inquietar a base SObERANa 

Até agora compartilhamos a sideração, o medo, a decepção, a busca de informação - considerações essencialmente afetivas e até lembranças. A guerra chegou na paisagem de nossa psique em vários tempos, disparando imagens e uma carga que vem de longe, da infância da guerra fria – e ao mesmo tempo tudo é diferente. A guerra chegou até nós com a ideia de que ela não chegava da mesma maneira para quem é da Ucrânia, Rússia, Polônia, EUA e França. Ela chegou com tudo o que ainda não nos acontece, ou se anunciando como o retorno de alguma coisa – um perigo, uma memória – que estava menos longínqua do que se pensava. É uma coisa muito imponente, ali, no canto da sala, um elefante ou um dinossauro, uma criatura histórica que produz explosões em nossos telefones. É um monstro sobre o qual nos projetamos – e uma verdadeira guerra, com exércitos, combatentes, governos, cercados, refugiados, um vocabulário.

Ao conversar agora, soletramos algumas palavras, colocamos certa ordem em nossas lembranças e desordem em nossas telas, transcrevendo a História, a realidade – para reencontrar o fio de uma perspectiva política, de um enquadre, de uma linha, a fim de apreender a situação.

Eis o que se relata nessas linhas: uma tentativa de um balanço com um foco cambiante, sem a pretensão de falar no lugar daquelas e daqueles para quem o espaço-tempo da guerra é imediato, mas indo em direção à enunciação política do que nos parece exigível para que a base soberana da guerra – capitalista, nacionalista, ecofascista – possa um dia ao menos ser perturbada.

  PSique /PERSONALIdade AUTORITária

Primeiro houve essa onda interior e histórica, na qual pudemos mergulhar, projetando esboços de ideias com corpos de afetos brutos. Esse começo era o de uma distância mal regrada, onde as palavras grudam, onde é preciso traduzir. Então, como todos, postulamos, traduzimos discursos, olhamos os mapas, contamos as horas.

Tivemos pesadelos.

Os nazistas voltaram entre os significantes povoando os sonhos, e as crianças desenharam centrais nucleares danificadas. As polaridades pulsionais do mundo se acentuaram. A guerra modificou todas as velocidades libidinais do capitalismo em curso. O problema energético se colou à ameaça nuclear. O solo, à explosão e ao esgotamento dos recursos. O território à personalidade. Um homem doente – de poder, sem dúvida, portanto, de não conhecer a verdade, ou atingido por uma degenerescência física, e que parece querer submeter o mundo a seus caprichos – a suas angústias e fobias. Os governantes quiseram bancar os enfermeiros psiquiátricos sem jamais terem construído o hospital que teria sido necessário. O perigo se concentrou no corpo. Não quiseram contrariar o tirano. Perguntaram-se como se chegou até ali.

Não se tratava exatamente de uma questão política.

Pois sob a aparência do tirano caprichoso, nostálgico de um império que ele não conheceu e que no entanto irriga a veia máscula de seu discurso, a guerra toma a forma de um abuso arcaico, de um crime onde a raça grita a plenos pulmões. Às vezes parece que não há nada a fazer contra a potência do racismo e seu caráter inalterável que se empapuça de perseguição, dizem. Pois o branco de Moscou se diz perseguido, e por toda parte encontramos brancos com sua invenção de um “racismo ao avesso”, com sua ideia de que são eles, os brancos, a minoria perseguida pelas hordas de LGBTQ+, pelas pessoas com costumes estranhos, negros, muçulmanos, travestidos de quinta coluna, e islamo-fascistas que querem acabar com esses brancos coitados. Confraria de brancos que tem como privilégio apenas o terror abjeto, a mentira que o justifica. Trump, Bolsonaro, Putin : a abjeção elevada ao estatuto de uma linguagem, condensada do espírito degenerado que compensa seu simulacro de fé por um fascismo técnico (exército, policial, de censura, de controle, a depender).

Portanto é preciso encontrar traduções políticas e levar a questão da guerra para um outro lugar. Pois a interpretação psicológica não será suficiente, ali onde o racismo está garantido; sabemos que ela não é suficiente – e felizmente – para compreender o nazismo; Putin continua e produz um discurso eurasiano apoiado por figuras que instigam um russo-fascismo (Yvan Illyin, Alexandre Dugin[1]). As razões econômicas, geopolíticas, produzem uma perfusão nas razões psicológicas que se projetam sobre ela, e dela extraem discursos de raça.

em direção a uma POSIção

É preciso revisitar a história e a geografia.

Mas uma história que já não se chamasse história.

E uma geografia que não se chamasse mais geografia.

Percebe-se que apoiamos nossa imagem do mundo sobre uma outra imagem que já não existe e que talvez nunca existiu. Cada um acorda na surpresa de um acontecimento coletivamente recalcado; um acontecimento, uma situação geopolítica, um equilíbrio mundial de livros escolares.

Território e população.

Há muitas coisas como essa que aprendemos mal. Que nos foram mal ensinadas. Que é preciso rebatizar.

Há muitas coisas como essa, numerosas zonas de denegação na psique coletiva. Coisas que se ouviu mal.

O que sabemos, por exemplo, dos “não-alinhados”?[2]

Seria preciso voltar ao que esse movimento compósito dos anos 1960 e 1970 buscava dizer de paz, de autodeterminação, de não-interferência e do desarmamento. Aprender a se desalinhar antes de encontrar uma nova linha política.

De repente nos lembramos de Alepo – ou o que isso simboliza – por causa de Kyiv/Kiev.

Em Alepo, homens olham em seus telefones imagens de Mariupol e reconhecem suas próprias ruínas, seus hospitais e escolas bombardeadas.

São as mesmas armas russas e as mesmas imagens.

Eles se perguntam por que o “Ocidente” se mexe em favor de Mariupol e não fez nada por Alepo.

Falta uma explicação.

Eles pintam afrescos das fachadas caindo aos pedaços de Alepo em apoio ao povo ucraniano.

Sempre há povos, resistentes, civis, mulheres e desenhos de crianças.

E para nós ainda há um certo trabalho por fazer – a história da diferença entre essas imagens que se parecem e nossa participação, o sentido de nossa ajuda aqui ou ali, e de nossa maneira de nos relacionar com uma guerra mais do que com outra, com uma imagem da guerra mais do que com uma outra.

O sentido de nossa relação com a Europa, por exemplo; o sentido da estranha polarização identificatória a partir da qual os fatos nos são transmitidos, nos associando a uma parte do mundo para nos separar da outra.

 

Em qual lugar, em qual momento. Em qual momento e por qual meio sou ou não sou mais europeu-europeia.

E mesmo aqui, entre a Rússia e a Ucrânia, tudo o que eu projeto não tem mais nada a ver.

É o primeiro efeito da guerra: ela é retroativa e melancólica se não tomarmos cuidado – se esquecermos que em toda destruição há um conflito, e que o que penso ver e reconhecer não é, na realidade, nada parecido com o que eu já conheço.

Lembrar de Alepo, pois, ou tomar consciência dela verdadeiramente, pela primeira vez: não para minimizar Kyiv/Kiev («por que você se interessa por Kyiv/Kiev, quando você nem ligou para Alepo », ouve-se),

Mas ao contrário, para ver os dois juntos e mudar a história e a geografia de tal modo que elas se libertem de seus limites nacionais, de suas fronteiras geomentais.

Tanto aqui como em outras coisas tudo tem que ser refeito, reaprendido, instruído de novo.

Os esquemas « ocidentais » nos quais repousa nossa compreensão do mundo revelaram sua insuficiência e sua inanidade – em contrapartida, é o intelectual dito “ocidental”, é o filósofo declarado “ocidental” também que revela sua vaidade (apesar dele, já que ele pensava saber, conhecer alguma coisa, e poder julgar). Não pode ser só questão de saber de qual lado nos colocamos – mas como se pensaram as coisas até aqui.

É supreendente, aliás, ver a que velocidade o termo ocidental voltou ao lado da palavra Europa – como se, face ao nacionalismo de Putin, não se encontrasse nada melhor do que promover o morto-vivo ocidental, opondo um nacionalismo a um outro, uma identidade a outra. A posição ocidental – César já o disse – leva ao nazismo, seja por qual lado se o tome.

Defender o ocidente, esse banho de sangue, não é defensável. E será preciso aprender a depor as ideias que nos impedem de pensar, enterrar as palavras mortas para que elas possam eventualmente ressuscitar sob uma outra forma, a fim de dirigir-se a uma posição que se sustente.

nos ‘mundam’ / ‘Munda’-se

Como passar do “se” (on) ao “nós”, sem que o “nós” esqueça o “se” que nele fala, sem rebater-se sobre o “se” mas sem esquecer seu murmúrio – sem no entanto fazer surgir um eu/nós articulado demais.

«Se» : a guerra, como outros acontecimentos (tal a pandemia) dispara e se apoia sobre mecanismos psíquicos coletivos assim como sobre más informações e verdadeiras mentiras de Estado.

Ao destacar-se pouco a pouco da massividade imaginária dessa imagem imemorial da guerra, pergunta-se onde está a verdade; e o que revela a possibilidade da guerra nuclear.

Pergunta-se o que não se quer saber, ver.

Nessa introspecção, onde se mescla a cólera de uma insuficiência filosófica (o que não pensamos, o que não conseguimos pensar), encontramos espectros assim como agentes e formas absolutamente inéditas de guerra. Mas os espectros nos dão direções que nunca podemos seguir até o fim.

A introspecção se torna inspeção da imagem do mundo, que se revela obsoleta. Pois já há muito não temos um mundo relativamente estável, relativamente polarizado, relativamente contido sobre o qual cada um/a pudesse projetar suas próximas horas de vida possíveis sobre a Terra. Este mundo e sua linguagem política em que a guerra e a força nuclear são inibidas, recusadas por princípio, nunca existiu verdadeiramente. Contentamo-nos em acreditar que a ameaça nuclear não mais existe.

Tudo o que não se quer saber, ver. Será preciso perguntar-se.

Será preciso perguntar-se por que os humanos – por que nós sempre tivemos tanta necessidade de acreditar na certeza de um mundo que se sustenta. Não nos cabe julgar essa credulidade, essa ignorância, assim como a cegueira amorosa que conduz a humanidade a acreditar e a crer; é sua condição, seu ideal, sua maravilha, seu drama.

É preciso fazer um esforço para criar as condições dessa maravilha fora da ilusão e da mentira da segurança dos Estados.

Ali onde abunda a falta de segurança, uma certa maneira de correr risco deveria abundar (mas por que, como, com qual assistência, qual possibilidade de se reproduzir – verbo a ser ouvido em todos os sentidos do termo: repetir-se, se reconstituir, durar).

E a guerra pois retorna. Ela retorna – tautologia fatal, desviando a famosa fórmula de Clausewitz assim como sua inversão (a guerra que continua a política por outros meios, ou a política como prolongamento da guerra por outros meios) – à maneira de uma guerra que continua a guerra por outros meios. Então perceberemos não só que os governos e o equilíbrio mundial se apoiam numa mentira histórica (poderíamos dizer historial), mas que essa mentira parece necessária à ilusão da civilização: à nossa sobrevivência; à nossa vontade de viver.

O que seria o desejo absoluto de viver sem querer sobreviver? É isto possível, mesmo desejável, evitar a questão da sobrevivência (pense-se, não sem reserva, na maneira pela qual o filósofo Hans Jonas quis fazer da necessária manutenção de uma “essência” humana a condição de um novo imperativo categórico)? Mas pode-se valorizar a sobrevivência como tal, acima de tudo, identificar-se ao que Nietzsche chamava de “o último homem”, aquele que busca antes de tudo viver o mais longamente possível, eternizar-se? Talvez a sobrevivência só seja desejável, imperativa, quando ela é a promessa do que pode, ainda e sempre, contestá-la – e haveria então que contar com a vida, a sobrevivência, e o que seria preciso nomear a contra-vida: uma enunciação política, uma proposição de existência, uma arte de fazer da ocasião da vida a criação do que resiste a reduzir-se a ela.

A ilusão de um (sobre)viver chega de toda maneira a seu termo, pela ameaça ecológica, há tempos o sabemos ou não temos mais como ignorá-lo. E pela guerra para a qual despertamos certa manhã; lembramo-nos brutalmente dos fatos, das informações, dos detalhes que dizem respeito a países longínquos dos quais mal ouvimos falar. Doravante não compreendemos muito bem a história que nos contamos; não sabemos onde estão as pessoas – e sobretudo damo-nos conta que não sabemos onde as pessoas estavam. Já não possuíamos o mesmo mapa do mundo – somos globalizados, mas afinal não tínhamos sequer o mapa do mundo. Nem sua geografia, nem mesmo sua história – pois a história vista da Índia, da China, da Rússia, da Croácia, de Alepo e de Bagdá, todas essas histórias que a guerra faz aparecer quebram a tela da História, que definitivamente teve várias tradições de vencedores e várias espécies de vencidos.

POLíTIca : A GUERRa OU A ReVOLUção

O que fazer, como pensar esse “o que fazer”?

Tribunas circulam, desde os primeiros dias da guerra, para defender a Ucrânia e o povo ucraniano. A fraternidade é a primeira resposta à angústia nuclear, os processos de identificação avançam numa evidência temível – em 24 horas cada qual pode dar sua opinião sobre a distribuição de armas e de punições.

Cada um se torna em segundos um diplomata ou um combatente, avatar que parece lançado para fora da esfera virtual a fim de sobreviver apenas alguns segundos – o que não será confundido com aquelas e aqueles que realmente partiram para a Ucrânia a fim de combater.

Imaginamos um povo, regressamos às formas de pensamento político as mais substanciais – um povo, uma nação, contra uma outra nação, contra um outro povo. Esses processos parecem ter o mérito de mobilizar e de tirar cada qual do grande sono geopolítico, mas será preciso analisar sua pertinência, seu caráter massivo: pois eles nos fazem passar de um sono a outro, de um sonho a outro, de um sonho de sobrevivência a um sonho de morte. Trata-se, mesmo se isso é complicado, de resistir à identificação massiva e à proteção que subitamente os Estados pretendem oferecer.

O que está em jogo, por exemplo, na responsabilidade de fornecer armas?

A única garantia filosófica, poderíamos dizer, ou talvez diretamente política – é de não deixar de pensar com as ferramentas que são as nossas inicialmente, e nas perspectivas que são as nossas inicialmente – pensá-las até a louca inatualidade da alternativa da guerra e da revolução.

Pensar então que a revolução é o único horizonte (longínquo, errante, perturbado, queer) para considerar a guerra e o lugar que nela ocupamos e o lugar que se lhe dá no mundo tal como ele é.

A perspectiva internacionalista deverá ser o ângulo sob o qual se considera o engajamento e a identificação ao combatente. Mas o internacionalismo não é aquele de que falam hoje, em defesa da reaproximação entre Estados-nação, de mais Europa ou mais OTAN. O internacionalismo para nós é aquele que ao mesmo tempo desce para aquém das identidades nacionais, e ultrapassa essas últimas, a um só tempo infra e supranacional (comunal e planetária).

Para nós, essa relação da guerra com a luta, com o movimento internacional existente (sob todas suas formas: comunistas, feministas, zapatistas, decoloniais) é ao mesmo tempo a garantia de uma autonomia existencial das pessoas, de um horizonte – e de um limite.

1) O limite. Supõe coisas que não podemos dizer, que nos proibiremos de dizer. Supõe distinguir entre as questões que são as nossas e aquelas que não o são. Pensar a partir de um horizonte revolucionário, internacionalista, é a única maneira de não se colocar, em pensamento, no lugar do Estado. O que de mais odioso, de mais obsceno, do que esses filósofos que falam como ministros, explicam o caminho a seguir, as boas bombas a enviar, as boas medidas políticas a tomar “sem fazer dissertação”, o que de mais vergonhoso do que essas pessoas, jornalistas, indivíduos trocando sua subjetividade pelo conforto do Estado do qual seriam a metonímia esclarecida?

Ora, não é possível passar do “se” ao “nós” sem correr o risco de um “eu” que não sabia o que decidir. Sem esse risco à distância da estrutura (o Estado, os conceitos prontos para o uso, o capitalismo como matriz do militantismo) só conseguimos nutrir e saturar o “se” patriótico, nacional, “ocidental” etc, em vez de se decidir.

2) A autonomia existencial. Pois é em momentos de perigo, quando tudo se revira, e poderia revirar-se ainda mais, quando podemos aprender a repensar os mapas e as histórias, é imperativo querer outra coisa, querer outra coisa por trás das coisas tais-como-são, tais-como-foram, tais como teria sido melhor que fossem.

É notável que entre os pensadores russos do eurasianismo, da “quarta teoria política” (Dugin), de um fascismo russo (Ilyin), há também revolucionários, mas não internacionalistas, que declaram que as tecnologias são o inimigo principal, que imaginam novas configurações geopolíticas, e parecem bem à frente de nossa pobreza de perspectiva política. Saibamos opor-lhes comunismos quu atravessam fronteiras nacionais em vez de produzir somente localidades ancoradas no solo; pessoas capazes de carregar sua própria morte em vez de se acreditarem apenas viventes ou – do outro lado dessa divisão – somente aptas a querer destruir; alianças queer em vez de identidades acorrentadas. Radicalidades não brancas em vez das restaurações nacionalistas; propostas revolucionárias ali onde, como dizem alguns, nem sequer há tempo para a ecologia.

É com esta aliança que poderemos inquietar a base soberana que, do coração dos Estados-nações, do capitalismo, da missão Branca, da violência macha, conduz irreversivelmente a guerra.

M.G. et. F.N.

Esse texto foi extraído do novo jornal online  In Extremis , e reproduzido por lundimatin#333 em 4 de abril de 2022.

Tradução Peter Pál Pelbart

 



[1] Cf. Santiago Zabala et Claudio Gallo, « Putin’s philosophers : Who inspired him to invade Ukraine ? » in Aljazeera, 30 mars 2022.

 

[2] Afterlives of Non-Alignment – Paul Stubbs in conversation with Srećko Pulig » in Alienocene, Stratum 11, mars 2022 ( https://alienocene.com/2022/03/30/the-afterlives-of-non-alignment/ ).