A guerra e espasmo caósmico: 

relendo o  Plano para o planeta , de Guattari

 

Franco Berardi (Bifo)

 

Tradução de Luisa Amaral

 

 

De acordo com Freud, o inconsciente é uma produção enraizada no passado (as complexidades da família; a experiência da criança; memórias e a repressão de experiências passadas). A jogada essencial de Guattari consistiu em reverter a orientação do inconsciente em direção ao futuro. Desejo no lugar da memória.

 

"O inconsciente freudiano é inseparável de uma sociedade apegada ao seu passado, às suas tradições falocratas e às suas invariantes subjetivas. Agitações contemporâneas clamam sem dúvida por uma modelização mais orientada em direção ao futuro e por uma emergência de novas práticas sociais e estéticas" (1995).

 

 

A imaginação política não é apenas a extrapolação racional das tendências transformativas. Ela é também a interpretação de sinais que emergem na superfície do inconsciente social, nos delírios e fobias que atravessam e pontuam o discurso público e o comportamento coletivo. 

 

Os escritos políticos de Félix Guattari são geralmente tentativas de desenhar uma cartografia desse tipo de interpretação. 

 

Em  Plan pour la planète  (1980), Guattari investiga a cena geopolítica em movimento do ponto de vista do inconsciente, a energia visionária da imaginação. Todo mundo naqueles anos estava focado na polarização da Guerra Fria, na corrida para desenvolver novos sistemas de armamentos, no perigo de uma Terceira Guerra Mundial.

 

Nesse livro, ao contrário, Guattari foca na crescente integração da economia mundial, recusando a retórica do período nuclear. O subtítulo de  Plan pour la planète  é " le capitalisme mondial intégré " ou "o capitalismo mundial integrado". Esta posição aparentemente delirante mostrou ser mais visionária nas décadas seguintes.

 

Guattari diz nesse pequeno livro que não haverá nenhuma guerra entre os Estados Unidos e a União Soviética.  Ao contrário, haverá uma integração. Félix escreveu esse texto no começo dos anos 1980, uma década que terminou com o colapso do império soviético e marcou o preâmbulo para o processo de globalização que atingiu o seu auge na segunda década do novo século.

 

E então colapsou.

 

Não a guerra, mas a integração. Não a irreconciliabilidade dos Estados Unidos e a União Soviética, mas uma tendência em direção à convergência - uma integração lenta mas constante. Esse prognóstico político foi baseado em um entendimento da integração econômica do campo socialista no modo de produção capitalista, que  passava então por mudanças, e na ideia de que a evolução tecnológica estava destinada a suavizar as contradições e a integrar o consumo e os estilos de vida. A imaginação do futuro do mundo de Guattari foi uma projeção da sua rejeição da redução edípica da psicogênese.

 

Para Guattari, a psicanálise freudiana individualiza o inconsciente através do complexo de Édipo e de uma narrativa baseada na família. A esquizoanálise, por sua vez, procura liberar as pulsões libidinais para que elas operem diretamente nas multiplicidades e agenciamentos de enunciação que constituem o nosso ambiente social.

 

A versão do inconsciente da esquizoanálise foi a expressão da subjetividade social dessas décadas, ligadas a uma nova geração altamente educada e à emergência de novas formas de trabalho cognitivo. Ela foi um efeito filosófico de um movimento mundial de estudantes e pesquisadores, e da cultura feminista e da libertação gay.

 

Ao mesmo tempo, por sua vez, foi também uma forma de prefiguração da transformação neoliberal do mundo, o desencadeamento de forças enormes de produção e destruição, a aceleração que levou a mente global ao seu colapso atual.

 

Na página 38 da edição italiana de 1981 do  Plan pour la planète  (não há edição em inglês até onde eu sei), nós lemos:

 

"computadores estão dialogando de um continente ao outro, ditando as regras aos líderes políticos e econômicos. A produção informática automatizada não recebe mais a sua consistência de um fator humano, mas de uma continuidade maquínica que atravessa, contém, espalha, miniaturiza e recupera todas as funções e atividades humanas"

Graças a essa conexão do planeta em redes, que é conceitualizada através da metáfora do rizoma, o capitalismo estaria se transformando em um sistema globalmente integrado. Escrevendo no ano 1980, quando a atenção do mundo estava capturada pelo medo de uma guerra nuclear entre duas superpotências, Guattari afirmou: "não há razões para esperar um holocausto nuclear" (123).

Nenhuma guerra mundial apesar de todos os conflitos pelo planeta, mas ao invés disso, uma tendência à integração econômica: "O capitalismo global integrado é feito de transformações e ajustes recíprocos entre o capitalismo ocidental e diversas formas de capitalismo de estado" (60).

De acordo com Guattari, essa integração global não resultará em uma ordem mundial pacífica de justiça e democracia. De jeito nenhum. Ao invés disso, ela desembocará em uma nova ordem totalitária que funcionará de forma rizomática (sem centro e interconectada):  "A nova ordem totalitária que os especialistas da Comissão Trilateral conseguiram moldar não pode ser assimilada aos velhos fascismos nacionais. Essa nova ordem estará em todo e nenhum lugar" (68).

Essas palavras são uma prefiguração clara da globalização em rede que temos vivido nos trinta anos desde a morte de Félix. A ordem totalitária que foi construída durante esses anos não pode ser identificada com os velhos regimes fascistas, onde o poder era centralizado, onde a disciplina hierárquica era imposta desde cima, onde todos os tipos de oposição e dissidência eram brutalmente eliminados. A nova ordem totalitária não está no centro, ela está em todos os lugares (puramente virtual) e em lugar nenhum. Ela é desterritorializada e inscrita em todo ato de troca simbólica.

Após a pandemia, estamos saindo da esfera da globalização e entrando em uma era que ainda não conseguimos definir claramente. O que podemos dizer é que ela não será governada por uma hierarquia política. Ao invés disso, será regulada por procedimentos automáticos de governança técnica. Ao mesmo tempo, porém, o novo totalitarismo que Guattari prefigurou em 1980 será pontuado por explosões periódicas de caos que, por sua vez, irão alimentar a automação em uma espiral dupla de automação e caos.

Desde 24 de fevereiro deste ano, o mundo presenciou horrorizado uma guerra entre dois blocos que pertencem à esquizo-dimensão do capitalismo, mas que também pertencem à dimensão paranoica da Nação - a Nação se transformando em um Império. Algumas das velhas características do fascismo estão reemergindo nos dois blocos, embora seja errôneo imaginar que o fascismo do século XX esteja voltando.

O bloco russo, que chamarei provisoriamente de "soberanismo nazista" é baseado em uma projeção agressiva do culto à pátria, identidade nacional e raça. A democracia é substituída pela unidade da Nação.

O bloco americano, que chamarei provisoriamente de "liberalismo nazista", é baseado em uma primazia absoluta do lucro econômico e na substituição da decisão democrática pelos automatismos técnico-financeiros e militares.

Existe uma dimensão esquizofrênica no conflito presente, onde os dois lados afirmam estar lutando contra o nazismo: cada lado está lutando contra o fascismo do outro e colocando em ação o seu próprio fascismo.

Há também uma dimensão paranoica no conflito, na identificação de cada lado com uma Verdade transcendente (Democracia, a Nação) e a sistemática identificação do outro como o Mal Absoluto.

Podemos interpretar essa retórica de guerra esquizo-paranóica como uma duplicidade inscrita no próprio capitalismo mudial integrado, e que está em processo de desintegração. De um lado, a cultura soberanista (que não é uma prerrogativa exclusiva de Putin, mas é compartilhada por metade do espectro social, de Trump e Modi a Salvini e Bolsonaro) remete a uma dinâmica social baseada na produção de coisas físicas (petróleo, gás, trigo e tanques). Do outro lado, a cultura liberal remete às dinâmicas sociais do semio-capitalismo, baseado na circulação de signos (financeiros e a crypto-economia). Russos também produzem signos, é claro, e americanos produzem trigo e tanques. Mas meu argumento é que a imaginação econômica se orienta em duas direções diferentes.

A fuga para a abstração - o instinto básico do semio-capitalismo - está colidindo com o retorno da concretude, um retorno rancoroso e vingativo da fisicalidade das coisas, da necessidade, da fatiga, do sofrimento.

A energia caótica do vírus inaugurou o retorno da matéria. Agora os dois regimes econômicos estão colidindo e divergindo: as máquinas abstratas e as máquinas concretas do capitalismo estão engajadas naquilo que Guattari chamou de um "espasmo caósmico".

Guattari formulou o conceito de espasmo caósmico em seu último livro,  Caosmose . Ele escreveu essa frase só uma vez no livro; era apenas uma intuição poderosa que ele não teve tempo de elaborar. Mesmo assim, a frase expressa a contração dolorosa provocada pelo caos, que leva a uma transformação na relação rítmica entre o organismo e o seu ambiente.

É nossa tarefa, agora, partir das últimas palavras de Félix para encontrar a linha de fuga que escape do neototalitarismo bicéfalo. É nossa tarefa participar do processo caosmótico no qual o inconsciente se sintoniza com o caos para interpretar os seus sinais.

Publicado originalmente em  chaosmosemedia

 

Franco Berardi (Bifo)  é pensador e ativista italiano. Foi muito próximo de Félix Guattari, sobre quem escreveu mais de um livro.