A COSMOPOLÍTICA DOS ANIMAIS  

Juliana Fausto

Título A cosmopolítica dos animais 

Autor Juliana Fausto
Projeto gráfico Luan de Freitas

Ano 2020 | 1º edição

N˚ de paginas 355

Dimensões 21 x 14cm

ISBN 979-65-86941-15-9  

Preço de capa R$ 60,00




Sobre o livro

A mudança necessária é de tal forma profunda que se diz que ela é impossível. De tal forma profunda que se diz que ela é inimaginável. Mas o impossível está por vir. E o inimaginável nos é devido. O que era mais impossível e mais inimaginável, a escravidão ou o fim da escravidão? O tempo do animalismo é aquele do impossível e do inimaginável. Ele é o nosso tempo: o único que nos resta.

                                                                                                                        Paul B. Preciado



Ao longo deste livro, procurei, por entre situações multiespecíficas, delinear alguns semblantes de políticas animais ou com os animais. Talvez a primeira conclusão, a mais óbvia e que, no entanto, permaneceu por tantas vezes oculta, é que essas políticas existem, em ato e em potência. Ninguém contestaria a afirmação de que não existe política para apenas um; mesmo assim, em grande parte dos discursos políticos, filosóficos ou não, encontra-se a pretensão de que ela diz respeito a uma só espécie, o Homo sapiens, ou a um só povo, o daqueles que se chamaram propriamente de Homens. Para fazer política, segundo eles, é preciso possuir um dom singular e
exclusivo – encarnado com excelência pelas diferentes acepções de lógos e suas variações históricas – que permitiria apenas aos homens conhecer a Justiça, o Bem, tomar decisões informadas ou agir de acordo com uma finalidade comum. Somente pela propriedade desse diferencial, essencial ou adquirido, mundos poderiam ser construídos, comunidades de fato erigidas, relações políticas travadas. Le Guin, em
um ensaio sobre animais na literatura infantil que figura na epígrafe deste trabalho, lançava uma provocação:
Deus na Bíblia diz: “Que se faça a luz”. Somente nós, humanos, de acordo com aquela bíblia, somos à imagem de Deus. Então apenas Deus e Nós podemos dizer: “Que se faça a luz”. Mas eu lhes pergunto, o que um galo às quatro da manhã está dizendo? 

O que a biota terrestre está fazendo quando, por sua interação entre si e com entes físicos, constitui o sistema biogeofísico conhecido como Gaia? O que os chimpanzés no zoológico de Burgers estão fazendo quando se aliam ou se traem? O que fazem os lobos quando brincam entre si, inventando, negociando e aceitando (ou não) os termos do jogo, e aprendendo, assim, a agir de maneira justa? O que fazem as formigas escravizadas quando sabotam os ovos e pupas de suas captoras? O que fazia Hans Esperto enquanto ensinava seus parceiros de jogo a se mover de forma que ele acertasse as perguntas que lhe eram feitas?

Sobre o autor

Juliana Fausto nasceu na zona norte do Rio de Janeiro, na madrugada de uma sexta-feira 13 da paixão, lua cheia. Anos depois formou-se em Filosofia pela UFRJ, fez mestrado em Letras na PUC-Rio e doutorado em Filosofia na mesma universidade. Hoje é pesquisadora de Pós-Doutorado com bolsa PNPD/CAPES no Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFPR. É pesquisadora do species – Núcleo de Antropologia Especulativa. Escreve e fala diante de e com extra-humanos e dissidentes do cisheteropatriarcado em uma miríade de contextos. Vive em Curitiba com Bruxo, Batatinha, Nausicaa e Marco Antonio.

 


Pet Sounds CD booklet notes, David Leaf, c.1990 and 2001.

A primeira seção do capitulo que abre este livro chama-se Pet Sounds, em referencia ao album da bando norte-americana Beach Boys, lançado em 1966. No fim desse disco, depois que a ultima cançnao se encerra, ouvimos o som de um trem e de cães latindo; depois que o trem se vai, os animais continuam a vocalizar. Esses cães, Banana, uma beagle, e Louie, um weimaraner, viviam com Brian Wilson, autor

das músicas. Sua presença insólita e o lugar privilegiado que ocupam, sendo as últimas vozes ouvidas após uma coleção de elaboradas harmonias vocais humanas, levou o musicólogo Philip Lambert a comentar: Os cães (Banana e Louie), enquanto isso, oferecem seu próprio comentário mais terrano [earthbound]. Com sua hipersensibilidade e senso de audição mais agudo, eles comunicam um entendimento do que se passou – e da vida em geral – que transcendem a compreensão humana. Esses são os “pet sounds” que Brian nos deu, a poesia em som que busca fundo em nossa consciência para enviar mensagens que não podem ser comunicadas de outro modo. Não fale, a música diz, apenas pouse a cabeça em seu ombro e escute.  Não fiz outra coisa até aqui senão falar – escrevendo. Gostaria, contudo, que esse trabalho de composição de discursos em torno da cosmopolítica dos animais pudesse

fazer, como Wilson, Louie e Banana, um movimento do lógos até a phoné, da excepcionalidade humana à animalidade compartilhada, movimento capaz de (re)inserir o lógos no mundo, tornando-se, para além de toda escrita, uma voz entre

vozes. Um desejo de difícil realização, dir-se-ia mesmo impossível – como o fim da escravidão ou a própria escravidão. Mas, como ensinou outro dissidente da Sociedade

dos Homens, o filósofo Paul Beatriz Preciado, “o impossível está por vir. E o inimaginável nos é devido” Portanto – que este livro possa latir!