As palavras, as coisas e os encostos
Maria Cristina Franco Ferraz e Ericson Saint Clair


No segundo turno eleitoral que se aproxima, constata-se uma deliberada instrumentalização de afetos tristes: medo, insegurança, frustração, ressentimento, angústia. Como já sabido, para produzir e gerir corpos exauridos, esses afetos são estimulados de modo ininterrupto. Dando voz e vazão a eles, em vez de cura, promete-se o empoderamento da e na própria impotência. Como forças vitais que também são, as palavras se veem acossadas pela produção incessante e cotidiana de balbúrdia no campo dos sentidos. Formas de expressão têm sido sequestradas para canalizar esses afetos, encravando as feridas mais profundamente nos corpos.   

 

Uma das manifestações mais recorrentes desse método é a apropriação fascistoide de palavras como liberdade, povo, democracia. Articulando morte e propagação de duplos, essa estratégia fascista subverte e assombra seu potencial insurgente, solapando sentidos históricos aninhados nessas palavras. Como se fossem encostos, forças destrutivas se apoderam das palavras para lhes insuflar todo tipo de negatividade, minando sua afirmação vital. Desse modo, por exemplo, povo é povo de Deus em um sentido excludente; liberdade se traduz (e trai) como ausência de valores, em um vale-tudo cínico, niilista.

 

Esse encosto empobrece a linguagem em sua força ético-política, sob o modo de clichês insistentemente repetidos e disseminados, especialmente em redes sociais. Esse sinistro encosto também se expressa nas perspectivas negacionistas alavancadas pelos regimes de extrema direita. Essas perspectivas funcionam como inquietantes e ominosas sombras que corroem por dentro a possibilidade não apenas do efetivo debate de ideias, mas da própria inventividade na criação de sentidos e valores. 

 

A banalidade dos clichês funciona como um eficiente policial guarda-costas contra afetos alegres, contra a imaginação e o alargamento das perspectivas. A estreiteza da fala, do uso da língua, implica a pobreza de mundo. Ou melhor, de mundos. Guarda-costas contra o pensamento; portanto, contra o outro, a diferença – e a própria realidade. Nesse sentido, podemos afirmar que mundos construídos sobre clichês, conforme ressaltou Hannah Arendt, retiram o chão sobre o qual viceja a vida. Estrangulando a potência vital, a assombradora produção de duplos e de mundos paralelos torna a vida – humana, animal, vegetal – insustentável. Daí o nauseabundo odor de morte que invade a atmosfera política bolsonarista. Esse odor de morte também é exalado pela destruição da potência criadora da linguagem.

 

Tais sentidos espectrais, em sua insistência e estridência, funcionam como encostos que parasitam e sugam a potência vital que, historicamente, já se expressou em palavras como liberdade e povo, quando acionadas por perspectivas contestatórias e insurgentes. Como inquietante produção de duplos e encostos, essa operação visa destruir e esmagar a vida, inclusive a vitalidade da linguagem, através da incessante produção de slogans e clichês parasitários disseminados por rebanhos de zumbis. Associada à morte, assombra como Revenant um país que nunca passou efetivamente a limpo sua história de violência colonial, escravagista e ditatorial. Não se trata de denunciar meramente a corrupção de sentidos supostamente fixos, puros e indisputáveis das palavras por novos fascistas, mas de refletir sobre essa prática e suas implicações para a corrosão da vida insurgente que dela sempre pode se apropriar. 

 

Na contramão da relação banal com a palavra, a compreensão da natureza necessariamente ético-política da língua informa a astuta estratégia de esburacar a língua oficial brasileira, reativando sua potência criadora. Como sugeriu Deleuze, no início dos anos 1990: “criar vacúolos de não comunicação, interruptores, para escapar ao controle”.

 

Como também compreendeu Ivinimpapa, da etnia Marubo, habitante do Vale do Javari, onde o indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips foram assassinados: “Palavras vazias devem ser ditas, algumas têm de parecer não fazer nenhum sentido, de propósito: não temos que dizer tudo a quem sempre mostrou querer nossa extinção”.

 

Mais do que nunca, precisamos nos livrar dos encostos: as eleições por vir prometem lavar com sal grosso nossas palavras, nossos corpos, nossas vidas.