AFROCONFLUÊNCIAS DE RICARDO REIS

Rafael Matede

 

 

Ao amigo Zé Miguel Wisnik

 

O primeiro heterônimo de Fernando Pessoa se revelou num dia de março, em 1914. De pé junto à escrivaninha, tomado por uma espécie de transe poético, Pessoa cedeu a pena a Alberto Caeiro que escreveu, de uma vez, os mais de trinta poemas que compõem O guardador de rebanhos. Para Pessoa, Caeiro era o Outro que surgia como seu próprio mestre e não como mera expressão de seus sentimentos e ideias. A prática da heteronímia revelou também Ricardo Reis, discípulo de Caeiro que tomou a sério o neopaganismo do seu mestre ao reativar o politeísmo da Grécia Antiga, nas antípodas do monoteísmo cristão, como resposta ao niilismo de sua época. Para Reis, diferentemente do sujeito separado de sua própria potência pelo pacto de transcendência estabelecido no Ocidente, as divindades gregas eram imanentes a si, como ele dizia: “os deuses são deuses porque não se pensam”.   

Já que Pessoa ficcionou Ricardo Reis morando um tempo no Brasil, vale imaginar também, como ficção da ficção, o seu encontro com as divindades vivas do candomblé nos terreiros da Bahia. Semelhante encruza seria análoga àquela outra imaginada por Leminski, no Catatau, sobre a vinda de Descartes ao Brasil na comitiva de Maurício de Nassau. É uma hipótese verossímil porque Descartes era próximo a Nassau. De fato, poderia ter ocorrido a deriva não cartesiana de Descartes nos trópicos, depois de fumar maconha e ver seu exame de consciência se tornar um “enxame de consciência” dos bichos e plantas que passaram a povoar seus sonhos. 

Ricardo Reis, feito no santo, arrebatado pelo erotismo sagrado das danças extáticas do candomblé, teria também descoberto a vertente que lhe escapava, ao experimentar concretamente um paganismo e um politeísmo ainda vivos, atuantes, diferentes daqueles do panteão grego, há muito extinto, que ele havia extraído da lírica latina como reação à crise espiritual do Ocidente. Depois de transfigurado pela presença radiante do seu orixá, compreenderia que as filhas e os filhos de santo em aliança com as divindades afrodiaspóricas jamais padeceram do niilismo europeu. 

Vale imaginar ainda, para aumentar outro ponto, Ricardo Reis deixando a Bahia em direção ao interior do Piauí para encontrar-se com o pensador quilombola Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo. No quilombo Saco Curtume, ouvindo o mestre quilombola falar sobre o paganismo politeísta das comunidades afroconfluentes, lembraria certamente do seu próprio mestre Alberto Caeiro, o poeta bucólico e descomplicado cujo ânimo pagão inspirou sua busca pelo politeísmo grego. 

Nêgo Bispo dizia que “o povo eurocristão monoteísta, por ter um Deus onipotente, onisciente e onipresente, portanto único, inatingível, desterritorializado, acima de tudo e de todos, tende a se organizar de maneira exclusivista, vertical e/ou linear. Isso pelo fato de, ao tentarem ver o seu Deus, olharem em uma única direção”. E, diferentemente, as comunidades afroconfluentes e contracolonizadoras de todos os matizes, pagãs e politeístas, “cultuam vários deusas e deuses pluripotentes, pluricientes e pluripresentes materializados através dos elementos da natureza que formam o universo, é dizer, por terem deusas e deuses territorializados, tendem a se organizar de forma circular e/ou horizontal porque conseguem olhar para as suas deusas e deuses em todas as direções”. 

A imanência que Reis buscou no politeísmo grego, fora do Ocidente moderno, ele a reencontraria encarnada nas palavras de Nêgo Bispo, nos corpos e modos de vida das diversas comunidades afroconfluentes, cuja forma de espiritualidade têm em comum o Outro como pressuposto de suas cosmopolíticas de encruzamentos e confluências. A encruzilhada é o lugar de encontro das diferenças por meio das diferenças, e as vicissitudes da modernidade ocidental e as dos povos afroconfluentes permanecem distintas, porém cruzadas.