APOLOGIA DE KEILA SIMPSON

 

Rafael Leopoldo

 

            Keila Simpson, ativista e presidenta da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), foi convidada a participar do Fórum Social Mundial, no México, para palestrar sobre Direitos Humanos. Simpson foi inadmitida e considerada suspeita por sua documentação oficial e sua composição corporal. Para Simpson, a ação do aeroporto internacional da cidade do México teve um nítido cunho transfóbico.

            A respeito da documentação, é necessário lembrar da distinção entre o nome social e o nome civil. O nome social é aquele pelo qual a pessoa deseja ser tratada; o nome civil envolve o registro oficial e a anuência estatal. As lutas das resistências trans e travestis conquistaram, em 2018, a possibilidade do uso de um novo nome civil de acordo com os parâmetros do Estado.

Simpson afirma que os motivos para se retificar o nome ou não são de cunho pessoal. Porém, a sua postura foi a de pontuar que manter o nome é correlato à postura política e ética de se afirmar como travesti. Com essa atitude, Simpson está numa posição diferente do binarismo homem-mulher. Independentemente do artigo masculino ou feminino que pode acompanhar o seu nome e generificá-lo, ela propõe que se viva e morra como travesti.

Portanto, Simpson tem somente o nome social e não o nome civil. Coloca-se, dessa forma, a questão do reconhecimento social e jurídico e, principalmente, as consequências de não se reportar, em todas as instâncias, aos dispositivos do Estado. No caso de Simpson, é operada uma violência que produz a limitação do espaço geográfico e de direitos fundamentais.

Parece-nos que a ativista foi detida por cerca de dez horas, num espaço semelhante a uma prisão, devido à sua postura política de ser travesti e à incongruência entre o nome e a foto do passaporte. Os admitidos e insuspeitos não apresentariam qualquer incoerência, posto que estão, ao menos temporariamente, numa relação de consonância com os aparelhos de identificação estatal. Todavia, a posição de Simpson, no mínimo, traz à tona uma complexidade maior a respeito do nome e do corpo.

Trata-se de afirmar, numa maior radicalidade, que a ação de Simpson produz uma possível ampliação do que é um nome e um corpo. Essa ampliação não é um assunto específico das dissidências, porque ela aumenta tanto a possibilidade da variabilidade corporal quanto a possibilidade de modificação do estrato social. É interessante uma luta, que poderia parecer personológica e autotélica, poder evocar uma experiência desértica, isto é, a dimensão de um impessoal. Cria-se um espaço do não determinado, um lugar de composição de forças, o ambiente não estratificado que, por sua vez, é um espaço de transição entre o virtual e o atual.

 

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Parece-nos que uma mutação grande acontece no corpo social. A Teoria Queer, no seu início, teve uma forte vocação antinormativa. O filósofo Michel Foucault apontou como a homossexualidade foi inventada. Ele analisou como atos sexuais se transformaram em identidades sexuais. Portanto, afirma-se que a heterossexualidade e a homossexualidade são termos históricos e culturais específicos para categorizar a sexualidade: o primeiro foi dito como norma; o segundo, como anormalidade. Os movimentos de resistência tiveram uma longa trajetória para questionar a produção das identidades que eram pensadas como patológicas. O queer, por sua vez, afirmou a diferença contra, principalmente, o discurso médico, mas não deixou de lado tantos outros discursos que poderiam produzir o sujeito de forma heteronômica.

Pode-se asseverar que um dos primeiros trabalhos de mutação social com uma atmosfera queer foi o distanciamento do discurso médico dos séculos XVIII e XIX. Nesse sentido, poderíamos pensar como determinadas experiências foram classificadas fora do âmbito médico. A Teoria Queer e tantos outros movimentos de resistência fizeram proliferar uma vegetação de nomes para as experiências mais distintas, assim dinamitando categorias estanques. Essa crítica foi elaborada por um tipo de resistência ou intelectual que chamamos de social. 

Parece-nos que o intelectual social não carrega o modelo da consciência universal e nem representa o especialista do particular, mas está envolto nas configurações do socius. O intelectual social não tem como modelo o escritor genial que proclama o universal, nem o especialista notável, mas aquele que produz os processos capilares de resistência. O intelectual social não está preocupado com o jogo de uma verdade universalmente válida, nem somente estar na luta no nível de uma reconfiguração do regime de verdade científico, mas o jogo da verdade parece ser produzido em outro lugar, na própria experiência do sujeito no campo do social. O sujeito não é determinado por uma regra exterior, mas, sobretudo, por negociações através dos outros no campo das lutas.   

Dessa maneira, quando se afirma outra forma de sexualidade ou outro gênero, tem-se – é necessário dizer novamente – uma expansão da variabilidade da experiência, do corpo e do nome. Fracassa-se diante dos dispositivos de normalização, erra-se na produção identitária, fragiliza-se na criação dos nomes. Essa construção que se dá nos escombros do social nega a tutela de âmbitos heteronômicos. Essa produção com as ferramentas sociais do fraco – a sucata social – poderia ser facilmente confundida com o individualismo e um delírio autotélico, posto que uma demanda poderia ser: tirem o meu sexo, o meu gênero e a minha cor dos seus documentos! Todavia, essa demanda não é individualista, mas solidária; não é autotélica, mas comum. Diante de tal demanda, abre-se um lugar para o voo dos sexos, dos gêneros e das miscigenações, sem a necessidade de um passaporte racial e binário.

 

 

Rafael Leopoldo é ensaísta e filósofo. Faz doutorado na Universidade Federal de Ouro Preto. Publicou mais recentemente o ensaio Tango: o baile dos corpos dóceis (Letramento, 2019) e os livros Cartografia do pensamento queer (Devires, 2020) e Transhumanismo: por uma antropologia do futuro (Dialética, 2021).