Agora, fogo!

Por uma história popular dos feminismos

 

Elsa Dorlin

 

Fogo!  O “Feu ! Abécédaire des féminismes présents” (“Fogo! Abeced ário dos feminismos atuais”), que soma mais de 700 páginas de 64 contribuições da ofensiva feminista contemporânea, acaba de ser publicado pela Éditions Libertalia, com a apresentação da filósofa Elsa Dorlin -- também organizadora da edição.

O projeto de publicar uma obra coletiva sobre a história atual dos feminismos é marcado pelo renascimento de um movimento que tem o #MeToo como um de seus acontecimentos mais marcantes. A impressão de uma “renovação” pode ser enganosa: as mobilizações em combate à violência contra as mulheres têm sido uma constante por décadas (séculos!) dentro dos feminismos. Por trás da onda feminista que conhecemos desde o final dos anos 2000, a mobilização afetou intimamente diversas mulheres em escala global que, como um eco, apoiaram-na e a retransmitiram de forma ampla. As estruturas do debate mudaram consideravelmente; a própria linguagem, utilizada para qualificar o heterossexismo, para constitui-lo como fato social, para retirar os feminicídios, estupros, assédio sexual, incesto da rubrica de simples “notícias diversas”, foi reformulada graças à coragem das vítimas, graças aos militantes, às pensadoras e às mobilizações. Ao longo de algumas das décadas da história atual, esta obra trata talvez da parte mais submersa do movimento; aquela que fabrica uma revolução feminista no dia a dia, que não deixa nada passar; que também faz desse movimento histórico, social e intelectual uma ética de vida, uma prática cotidiana de autodefesa, um foco agitado de contestação de todas as camadas da sociedade.

No final dos anos 1990 e nos primeiros anos 2000, uma nova "onda" feminista emergiu nas redes sociais, dentre os coletivos recém-criados, nas universidades, nas ruas, nas  manifestações: ela recolocou questões relativas ao corpo e sexualidade, as conexões ou conflitos entre os direitos e liberdades das mulheres e nacionalismos, racismos e imperialismo, identidades de gênero, violências sexistas, lesbófobicas, transfóbicas, estupro, masculinidades e masculinismos, crimes de guerra, a divisão sexual/racial do trabalho e neoliberalismo globalizado, a questão do cuidado e da experiência vivida, da laicidade e do Estado patriarcal, enfim, da a descolonização necessária do sujeito político do feminismo (quem é este “Nós” de “Nós, as mulheres…”?). Num contexto em que o desenvolvimento da internet renovou consideravelmente as modalidades de difusão e mobilização feministas -- sua agenda e seu repertório de ações -- e no qual o próprio anti-feminismo se reafirmou e se reorganizou, o ponto de inflexão dessas últimas décadas reside na repolitização sem precedentes das violências, desigualdades e discriminações sexistas, que agora são publica e  esmagadoramente nomeados e denunciados como pertencentes a um sistema patriarcal contemporâneo. Falar (novamente) em “patriarcado” e não mais em “dominação masculina” é apontar aquilo que, tanto na sociedade como no Estado, se aninha no centro do neoliberalismo e nas questões globais de reprodução das nossas condições de vida, decorrendo de uma violência estrutural contra mulheres e minorias sexuais e de gênero. Essa violência é combatida até naquilo que garante sua licitude cultural, função ideológica, eufemização ou erotização midiática, objetivação política, desqualificação judicial; até nos seus fundamentos e interesses materiais, socioeconômicos, que garantem a sustentabilidade da exploração e da brutalização. Por isso esse feminismo é radical, porque vai à raiz do problema, como resume de forma simples esta postagem feminista viral, censurada no Twitter: “Como  fazer para os homens pararem de estuprar?”. O feminismo se levanta, forma um corpo contra o que perpetua uma poderosa desrealização social e cultural do continuum das violências econômico-sexuais; contra o que também deveria ser chamado de terrorismo patriarcal que mata dezenas e dezenas de mulheres e meninas todos os anos, deixando milhares e milhares de vítimas de estupro, abuso e incesto.

Faltam imagens; essa "onda", esse maremoto feminista, é em grande parte marcado por uma nova geração, novos espaços e ferramentas de expressão, mas a "onda" veio de muito, muito longe: ela amplifica o ímpeto, leva o fôlego de grupos, de posicionamentos, de tendências parcialmente existentes dentro dos feminismos históricos, frequentemente esquecidos, marginalizados ou subestimados. Reconectar-se a essa genealogia é também uma forma de reparação, de justiça, de cuidado com as mobilizações presentes e também com aquelas que as tornaram possíveis.

Durante essas duas primeiras décadas do ano 2000, nossos levantes reacenderam e escavaram outras fontes, outras histórias e outras geografias das lutas feministas. Eles reafirmaram  o internacionalismo do movimento -- cujo ápice foi tanto o conjunto de mobilizações em torno de #MeToo ao redor do mundo quanto as ações diretas incendiárias dos movimentos feministas latino-americanos contemporâneos --, que se recentraram, se reestruturaram a partir de outros espaços de luta que provincializaram os movimentos brancos dos Estados Unidos e europeus: o feminismo negro, diaspórico, zapatista, curdo, indiano, decolonial, caribenho, coreano, tunisiano, muçulmano, sul-americano, africano ocidental... Ao mesmo tempo, seu poder de disseminação "local" em grupos feministas, nas ações feministas relacionadas à saúde (autoconhecimento, mobilização contra a violência ginecológica, grupos de saúde comunitária), moradia e meio ambiente (comunidades indígenas, ecofeministas, periféricas ou camponesas, casas de aposentadas feministas e coletivas, ocupações feministas, ZAD[1]), na cidade e na rua (manifestações noturnas, marchas exploratórias, luta contra o assédio no espaço público, intervenções urbanas), no trabalho (greve internacional de mulheres, mobilizações de camareiras em grandes grupos hoteleiros, movimento de ocupação de trabalhadores e camponeses em Delhi), no direito ao aborto, à maternidade e a outras concepções do família, na solidariedade entre as vítimas, no cuidar da vida de cada uma. Tudo isso assumiu a forma de movimentos ligados à auto-organização, autodeterminação e autoformação, como em bairros populares, em grupos de apoio, oficinas em grupos selecionados não mistos (autodefesa, grupos de conscientização, bibliotecas solidárias, coros e orquestras, criação e produção de fanzines, ladyfests, queerfests, formação em mecânica, carpintaria), em fóruns e universidades, em eventos anticapitalistas, movimentos sindicais e sociais, coletivos de luta contra a violência policial, em resenhas e revistas, na rede e na TV, na grande mídia. A revolta está em toda parte...

Essa efervescência de um feminismo de expressão multifacetada sem precedentes, possibilitada pela renovação de gerações, a consciência intersetorial e a auto-organização em escala mundial, também foi possível graças ao crescimento das correntes mais anônimas (fórum de discussão na Internet, associações de bairros e aldeias, cooperativas, oficinas de “faça você mesma”, marcha de mulheres com coletes amarelos) que não têm necessariamente o rótulo feminista, mas que convergem para formas igualmente fundamentais de emancipação. É a essa efervescência, a essa conflagração, até agora relativamente ausente de uma historiografia oficial do feminismo, que este livro coletivo é dedicado.

Com referência à obra de Howard Zinn (Une histoire populaire des Etats-Unis, Marseille, Agone, 2003 [1980]), este livro oferece uma história popular do feminismo, dos feminismos dos últimos vinte anos, dando três passos adiante. O primeiro é distanciar-se de uma historiografia que se deva principalmente à cronologia oficial da conquista dos direitos sociais e políticos das mulheres ou de grandes personagens heroicas ou excepcionais. Os panoramas fazem parte de uma obra fundamental que precisava ser empreendida para remediar o puro e simples apagamento das mulheres como sujeitos da história, mas eles também podem suavizar, e até cobrir, uma parte mais subterrânea das lutas, a densidade mais complexa da história.

Como aponta a historiadora Joan W. Scott (Théorie critique de l’histoire, Paris, Fayard, 2009): nossas histórias feministas às vezes derivam da "fantasia ecoante", da unificação e  uniformização imaginária ou imaginada de grandes figuras ou mobilizações, e acabam se assemelhando a uma narrativa linear rumo a uma igualdade que decorre mais de uma palavra mágica (igualdade em quê, para quem, com quem?), quando não se resume a slogans publicitários vazios sobre a "igualdade de gênero", ainda obstinadamente apresentado para nós como a única finalidade desejável – ora, as versões bem pensadas de sucessos de bilheteria sobre super-heroínas ou líderes empresariais excepcionais do CAC40[2] nunca nos fizeram sonhar.

A história do feminismo deve ser a história dos feminismos, de suas correntes, de seus antagonismos. Essa história não é homogênea nem cumulativa (certas conquistas às vezes são envenenadas e a maior parte delas são ainda e sempre ameaçadas, achatadas ou ridicularizadas), nem tampouco "pura": o rótulo "feminista" tornou-se objeto de uma guerra sem fim nos últimos anos, a fim de excluir reivindicações, grupos e mulheres que não estariam  "se libertando" da maneira correta. Pelo contrário, esta história é densa, emaranhada, minada permanentemente pelo esquecimento e pelos golpes brutais do patriarcado, por vezes atravessada por conflitos sororicidas, interesses divergentes, diferentes formas de tomada de consciência e visões de mundo, e uma constelação de mobilizações mais ou menos convergentes.

Este livro coletivo também parte de uma segunda constatação: não começar do zero. Começar não a partir do  zero, mas "de baixo", da vida dos coletivos, da comunidade, da afinidade, dos "Nós …" que são situados, muitas vezes anônimos, festivos, criativos, subversivos ... Não se trata aqui de reivindicar fazer a história de um feminismo “popular”, mas de fazer uma história popular dos feminismos. Daqueles que são escritos a partir da conflitualidade de classes, das culturas de luta e de sobrevivência, das revoluções e das condutas desviantes. Uma história da qual fomos trabalhadores e lutadores, os apoiadores e o coro, as  escritoras e as narradoras. Complexidade, conflitualidade, solidariedade, autodefesas sem nome e sem etiqueta, isso é o que caracteriza esta história popular do feminismo atual.

Último passo à margem: a história presente. Este livro pede a reabertura dos arquivos cinzentos e dos arquivos vivos das lutas travadas desde os anos 2000 e em curso, para com eles experimentar uma forma diferente de escrever nossas histórias mais antigas e de refletir sobre elas. Ele abarca os últimos vinte anos e, sem nenhuma pretensão a ser exaustivo, visa abrir brechas no nosso passado, horizontes nos nossos devires e nas perspectivas respiráveis ​​aqui e agora. Os últimos anos foram oficialmente aqueles em que o “feminismo” foi esgarçado e dividido em quatro ou cinco grandes debates e questões: as identidades de gênero, a prostituição, os direitos reprodutivos (notadamente a PMA[3] para todas), a laicidade e a República, o racismo e os problemas interseccionais. Embora estes debates sejam objeto de profundos antagonismos, eles também são encenados publicamente como cismas, impondo termos diversos e uma estrutura teórica empobrecedora e exaustiva. A ideologia patriarcal promove especificamente um “feminismo” burguês de boa aparência, capitalista, lucrativo, filantropico e masoquista, para melhor tornar irreais as experiências vividas de violência, erotizar a dominação e tornar as normas de gênero lucrativas como marcas registradas, rotular um caminho universal de emancipação e marginalizar, criminalizar movimentos que ateiam fogo ao patriarcado. E este goza ao extenuá-los com golpes de cinto ou cassetete, obrigando-os constantemente a provar, justificar, explicar, educar; lutar em um mundo desfigurado, uma consciência de si rasurada, beber da raiva para inventar outros imaginários, outros gestos, outras ideias, outros afetos, outras armas. Então, agora, fogo! Os feminismos narrados neste livro são  braseiros ardentes, contrafogos em um mundo carbonizado por todos os lados pelo patriarcado, isto é, pelo neoliberalismo autoritário e repressivo, pelo racismo mortífero, pelo imperialismo ecocida.

Em vez de reduzir o feminismo às demandas feitas ao Estado, ao patrão, ao chefe ou ao pai, por mais leis, mais "segurança", para ser apenas o porta-estandarte ou um disfarce do capitalismo, deste ou daquele governo nacionalista, essas histórias dos feminismos atuais relembram e fazem ressoar juntas nossas vidas feministas. Este livro funciona como um abecedário, um manual, uma caixa de ferramentas, um dicionário amoroso, no qual trocamos ideias, calibramos as armas,  escutamos diversas vozes, compartilhamos experiências e práticas, vibramos para as lutas emergentes. É dirigido a todes: contém recursos e abunda em referências e noções úteis, mas é fabricado por peles e vozes, por pontos de vista situados baseados nos feedbacks de experiências coletivas, itinerários políticos e íntimos, reflexões e retrospectivas sobre  percursos, engajamentos, revoltas e esperanças. Pluralizando os estilos, colocando-se ao mesmo tempo ao lado da teoria e da prática, da criação, dos escritos a partir de um "nós" e de um " eu",  o livro testemunha a força de uma abordagem feminista da história intelectual e política. Ele é dedicado a todas as lutadoras anônimas  do quotidiano diante das mais covardes violências, àquelas que incendeiam os tribunais, que quebram os joelhos e estilhaçam vitrines, àquelas que inventam mil táticas imperceptíveis para sobreviver e se abrigar, à memória daquelas cujos nomes cobrem as paredes de nossas cidades à noite, à potência dos coletivos que se formam, aqueles que se separaram, que se (re)constituíram em outro lugar ou de outra forma, ao que nos conecta.

 

Elsa Dorlin é professora de filosofia política na Universidade Paris VIII. Publicou Autodefesa: Uma filosofia da violência (Crocodilo – UBU, 2020), pesquisa que lhe rendeu o Prêmio Frantz Fanon em 2018.

 

 

Tradutoras:

Bruna Martins Coelho . Doutoranda em filosofia pela Université de Paris 8 – Vincennes – Saint-Denis.

Cecilia Rosas . Tradutora, mestre e doutora em Literatura e Cultura Russa pela Universidade de São Paulo. É integrante do Coletivo Sycorax, que traduziu três livros de Silvia Federici. Entre suas traduções mais recentes estão A guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Aleksiévitch (Companhia das Letras, 2016) e Viagem sentimental, de Viktor Chklóvski (Editora 34, 2018).

Maria Fernanda Novo . Pós-doutoranda em filosofia na USP e professora de filosofia.

 



[1]        O termo “zona à défendre” (ZAD, zona a defender) é um neologismo militante usado na França, Bélgica e Suíça para designar uma forma de ocupação realizada com motivação política, sobretudo em áreas rurais (o também em algumas ocupações urbanas, por exemplo em Rouen ou Décines-Charpieu). Essas ocupações se constituem em oposição a um projeto de desenvolvimento e para implantação de modos de vida autônomos. Embora não exista um número oficial, no início de 2016 havia entre 10 e 15 zonas a serem defendidas na França.

[2]        O CAC 40 é o principal índice do mercado acionário da Bolsa de Valores de Paris.

[3]        PMA designa a reprodução assistida, técnica médica que foi objeto de uma luta política pela expansão do direito de todas as mulheres cis à acessar a este recurso reprodutivo, expandindo-o às homossexuais e homoparentais.