades e questões. E é difícil construir sobre as ruínas quando se tenta também sobreviver no que as produz. Seguimos sonhando.

Por fim, lembro uma comunicação apresentada pelo escritor angolano Manuel Rui a um seminário de literatura negra no Brasil em 1985. Rui falou de ter vindo de um povo de tradição oral, mas descobriu a escrita apontada contra ele. Ele se apropria dela, vira a boca do canhão para o outro lado e assim nos fazemos os sujeitos da narração.

                                                               

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Renan Porto é pesquisador, ensaísta e poeta. Faz doutorado em direito na Universidade de Westminster, onde está trabalhando numa pesquisa sobre justiça espacial em torno da produção de cacau no sul da Bahia, região onde cresceu. Publicou o livro de poemas O Cólera A Febre (Urutau, 2018) e o livro de ensaio Políticas de Riobaldo: a justiça jagunça e suas máquinas de guerra (Cepe, 2021).