Aos amigos que dizem “não é fascismo”

  Tales Ab’Sáber

 

            Pode-se sofrer sobre o destino de um texto como se sofre pelo destino de um mundo. Faz tempo se observou a falência de vida e de subjetividade em tempos de festa das coisas sobre os homens e de ordem industrial geral da existência material. Mundo em que lei e violência são uma única coisa, mesmo que em razão desmentida, se você nasceu aqui ou ali do negócio: nosso mundo, entendido como cultura e sua morte programática cosmopolita. Podemos trabalhar, e dissolver mundos e mais mundos, reproduzir injustiça como a coisa em si da própria produção, dar poder a imbecis, quem se apropria do trabalho geral, e quem vive da mão para a boca da última meme sobre o último brother da última hora. Podemos nos camuflar de idiotas, por conveniência ou convicção, e vivermos assim, sobre o regime geral da manipulação e celebração do que é, que evolui, e alcança o estatuto saturado de um regime universal da mentira. As bases de um governo de mentira não são outra coisa senão uma vida de mentira: já diziam as crianças, quando perguntavam aos pais o porquê dos pobres, deixados para trás por nossos carros velozes nas ruas das cidades. Ainda posso até ficar em casa, cercado de livros e de discos, escrevendo para ninguém, aguardando a próxima aula, em que explicarei para o grupo de dez alunos, todos pobres, alguns negros, como o nosso mundo, aquele mundo, acabou sem percebermos. Como o poder está pronto, preparado, para nos tirar até as carteiras em que sentamos. E as palavras de nossas mãos. Como, do ponto de vista dos que se apropriam particularmente do valor de tudo, como valor do seu mais valor, não valemos realmente nada. Tudo aquilo que eles já sabem, pelo tanto que lhes custa a vida, sua dor na carne, apenas para chegarem ao Bairro dos Pimentas e tentarem de algum modo estudar. Escravizados dos séculos XVI a XIX valiam, do ponto de vista do valor a mais, máquina economia mundo, algo mais do que inúteis portadores de direitos de festim do século XXI. Todos nós. Seus corpos eram transformados em ouro, em café e em açúcar para animar outros mundos, tidos por si mesmos como os únicos verdadeiros, calculadamente nesses termos. Cumprido o fado, eram descartados aos milhões. Isso moveu a primeira globalização capitalista de quatrocentos anos, muito produtiva, muito destrutiva. Podemos nos esconder na vida privada, fingindo não estarmos lá, corroída pelas máquinas de dissolução de alma e de espírito até o último segundo do tempo capturado, este celular que me chama à ilusão de participação feliz com uma imagem qualquer, uma corrosão do caráter público qualquer, que me faz exatamente o mesmo que o inimigo. Podemos ler e reler o valor do mundo sobre a forma de livros, que portam o signo da dissolução, cada um deles, todos os que admiramos, todos que falam a verdade. São muitos, são amigos, são múltiplos e configuram um imenso afresco, mosaico, de um único motivo: falsificação, violência e morte, resultam da ilusão de mundos estabilizados para que se viva. Todo fascismo nos lembra isso, antes ou depois de ser percebido, sempre tarde demais. Nos lembra que o mais pleno é o voo rasante do pássaro da morte, aquele rápido instinto na linguagem que não corresponde a nada, que não conhece valor ou lógica, que é pura eficácia como mensagem da técnica do tempo, poder, para nos pôr em choque vazio, entre as metafísicas que já foram e as destruições renovadas de agora. Entre o signo do passado e o assigno, gesto puro de negação e choque de nossas vidas, do presente. A linguagem fascista simplesmente sobrevoa todo valor verdade, é pathos como sadismo, política como delírio feliz, se renova a cada segundo em outros termos, outra história, esperando a hora de uma única verdade humana: o assassinato do não idêntico. Quando o valor de troca do não idêntico, em seus corpos, se esgotou. A linguagem fascista se move, como hordas de bárbaros – o proletariado externo, porém interno, de Antonio Candido – como senhores da técnica do tempo em redes de controle de massas estrito, desejando sangue depois da ilusão excitada da mentira que ultrapassa tudo, e já era, mais veloz do que o cavalo que  ultrapassa o índio, mentira supersônica que já foi e tudo aguarda tremendo, como a miragem do mundo, que se dissolve diante dos olhos: o banho de sangue, desejado por Nossa Senhora Aparecida, diz hipnótica a atriz enigmática e velha, carcomida pela vida, em sua live bolsonarista. Para nossa vida – das nossas faces oferecidas mais uma vez diante do mal, das leis morais em mim brilhando em correspondência com as estrelas que ainda habitam o céu, da razão da ciência que de mãos dadas com a razão do contrato social redesenhará homem e liberdade, da democracia e do respeito de senhores de escravos que precisam de escravizados para serem, dos trabalhadores que lutarão pelo comunismo, do inconsciente do burguês doente, que necessita de um divã bem pago e algum acalanto para o deslocamento de sua pura repetição – tudo se torna excitante diante da potência do nada promovida por nosso próprio mundo. A potência do nada, promovido por milhões de homens comuns e seu mito. A potência de um fascista comum qualquer, que agora mesmo, ali na esquina diz que Lula forçará as crianças a serem trans e mostra cem mil memes dos últimos dez dias, ou anos, que dizem isso mesmo. E por isso, é assim. E por isso, esse gozo da emergência total da excitação da máquina de extermínio, limite do matar ou morrer em que transformou a vida e linguagem ele pode, ele deve, nos matar, por Bolsonaro. O que sempre habitou a guerra, o colonialismo, a escravização, o capitalismo mercantil, o industrial, o cultivo cuidadoso da idiotia e da violência pela indústria da cultura, chega agora, como chegou antes, ao cidadão comum, gente de bem. Como um soldado de Colombo, ele se anima com o extermínio, com o assalto, com o genocídio, com a tortura, com a liquidação de mundos. Sejamos bons índios lúcidos e saibamos o que tudo isso quer de nós. Qualquer coisa entre uma fogueira, um abatedouro, uma morte jogada em algum canto miserável de uma cidade, uma indústria animada do extermínio, cheia de imagens dançantes à venda, que já aconteceu. Acontece que isso acontece. Perfurar um texto, como quem perfura minério sem massa em país bloqueado, é um instantâneo, uma experiência da coisa. Não é solução. Somos produtivos, justos e livres, bem como eles se dizem produtivos, justos e livres. Em que ponto nos diferenciamos? Contribuímos precisamente para nosso fascismo em cada gesto e todo tempo que o reproduzimos como normalidade desejada. Ele é, em sua completa ausência de verdade, verdade do nosso mundo. Curioso, não?